A QUADRILHA DA BOA VONTADE

Numa altura em que a discussão em torno da "música portuguesa" parece esgotada, depois da Assembleia da República ter legislado sobre novas quotas de passagem na rádio, eis que a terreiro sai a Quadrilha.

20 de outubro de 2003 às 00:00
A QUADRILHA DA BOA VONTADE Foto: d.r.
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O grupo é até conhecido do público, leva já uns quantos anos de carreira e discos no currículo mas, verdade seja dita, pouca visibilidade tem tido. Na rádio, então, poucas têm sido as oportunidades de escutar a Quadrilha que, apesar da desfeita, não esmorece.

A prová-lo está o novo registo do grupo liderado por Sebastião Antunes. Intitulado "A Cor da Vontade" (Ed. Vachier & Associados), o quinto trabalho de estúdio da Quadrilha é, em primeiro lugar, um sintoma (tranquilizador) da boa saúde da música popular portuguesa. Na verdade, enquanto houver grupos como a Quadrilha a Nossa música (cultura) não morrerá.

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RIQUEZA INSTRUMENTAL

"A Cor da Vontade" é, no entanto, um disco que reflecte um passo importante para a Quadrilha. Um risco, portanto, assumido pela banda, que desta vez pode reclamar, com direito, não ser mais um grupo folk "à lá celta".

De facto, embora sem desdenhar raízes e apoiado na firme convicção de que em música não há fronteiras, o grupo alarga o espectro de influências, nomeadamente a Sul, como se pode conferir em "Não Dêem Cabo do Mundo" e "Mértola", impregnados ambos do suave encantamento arabizado.

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Mas há mais nesta jornada da Quadrilha, que alarga também o leque de instrumentos (sonoridades, portanto) e aos tradicionais portugueses junta agora as flautas andinas, o didjeridou e as congas árabes. Desta forma, a Quadrilha como que aspira à conquista de uma universalidade até agora negada. Os exemplos abundam mas atente-se, por exemplo, no travo reggae de "Nem Mal que Sempre Dure..." ou do tradicional mirandês "Nos Tenemos Muitos Nabos". Todos diferentes, todos iguais; apenas música.

Depois, há ainda a registar as participações especiais de Janita Salomé (em "Mértola") e o grupo feminino Segue-me à Capela que, mais do que adorno, imprime a sua marca nos respectivos temas.

Num disco que impressiona pela enorme riqueza instrumental, realce ainda para o carácter interventivo de algumas das líricas e, ao mesmo tempo, o apelo à memória colectiva expressa em títulos como "Vade Retro Satanás", "Nem Mal que Sempre Dure..." ou "Quem Bem Faz a Cama...".

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