Para quem tem mais de 65 anos, a média do tempo de espera até receber o diagnóstico é de 3 anos e meio.
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência. Inicialmente caracterizada pela dificuldade do cérebro registar novas memórias, esta alteração neurológica é gradual. Com o passar do tempo, o declínio das funções cognitivas evolui. O doente pode começar a perder o raciocínio, a capacidade de compreensão e perceção no espaço. Para quem tem mais de 65 anos, a média do tempo de espera até receber o diagnóstico é de 3 anos e meio, mas um novo teste sanguíneo promete reverter esta tendência.
Em Portugal, estima-se que existam cerca de 100 a 200 mil pessoas com Alzheimer, uma doença que 'entra sem pedir licença' e transforma o dia a dia de quem sofre com ela, mas também de quem se torna cuidador. "À medida que a doença vai avançando, vai como que caminhando para trás no tempo", esta é a 'regra' evolutiva da doença.
O principal fator de risco para o Alzheimer é o envelhecimento e afeta, maioritariamente, pessoas com mais de 60 anos. Ainda assim, já existem casos de Alzheimer numa faixa etária mais nova.
O diagnóstico tardio pode dever-se a diferentes motivos. Em entrevista ao Correio da Manhã, o neurologista Miguel Tábuas-Pereira, Presidente do Grupo de Estudos do Envelhecimento Cerebral e Demência, explica que esta doença, responsável pela morte progressiva dos neurónios, "começa muitos anos antes dos sintomas", um período que pode ir até uma década. Ora, isto significa que quando a perda de memória se começa a verificar, o cérebro já está há muitos anos a sofrer. Este tipo de sintomatologia pode ser facilmente associado a cansaço, falta de descanso ou depressão e isso atrasa o diagnóstico. Além disto, importa referir que o diagnóstico é também, na maior parte das vezes, tardio porque, contrariamente a outras doenças, quem sofre de Alzheimer tem dificuldade em perceber que algo não está bem. É aqui que a família e os cuidadores têm um papel importante. São eles quem pode identificar diferenças cognitivas na pessoa com quem estão habituados a conviver diariamente e, assim, alertar para a necessidade de receber ajuda médica.
Evolução na ciência
Um diagnóstico precoce é fundamental para atrasar a evolução do Alzheimer. O caminho até ele pode, agora, ser encurtado com o novo teste sanguíneo pTau217. Rápido e minimamente invasivo, através de uma simples colheita de sangue, é possível verificar se existe ou não probabilidade da pessoa sujeita à análise sofrer de Alzheimer, através da confirmação ou exclusão da patologia amiloide - característica da referida doença. Este exame servirá como uma espécie de triagem. Miguel Tábuas-Pereira explica que “é um exame que deve ser feito quando já há sintomas” e que “permite reduzir bastante o tempo até ao diagnóstico”.
Grande parte do risco da doença de Alzheimer é também hereditário. Para quem tem um familiar doente, o pTau217 pode ser um tranquilizante. “Nestas pessoas que já têm um peso psicológico alto de estar a sofrer antecipadamente com uma coisa que não sabem se vão ter, este exame se for negativo pode tranquilizá-las sem dúvida, uma vez que, pelo menos neste momento, não há sinais de evidência desse processo estar a acontecer no cérebro”. Se os resultados forem outros, aí é “importante que procurem um médico”.
“É claro que no contexto certo é um exame de diagnóstico fidedigno, portanto se uma pessoa já tem sintomas que parece uma doença de Alzheimer ele confirma o diagnóstico. Agora, quando esta hipótese ainda é um bocado remota um teste positivo pode não significar nada”, frisa o neurologista. Apesar das vantagens, Miguel Tábuas-Pereira adverte para o facto de não existir 100% certezas que uma pessoa, cujo teste indique probabilidade de vir a sofrer com Alzheimer, seja efetivamente afetado por esta doença. As supostas alterações neurológicas podem nunca chegar a acontecer.
Conseguindo o diagnóstico precoce, existem já anticorpos endovenosos que “mostram uma redução da progressão da doença”, alerta profissional. São caros, não comparticipados e a percentagem de doentes que cumprem com todos os critérios para a sua administração é ainda pequena. Ainda assim, “estes fármacos que puseram o pé na porta abrem a esperança” para quem recebe um diagnóstico tão difícil. “Ver essa luz já é terapêutico”, frisa o profissional Miguel Tábuas-Pereira.
“O diagnóstico o mais precoce possível aumentará o benefício deste tratamento porque, à medida que é feito, atrasa a doença”.
No dia a dia é também importante que o doente pratique atividade física e receba alguns estímulos. “Tudo o que for uma pessoa estar ativa do ponto de vista cognitivo, físico e social, são tudo mais valias na proteção contra a doença”, remata o neurologista.
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