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Um radar contra a solidão

Mais de 5.000 farmácias, mercearias e cafés de bairro tornaram-se radares contra a solidão de quem tem 65 ou mais anos, num projeto pioneiro sustentado pelas receitas dos Jogos Santa Casa.

24 de agosto de 2026 às 09:00

Há quem viva a poucos metros de uma farmácia, de uma mercearia ou de um café, sem que ninguém dê por isso. Em Lisboa, mais de 5.000 destes pequenos negócios tornaram-se olhos e ouvidos atentos a situações de solidão ou vulnerabilidade de quem tem 65 ou mais anos. O Projeto Radar é o destino do décimo terceiro e último episódio da iniciativa “Boas Causas”.

Por uma cidade mais atenta

O isolamento das pessoas mais velhas é um problema silencioso. Foi para lhe dar resposta que nasceu o Radar, uma “parceria colaborativa que procura chegar às pessoas em situação de maior fragilidade e vulnerabilidade da cidade de Lisboa, muito em particular as pessoas mais velhas em situação de isolamento”, explica Mário Rui André, coordenador do Programa Lisboa Cidade COM VIDA Para Todas as Idades, no qual esta iniciativa se integra.

Polícia e voluntários participam em projeto contra solidão em Lisboa
Polícia e voluntários participam em projeto contra solidão em Lisboa FOTO: CStudio

À volta da mesma causa juntam-se a Câmara Municipal de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, as 24 juntas de freguesia, a PSP e as unidades locais de saúde, criando uma rede que partilha informação e conhecimento do território com um objetivo comum: “Dar resposta às necessidades identificadas destas pessoas.”

À Santa Casa cabe a gestão operativa de todo este ecossistema, dos mediadores de proximidade à plataforma do Radar e às atividades que desenvolve, como a unidade móvel que percorre a cidade. É desta estrutura que nasce o conceito que dá nome à iniciativa: “Hoje, temos constituída na cidade de Lisboa uma rede com mais de 5.000 radares comunitários. Portanto, 5.000 estabelecimentos de comércio local que aderiram a esta rede e que, neste momento, já são identificadores de situações críticas, de situações de vulnerabilidade.”

A proximidade faz a diferença

Entre os parceiros que dão corpo a esta rede estão as Farmácias Holon, que juntam à atividade comercial uma componente de cuidado ativo com a comunidade, através de uma intervenção mensal. “Fazemos rastreios de saúde numa unidade móvel que percorre vários locais distintos da freguesia, para poder abranger o maior número de pessoas possível”, explica Marta Teles, farmacêutica responsável pela intervenção na comunidade e responsabilidade social do grupo.

Marta Teles, Farmácias Holon
Marta Teles, Farmácias Holon FOTO: CStudio

Mas há outra dimensão desse trabalho que não se mede em rastreios. Uma farmácia de bairro é, muitas vezes, um lugar onde se conhecem rostos e costumes do dia a dia. “Conhecemos os utentes e conhecemos as suas rotinas diárias, os seus hábitos de vida”, sublinha Marta Teles. É esse conhecimento que pode permitir agir antes que uma situação se agrave, através de uma “referenciação em que temos garantia que essa pessoa é encaminhada para os serviços de que necessita”.

A vida continua

A importância dessa proximidade percebe-se melhor quando se olha para quem está do outro lado da rede. Maria Alves é uma das pessoas acompanhadas pelo Radar. Foi através desta rede que conheceu a Universidade Sénior, que descreve como “uma coisa que é superinteressante, gosto muito”. O contacto mantém-se através de telefonemas e convites para participar nas atividades e há uma consequência simples, mas que para Maria faz toda a diferença: “Obriga-nos a sair de casa todos os dias; eu vivo sozinha, por exemplo”. É esta boa experiência que a faz querer passar a palavra: “Estou farta de recomendar a pessoas minhas amigas e conhecidas, para a pessoa não se fechar em casa, porque é superimportante sair”.

Maria Alves é participante no Projeto Radar, um projeto contra a solidão
Maria Alves é participante no Projeto Radar, um projeto contra a solidão FOTO: CStudio

A história de Maria mostra que, na prática, uma rede pensada para combater o isolamento não ajuda apenas a identificar quem pode estar mais vulnerável, mas também a criar oportunidades para que essa pessoa continue ligada aos outros e à comunidade.

Uma rede com milhares de pessoas

A dimensão do projeto vai muito além dos estabelecimentos que funcionam como radares comunitários. “Neste momento, temos integradas na plataforma cerca de 42 mil pessoas. E, portanto, estamos a conseguir alcançar cerca de 3.500 chamadas mensais”, revela Mário Rui André.

O objetivo não é apenas manter o contacto. “O que procuramos fazer é dar conhecimento às pessoas do que é que se está a passar no seu bairro, na sua área de residência, e fazer com que essas pessoas se envolvam e participem cada vez mais nas dinâmicas comunitárias”.

Mário Rui Andre coordenador do Programa Lisboa Cidade COM VIDA Para Todas as Idades
Mário Rui Andre coordenador do Programa Lisboa Cidade COM VIDA Para Todas as Idades FOTO: CStudio

Até dezembro de 2025, eram 41.093 as pessoas com 65 ou mais anos acompanhadas pelo Projeto RADAR. Tinham sido realizados mais de 27 mil contactos telefónicos e cerca de 4 mil ações presenciais, entre visitas domiciliárias, caminhadas, sessões de informação e sensibilização e convívios comunitários. Foram também realizadas 884 ações no exterior e perto de 3 mil visitas a Radares Comunitários. A plataforma digital que sustenta este trabalho é partilhada por 31 organizações parceiras, um número que continua a crescer à medida que mais farmácias, mercearias, associações e cafés de bairro se tornam, também eles, radares comunitários.

Unidade Móvel do Projeto Radar.jpg
FOTO: CStudio

RADAR EM NÚMEROS Projeto Radar • Integra o Programa Lisboa Cidade COM VIDA Para Todas as Idades • Mais de 5.300 radares comunitários (farmácias, mercearias, associações, cafés de bairro) • 31 organizações parceiras na plataforma digital • Cerca de 42.000 pessoas integradas na plataforma • Cerca de 3.500 chamadas mensais • Até dezembro de 2025, eram 41.093 as pessoas com 65 ou mais anos acompanhadas pelo Projeto RADAR • Tinham sido realizados mais de 27 mil contactos telefónicos • Foram realizadas cerca de 4 mil ações presenciais

Jogar também é cuidar

O Projeto Radar integra a área de ação social financiada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa através das receitas dos Jogos Santa Casa, à qual cabe 26,52% dos resultados dos jogos sociais do Estado. Em 2025, 59,5% dessas receitas foram canalizadas para a ação social, a maior fatia entre as diferentes áreas apoiadas.

Nesse mesmo ano, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado cerca de 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. A importância dessa ligação foi resumida assim pelo provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Paulo Sousa: “A confiança que os portugueses nos conferem quando decidem jogar num dos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é depois retribuída à sociedade de uma forma tão diversa, mas sempre tão relevante.”

No Radar, essa devolução ganha uma expressão particularmente próxima: uma rede de milhares de pessoas e pequenos negócios atentos a quem pode estar a viver sozinho. A integração neste Projeto pode ser feita através da Linha Informativo RADAR, pelo telefone 213 263 000 (dias úteis, das 9h00 às 18h00), ou através do e-mail projetoradar@ scml.pt. Existe ainda a possibilidade de inscrição online no site Lisboa Cidade Com Vida para Todas as Idades, em https://lisboacomvida.scml.pt/projeto- -radar/#facaparte.

Boas Causas

Ao longo de treze semanas, a iniciativa “Boas Causas” percorreu Portugal para mostrar aquilo que raramente se vê: que por detrás de cada aposta nos Jogos Santa Casa há instituições e pessoas concretas a beneficiar desse apoio. Do património cultural de Lisboa ao Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, das casas de autonomia para crianças e jovens aos atletas que conciliam a vida académica com a desportiva, foram treze as histórias contadas a partir de diferentes realidades. O Projeto RADAR encerra esta viagem com uma mensagem que atravessou todos os episódios: o impacto de uma aposta não termina no momento em que o jogo acaba.

JOGOS SANTA CASA (2025)

870

milhões de euros entregues ao Estado

97,3%

do valor gerado pelos Jogos Sociais regressou à sociedade

26,52%

dos resultados dos Jogos Sociais destinam-se à SCML

59,5%

das receitas canalizadas para a Ação Social

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