Olga Tarnovska foi obrigada a recomeçar depois de ser retirada de Pripyat aos 9 anos. Jorge Lima, professor da IPATIMUP, lembra o papel da equipa portuguesa no estudo do cancro após o acidente nuclear na Ucrânia.
Olga Tarnovska foi obrigada a recomeçar depois de ser retirada de Pripyat aos 9 anos. Jorge Lima, professor da IPATIMUP, lembra o papel da equipa portuguesa no estudo do cancro após o acidente nuclear na Ucrânia.
É na voz embargada que Olga Tarnovska recorda a infância em Pripyat, a cidade ucraniana fundada em 1970 para os trabalhadores de Chernobyl. Tinha nove anos quando uma explosão no reator 4 da central nuclear, onde o pai era engenheiro, lhe roubou parte da infância e lhe trouxe traumas para a vida.
“Recordo-me de que aconteceu de uma sexta-feira para sábado. Fui para a escola e ninguém me avisou do perigo. Todos os anos tínhamos um exercício para simular uma explosão nuclear. Sabíamos que tínhamos de descer para um refúgio no subsolo da escola e que nos tinham de distribuir um medicamento com iodo, para que a absorção da radiação nas crianças não fosse tão grande. Mas nada disso aconteceu”, conta ao CM, nos 40 anos da tragédia.
Olga e toda a família sofrem de problemas na tiroide. Só foram retirados da zona de risco, a cerca de dois quilómetros da central, 36 horas depois da explosão. Estiveram demasiado tempo em contacto com a radiação, que afetou sobretudo as crianças.
“O acidente de Chernobyl libertou grandes quantidades de iodo radioativo (iodo-131), que se depositou nos solos, entrou na cadeia alimentar (através de vegetais e leite contaminados) e, desta forma, no corpo humano, onde se acumulou na tiroide. O impacto do iodo-131 fez-se sentir sobretudo em crianças, que foram expostas por inalação e por ingestão de leite e alimentos contaminados. O facto de a tiroide das crianças estar em desenvolvimento tornou-a particularmente suscetível à radiação”, explica o professor Jorge Lima, que integrou a equipa liderada pelo médico e professor Sobrinho Simões, do IPATIMUP – Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto –, e que esteve diretamente envolvida no estudo de cancros da tiroide ocorridos em consequência da maior tragédia nuclear da História.
A população de Pripyat foi retirada em autocarros para outras zonas da Ucrânia, na altura União Soviética. Olga foi com os pais e as duas irmãs para casa de desconhecidos e, mais tarde, para casa de uma tia, em Kiev.
“Ficámos lá duas a três semanas. Começaram a fazer-nos exames médicos. Lembro-me de uma coisa que foi horrível, porque entrámos numa espécie de casa de banho pública e, como consideravam que estávamos contaminados com radiação, deram-nos um duche, a todas as crianças nuas e às mães. Parecia que estávamos num campo de concentração, a sermos regados por mangueiras. Foi uma experiência traumática”, recorda.
Olga lembra-se de colocar no lixo as roupas que trazia no corpo e de vestir outras. “Não sei de onde saíram aquelas roupas, se foi o Estado que as providenciou, não me lembro. Mas, a partir daí, fizemos exames médicos todos os anos num centro especializado, que ainda hoje está aberto. Acho que as pessoas afetadas por Chernobyl podem fazer exames adicionais e gratuitos”, refere.
Parecia que estávamos num campo de concentração, a sermos regados por mangueiras
O especialista Jorge Lima recorda que se demorou a reconhecer a dimensão do acidente e a proteger as pessoas contra o iodo radioativo. “Poderia ter sido feito com a toma de iodo normal para saturar a tiroide”, refere, acrescentando que também houve falhas no controlo do leite e dos alimentos potencialmente contaminados.
O iodo-131 é uma substância que emite radiação. “Quando se acumula na tiroide, a radiação proveniente do iodo-131 pode danificar o ADN das células da tiroide e causar mutações genéticas que, por sua vez, podem transformar células normais em células cancerígenas, ou seja, cancro da tiroide.”
Olga conta que sempre foram informados dos riscos da radiação e que, no final do primeiro verão após a tragédia, muitos foram os casos de crianças “com cancro e leucemia”.
“Também não foi fácil a nível psicológico, porque as meninas que tinham nove, dez e onze anos foram as mais afetadas ao nível do sistema reprodutor. Por isso, sempre tive receio de ter filhos. Claro que, depois da radiação, nasceram crianças com malformações, e isso é uma sombra que eu trago dessa altura.”
Jorge Lima explica que os casos de Chernobyl “não têm propriamente mutações genéticas exclusivas, mas sim uma maior frequência de rearranjos/fusões (chamados RET/PTC) e menor frequência de outras alterações típicas dos casos esporádicos, como a mutação V600E no gene BRAF”. O especialista acrescenta ainda que, até hoje, “não há evidência convincente de que os filhos dos expostos [à radioatividade] tenham maior risco de cancro da tiroide”.
A equipa do IPATIMUP fez parte de um consórcio internacional – o Chernobyl Tissue Bank –, sediado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e que envolvia várias instituições de diversos países. O professor Jorge Lima recorda que a equipa contribuiu para a caracterização molecular dos cancros da tiroide pediátricos pós-Chernobil, “nomeadamente através de estudos sobre alterações do ADN mitocondrial e estudos sobre um gene em particular, o gene BRAF”.
“Esta nossa experiência permitiu obter um perfil genético destes cancros e continua ainda hoje a informar o nosso trabalho relacionado com biomarcadores moleculares”, explica o médico.
Olga é uma dos 50 mil habitantes de Pripyat que foram obrigados a recomeçar a 26 de abril de 1987. Sofreu bullying na escola e nas ruas e não esquece a tristeza de uma inocência que foi impedida de viver.
O professor Jorge Lima esclarece que se sentiu um grande peso psicossocial do acidente de Chernobyl, para além do aumento do risco de cancro nos expostos em idade pediátrica. Destaca ainda que a medicina está hoje mais preparada para um acidente nuclear: “Existem protocolos com iodo, monitorização radiológica, planos CBRN (químicos, biológicos, radiológicos e nucleares) e maior treino em comunicação de risco e resposta a emergências”.
Também o diagnóstico de cancro da tiroide está mais evoluído. Passou-se da ecografia e citologia/histologia convencionais para a integração de ecografia de alta resolução, punção aspirativa por agulha fina e testes moleculares, que permitem detetar alterações genéticas potencialmente úteis no tratamento da doença.
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