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Terapia de cientistas de uma universidade de Elche, com base num implante que estimula o córtex visual, permitiram que Miguel Terol fosse capaz de ver luz, movimentos e letras grandes.
Miguel Terol, espanhol e diretor de uma rádio na cidade de Elche, foi diagnosticado com uma neuropatia óptica isquémica em 2019 - uma perda súbita da visão causada pela falta de fluxo sanguíneo no nervo ótico, um tipo de AVC que afeta os olhos.
Um médico neurologista falou-lhe num estudo experimental da Universidade Miguel Hernández (UMH) em Elche, Espanha. E em junho de 2022, em plena pandemia da Covid-19, foi operado. Abriram-lhe a cabeça e implantaram-lhe um pequeno dispositivo de 4x4 milímetros com 100 microagulhas no córtex visual, na nuca. A cirurgia tinha como objetivo estimular o córtex a reproduzir as perceções visuais.
Os resultados superaram as expetativas. Miguel recuperou parte da visão e começou a ver luz, a detetar movimentos, a identificar certos objetos e a conseguir ler letras grandes. O suficiente para o seu caso ser considerado um sucesso.
"Realizámos uma série de testes e percebemos que ele tinha recuperado parte da perceção visual”, afirmou ao jornal El País Eduardo Fernández, diretor do Instituto de Bioengenharia da universidade de Elche e responsável pelo estudo clínico no qual Terol participou, e cujos resultados foram publicados na revista científica Brain Communications .
“Ele não estava só a ver luzes; estava a ver o que estava à sua frente”, acrescentou o mesmo responsável.
A cirurgia de Miguel teve como objetivo avaliar a segurança e a viabilidade de uma prótese visual cortical baseada em neuroestimulação.
A estimulação cerebral elétrica está a revelar inúmeras possibilidades em vários campos, sobretudo em pessoas cujas capacidades são limitadas por algum motivo, como falhas de comunicação entre o cérebro e o resto do corpo.
“O procedimento envolveu o implante cirúrgico de uma matriz intracortical de 100 microeletrodos no córtex visual primário, a região do cérebro responsável pelo processamento da informação visual”, explicou ao El País Arantxa Alfaro, neurologista do Hospital Vega Baja, em Orihuela, que tratou Terol quando ele ficou cego. O implante é ligado a uns óculos que funcionam como um olho artificial, codificando o que está à sua frente e convertendo em sinais que o cérebro entende.
Miguel Terol não via como antes, mas reagia a luzes, formas e movimentos. Conseguia distinguir entre uma faca e um garfo, uma maçã e uma laranja. Mas meses depois voltou à sala de operações para retirar o implante e os médicos comunicaram-lhe que podia voltar a perder a visão.
Certto é que, três anos depois de lhe retirarem o implante, apesar de ter perdido um pouco a visão, ainda a mantém a níveis aceitáveis. Algo que deixou espantados os responsáveis pelo estudo. “A verdade é que não sabemos o que aconteceu”, admitiu Fernández.
Além de Miguel Terol, mais três pessoas participaram neste estudo, mas sem os mesmos resultados. “Os outros estavam cegos há muitos anos, enquanto o Miguel estava há três anos. Isso pode ter tido influência", acrescentou Fernández.
“Quando eu estudava medicina, se um paciente como o Miguel não se recuperasse em dois meses, já era irreversível. Não havia nada que pudéssemos fazer. Agora, o que vemos é que, após três anos, não é completamente reversível. Devemos tentar entender o que podemos fazer, até onde podemos chegar. Talvez este caso possa abrir novos caminhos para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas em casos de patologias sensoriais como deficiência visual, mas também para outras como o AVC”, concluiu o cientista.
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