Nariz sempre tapado e perda de olfato durante meses não são normais. “Muitos doentes vivem anos a pensar que são constipações ou alergias, quando na verdade têm rinossinusite crónica com pólipos nasais”, alerta a otorrinolaringologista Mariana Donato.
26 de abril de 2026 às 09:00Sintomas como o nariz constantemente obstruído, a perda de olfato e o cansaço acumulado fazem parte da vida de milhares de portugueses que pensam sofrer apenas de alergias ou sinusites repetidas. Na verdade, podem esconder uma doença inflamatória crónica ainda pouco diagnosticada: a rinossinusite crónica com pólipos nasais. Frequentemente associada à asma e a outras doenças alérgicas, esta patologia tem um impacto profundo no sono, no desempenho profissional e na saúde emocional. A otorrinolaringologista Mariana Donato responde a todas as dúvidas sobre esta doença.
Que sintomas devem levar a procurar um especialista e a suspeitar que não se trata apenas de uma constipação ou sinusite comum?
A rinossinusite crónica com pólipos nasais é frequentemente confundida com constipações repetidas ou alergias, o que atrasa o diagnóstico. O principal sinal de alerta é a obstrução nasal persistente — o “nariz sempre tapado” durante meses ou anos — sem alívio duradouro com tratamentos habituais. A perda de olfato e, muitas vezes, do paladar é também muito característica. Podem ainda surgir corrimento nasal, pressão facial e dor de cabeça. Quando estes sintomas são contínuos ou recorrentes, é fundamental consultar um otorrinolaringologista, porque o diagnóstico e tratamento adequados fazem uma diferença significativa na qualidade de vida.
A obstrução nasal crónica compromete o sono: há respiração oral, ressonar, sono fragmentado e sensação de não descanso. A fadiga resultante afeta a concentração, memória e desempenho profissional. A perda de olfato tem também um impacto emocional relevante, estando fortemente associada a sintomas de ansiedade e depressão
Otorrinolaringologista
Porque é que a rinossinusite crónica com pólipos nasais está tão associada à asma e a outras doenças alérgicas?
Esta associação não é coincidência: existe uma base biológica comum. Todas estas doenças partilham um mecanismo inflamatório semelhante, conhecido como inflamação tipo 2. Trata-se uma reação de defesa do organismo exagerada, em que algumas substâncias do sistema imunitário permanecem ativas de forma crónica, provocando inflamação persistente nas vias respiratórias. Isto explica porque muitos doentes têm simultaneamente rinossinusite com pólipos e asma, ou acabam por desenvolver ambas. Por isso falamos frequentemente no conceito de “via aérea única”, em que nariz, seios perinasais e pulmões funcionam como um sistema interligado.
Como é que esta doença afeta a qualidade de vida dos doentes no dia a dia?
O impacto é muitas vezes subestimado, até pelo próprio doente, que se vai habituando aos sintomas. A obstrução nasal crónica compromete o sono: há respiração oral, ressonar, sono fragmentado e sensação de não descanso. A fadiga resultante afeta a concentração, memória e desempenho profissional. A perda de olfato tem também um impacto emocional relevante, estando fortemente associada a sintomas de ansiedade e depressão. Diversos estudos mostram que a qualidade de vida destes doentes pode ser comparável à de doenças consideradas mais graves como a doença pulmonar obstrutiva crónica ou a insuficiência cardíaca.
Porque é que a medicação e a cirurgia nem sempre conseguem controlar a doença a longo prazo e explicam as frequentes recidivas?
A explicação está na natureza crónica e inflamatória da doença. Os corticoides nasais são fundamentais para controlar a inflamação e reduzir os pólipos, mas não eliminam a causa. Os corticoides orais são mais eficazes a curto prazo, mas não podem ser usados de forma prolongada devido aos efeitos secundários. A cirurgia endoscópica dos seios perinasais melhora significativamente os sintomas e a qualidade de vida, mas, sobretudo em doentes com inflamação tipo 2 mais intensa, pode não ser suficiente.
De que forma os novos tratamentos biológicos podem mudar a vida dos doentes?
Os tratamentos biológicos representaram uma mudança de paradigma. Ao contrário das abordagens tradicionais, que controlam sobretudo os sintomas, estes fármacos atuam diretamente nos mecanismos da inflamação tipo 2 que está na origem dos pólipos. São anticorpos dirigidos a moléculas específicas da cascata inflamatória, interrompendo o processo na sua origem. Os resultados que observamos na prática clínica são, para muitos doentes, transformadores. Falamos de pessoas que durante anos viveram em ciclos de medicação intensa e cirurgias repetidas, e que agora conseguem finalmente estabilizar a doença de forma sustentada. A obstrução nasal melhora de forma significativa, muitos doentes recuperam o olfato que pensavam ter perdido para sempre, e, nos casos em que há asma associada, há frequentemente uma melhoria simultânea da doença pulmonar.
Porque é que nem todos os doentes são elegíveis para estes novos tratamentos?
A maioria dos doentes controla a doença com terapêutica médica e, quando necessário, cirurgia. Os biológicos são reservados para casos graves e refratários, que não respondem adequadamente às opções convencionais. O papel do otorrinolaringologista é identificar os doentes que beneficiam, iniciar o tratamento de acordo com as recomendações e monitorizar a resposta ao longo do tempo.
Para mais informações, consulte o seu médico.
NP-PT-RS-JRNA-260002 | 04/2026