Uma paisagem de cortar a respiração, um mergulho na História e a descoberta dos Caminhos de Santiago. A região das Astúrias convida a dias de puro deleite.
22 de novembro de 2019 às 10:22
Localizada no Noroeste de Espanha, a região das Astúrias é conhecida pela sua vasta zona de costa, pela beleza das montanhas, mas também pelos seus locais religiosos e pela arquitetura medieval. É uma zona repleta de magia, onde os encantos naturais se fundem com a História de vários séculos.
Não será de estranhar, já que o Reino das Astúrias foi o primeiro território da Península Ibérica a deixar para trás o domínio dos mouros, depois da invasão. Tirando partido da sua cadeia montanhosa, os cristãos tomaram conta daquele pequeno local no Norte da Península Ibérica e a partir daí partiram para o processo de reconquista cristã. Pouco tempo depois nascia o Reino das Astúrias.
O Reino foi-se estendendo e, em determinada altura, a Galiza e o sul das Astúrias passou a ser chamado Reino de Leão, cabendo ao então rei Fruela o controlo de toda a área do Noroeste Peninsular cristão.
Mas antes disto já outro rei tinha desempenhado um papel determinante para o futuro da região:
Afonso II das Astúrias, o Casto.
Um reinado piedoso
Proclamado rei em 791, Alfonso II reforçou a presença na Galiza, Leão e Castela, repovoando estes locais. Terá morrido em 842, após conduzir, ao longo de 52 anos, o governo do reino de forma piedosa.
Mas não sem antes o seu reinado ficar ligado a um dos mais importantes acontecimentos da região: a descoberta do túmulo de Santiago por um eremita de Compostela.
Um centro de peregrinação cristã
A descoberta do sepulcro despertou a curiosidade do monarca, Afonso II, que se deslocou ao local para contemplar o achado, tendo posteriormente mandado erguer ali um coreto funerário.
Descoberta numa altura em que o rei enfrentava revoltas internas, o túmulo de Santiago ajudou a consolidar a guerra de reconquista aberta com os muçulmanos. Se um servo do Senhor tinha escolhido como última morada os territórios asturianos, só poderia significar que estes gozavam de graça divina, levando a uma maior união dos de dentro e a preocupações acrescidas daqueles que tentavam invadir o território.
Afonso II torna-se o primeiro peregrino da História e, embora não se saiba ao certo qual o itinerário seguido, aceita-se como válida a hipótese que aponta que terá caminhado para aquele remoto canto da Gallaecia seguindo a rota romana que unia Lucus Asturum (atual Lugo de Llanera) com Lucus Augusti (Lugo).
De resto, este é um itinerário que sobreviveu até aos dias de hoje, mantendo a essência das peregrinações primordiais do Caminho de Santiago. E são cada vez mais os romeiros que optam por seguir esta rota para se encaminharem, ao estilo dos medievais, para a longínqua Compostela.
O primeiro Caminho de Santiago passava pelos territórios do Reino das Astúrias. Por cobrir o trajeto entre a sede régia, Oviedo, e o último confim do mundo conhecido – Compostela, na finisterra, acrescentava à sua condição de rota de peregrinação um forte valor simbólico. Atualmente, o chamado Caminho Primitivo, que conta 321 quilómetros, é o que melhor soube conservar as essências que rodeavam os antigos caminhantes.
Entre Oviedo e Grandas de Salime, a rota percorre o que viria a ser a faixa central do Sudoeste asturiano. Trata-se de uma área de geografia complexa e que dificultou, até muito recentemente, o desenvolvimento das infraestruturas. Desta forma, as terras mantinham a sua vinculação com a agricultura e a pecuária e conservavam o ambiente caracterizado por uma paisagem agreste e de grande beleza.
O Caminho Primitivo nasce às portas da catedral de Oviedo, um monumento no qual se destaca a Câmara Santa, construção pré-românica que foi capela palatina de Afonso II.
Nos primeiros passos encontram-se joias como a capela das Dores, em Grau/Grado. Mais à frente, o palácio dos Miranda-Valdecarzana e a muralha medieval, reconstruída recentemente, ou o mosteiro de San Salvador de Cornellana, que une românico e barroco.
O palácio dos Cienfuegos de Peñalba encarrapita-se sobre as casas de Pola de Allande e o cume do porto do Palo ainda acolhe os restos da barragem romana que lhe deu nome. Para ali chegar, os peregrinos deverão passar Buspol e a formosa barragem de Salime. No povoado de Castro resiste ao tempo o admirável Chao Samartín, onde as casas pré-romanas e as ruínas do que foi a mansão romana do chamado "senhor de Grandas" dão fé da importância que estas paragens tiveram nos séculos dourados do império. Uns poucos quilómetros a oeste, o porto do Azevinho marca a entrada nas terras da Galiza.
A arte pré-românica e o primeiro caminho de Santiago são dois dos mais importantes legados do Reino das Astúrias, ambos
Património Mundial da UNESCO.
A declaração tem mais de 30 anos, tendo sido concedida a Santa María del Naranco, San Miguel de Lillo e Santa Cristina de Lena. Recorde-se que a arte da monarquia asturiana é datada nos séculos IX e X.
Antes e, principalmente depois, desta distinção, milhares e milhares de pessoas desfrutaram já da contemplação e explicação da origem desta arte, testemunho de uma época histórica em que a consciência europeia foi forjada, e para a qual a monarquia asturiana contribuiu de forma decisiva.
Mas quem viajar pelas Astúrias poderá encontrar outros exemplos do pré-românico, num total de 17 monumentos que ainda hoje são preservados.
Mas quem viajar pelas Astúrias poderá encontrar outros exemplos do pré-românico, num total de 17 monumentos que ainda hoje são preservados.
Pelo Caminho da Costa
É a costa mais bem preservada de Espanha e uma rota especial para os caminheiros. Não será por acaso que os romeiros medievais começaram a optar pelo Caminho da Costa, um percurso de 815 quilómetros que atravessava o Noroeste peninsular seguindo a linha da costa.O itinerário oficial, que consta de 13 etapas à sua passagem pela comunidade autónoma, pode dilatar-se ou contrair tanto quanto os peregrinos desejarem, para que cada qual possa moldar os seus passos às exigências do caminho.
Também chamada Caminho de Santiago de la Costa, esta rota foi definindo pouco a pouco a direção daqueles que vinham de mais além e procuravam caminhos menos árduos para Compostela.
A partir de Irun se chega a Santiago depois de atravessar todo o Norte peninsular. Entra-se nas Astúrias pela ria de Tina Mayor e abandona-se a comunidade autónoma pela ria do Eo, percorrendo ao longo desse périplo mais de 283 quilómetros e 21 concelhos.
Oportunidade para tomar contacto com as Astúrias mais rurais ou de forte pendor piscatório, mas também com o seu lado urbano, num perfil completo e idiossincrásico.
O itinerário oficial, que consta de 13 etapas à sua passagem pela comunidade autónoma, pode dilatar-se ou contrair tanto quanto os peregrinos desejarem, para que cada qual possa moldar os seus passos às exigências do caminho.