O Dia Mundial Sem Tabaco reforça a urgência de combater o tabagismo, um dos principais responsáveis pelo cancro do pulmão em Portugal. A pneumologista oncológica Rita Rosa explica o impacto do vício, os ganhos da cessação e o papel decisivo do diagnóstico precoce.
31 de maio de 2026 às 09:00Otabagismo continua a ser o “principal fator de risco para o desenvolvimento do cancro do pulmão, estando associado à maioria dos casos diagnosticados”, alerta a pneumologista oncológica Rita Rosa, do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO de Lisboa), na sequência do Dia Mundial Sem Tabaco, assinalado a 31 de maio.
Em Portugal, o cancro do pulmão mantém-se entre os tumores mais letais, com cerca de 5.000 novos casos e aproximadamente 4.000 mortes por ano. Apesar da crescente informação sobre os seus malefícios, o consumo de tabaco persiste. “A explicação está, em parte, na nicotina, uma substância altamente aditiva que cria dependência e torna o abandono do hábito um processo exigente. A isto acresce o facto de o tabaco conter dezenas de substâncias cancerígenas que danificam o ADN e favorecem o desenvolvimento de tumores”, explica Rita Rosa.
No que respeita ao cancro do pulmão, deixar de fumar reduz significativamente o risco de desenvolver a doença, mesmo em pessoas com muitos anos de consumo
pneumologista oncológica no IPO de Lisboa
O tabagismo inicia-se frequentemente na adolescência, e fatores sociais, comportamentais e culturais continuam a alimentar essa dependência. A especialista sublinha também os ganhos de abandonar o vício: “Deixar de fumar traz benefícios mensuráveis em qualquer idade. No que respeita ao cancro do pulmão, deixar de fumar reduz significativamente o risco de desenvolver a doença, mesmo em pessoas com muitos anos de consumo. Embora o risco nunca regresse aos níveis de um não fumador, diminui de forma progressiva e sustentada com o tempo. Para quem já recebeu um diagnóstico de cancro do pulmão, deixar de fumar melhora a resposta aos tratamentos, reduz complicações cirúrgicas e infeciosas, potencia a eficácia da quimioterapia, imunoterapia e radioterapia e associa-se a uma melhor qualidade de vida e maior sobrevivência global.”
Dependência tabágica é doença crónica
Sobre a dependência do tabaco, a pneumologista oncológica Rita Rosa é clara: “A dependência tabágica é uma doença crónica e recidivante. Não existe um momento exato em que possamos afirmar que uma pessoa está ‘completamente livre’ da adição, porque a vulnerabilidade à recaída pode persistir durante muitos anos. No entanto, os primeiros três meses são habitualmente os mais difíceis do ponto de vista físico e comportamental. Após um ano sem fumar, o risco de recaída diminui substancialmente.”
A importância do diagnóstico precoce é outro ponto central. “O cancro do pulmão é frequentemente silencioso nas fases iniciais, o que faz com que muitos casos sejam diagnosticados já em estádios avançados. Quando identificado precocemente, o tratamento pode ser realizado com intenção curativa, muitas vezes através de cirurgia, associada ou não a tratamentos complementares. Nestes casos, as taxas de sobrevivência aumentam de forma muito significativa”. É precisamente por isso, lembrou, que “o rastreio do cancro do pulmão já está implementado em vários países, tendo demonstrado uma redução da mortalidade na ordem dos 20% nos estudos que sustentaram a sua adoção.”
O CANCRO DO PULMÃO PODE NÃO APRESENTAR SINTOMAS INICIAIS, SENDO MUITAS VEZES DIAGNOSTICADO TARDIAMENTE. QUANDO DETETADO PRECOCEMENTE, PODE SER TRATADO COM INTENÇÃO CURATIVA, GERALMENTE ATRAVÉS DE CIRURGIA, COM OU SEM TRATAMENTOS COMPLEMENTARES.
O rastreio do cancro do pulmão é simples. “Consiste na realização de uma TAC torácica de baixa dose, um exame rápido e não invasivo que permite detetar nódulos pulmonares, frequentemente antes do aparecimento de sintomas. Atualmente, o rastreio é recomendado para populações de maior risco, nomeadamente fumadores ou ex-fumadores com carga tabágica significativa. O objetivo é identificar tumores em fases iniciais, aumentando a possibilidade de cura e reduzindo a mortalidade associada à doença.”
Por fim, Rita Rosa deixa sinais de alerta: “Os sintomas do cancro do pulmão podem ser inespecíficos e muitas vezes confundidos com problemas respiratórios comuns, sobretudo em fumadores. No entanto, existem sinais de alerta que justificam avaliação médica: tosse persistente ou alteração de uma tosse habitual; falta de ar progressiva; dor torácica; rouquidão persistente; expetoração com sangue; perda de peso inexplicada; cansaço persistente; infeções respiratórias recorrentes, como pneumonias. É importante reforçar que o aparecimento destes sintomas não significa necessariamente cancro, mas deve motivar observação médica, especialmente em fumadores ou ex-fumadores”. No fundo, conclui, “quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores são as possibilidades de tratamento eficaz.”