Touros na Moita em domingo de sol
Festa de Maio dá nova vida à vila.
Domingo de sol, tarde convidativa para uma ida aos touros. Moita engalanada pela Festa de Maio, corrida de data, evento que marca a abertura do ano taurino na vila. Meia casa forte, a puxar para os três quatros de casa. Frise-se que desde o anúncio da corrida que na Moita muito se falou da qualidade do cartel, ou da falta de qualidade do mesmo, para esta Praça. Dizia-se que a corrida assentaria apenas na mudança de cabo do Aposento da Moita e que apenas isso faria as gentes da Moita deslocar-se à Praça. Para agravar a situação, à mesma hora e com honras de transmissão televisiva em canal aberto, ocorria a final da Taça de Portugal. Perante este quadro, uma boa casa na Moita.
E a corrida desmentiu aqueles que criticaram o cartel e deu razão a João Pedro Bolota, o empresário da Praça.
Comecemos pelo curro de toiros. Um curro de Sommer d’Andrade, de excelente apresentação, touros com 4 anos, peso e cara (à exceção do último, que tinha peso, mas pouca cara), e eram duros, muito duros mesmo. Toiros que as primeiras figuras se recusam a tourear. No domingo na Moita assistimos a uma corrida de verdade, para toureiros apenas, onde a mínima falha era aproveitada pelo touro e tinha um custo imenso para os toureiros.
Abriu praça Luís Rouxinol, que teve pela frente um touro com 510 quilos. Uma lide regular, sem nada a distinguir. Andou limpinho, cravou quando tinha de cravar, mas tudo muito regular. O público pediu o par de bandarilhas e Luís tentou agradar, acabando por cravar dois meios pares de bandarilhas. Uma tarde sem nada para recordar.
Para a primeira pega da tarde saiu José Pedro Pires da Costa, que se despedia de cabo e passava a jaqueta a Zé Maria Bettencourt. José Pedro Pires da Costa citou com alma. O toiro arrancou e José Pedro fechou-se bem na cara do touro com o grupo a ajudar bem. Uma pega à primeira tentativa bem conseguida e que Zé Pedro merecia.
Depois a cerimónia de troca de liderança nos forcados e a volta de honra com a Praça de pé, na despedida de José Pedro Pires da Costa.
Quando o segundo toiro saiu à arena, ouviu-se um "bruá". Saiu um animal anunciado com 605 quilos, mas que todos diziam que havia pesado mais na balança. Parece que nesta corrida na Moita, ao contrário do que costuma acontecer, foi necessário "tirar" peso aos touros.
Para lidar este touro saiu à arena a cavaleira Sónia Matias. O toiro era mansote, aparentando pouca mobilidade ou interesse no cavalo. Mas investia bem no capote dos bandarilheiros, mostrando investida e codícia pelo capote. Precisava de uma lide mais a curto, que lhe enchessem a cara de cavalo. Sónia não o compreendeu e pura e simplesmente não o lidou. Dois ferros compridos a grande distância e dois curtos sem história, ferros que nem sequer sagraram o toiro. Um toiro que pura e simplesmente não foi lidado. E assim foi um touro com mais de 600 quilos para a pega. Adivinhava-se um trabalho muito difícil para os forcados.
E aqui começou a escrever-se a história da corrida e talvez a história do Aposento da Moita nos próximos tempos. José Maria Bettencourt, que tinha vestido a casaca de cabo há poucos minutos, não hesitou. Agarrou no barrete e tomou a liderança do grupo; Se é o mais difícil? É para mim. E assim foi. A primeira tentativa é épica. Zé Maria esteve perfeito, mandou na sorte, reuniu-se como vem nos compêndios e alapou-se na cara do touro. Este ligou o motor, e qual comboio, começou a correr pela praça, fugindo ao grupo. Zé Maria fez mais de meia praça na cara do Touro, aguentando barbaridades. Todos quiseram ajudar o miúdo. Para a arena saltaram bandarilheiros, cavaleiros e outros elementos que estavam na "teia", inclusive os ex. cabos Hélder Queiroz e Tiago Ribeiro e os ex. forcados Pedro Brito e Sousa e o seu filho Pedro Sousa. Todos queriam ajudar. Depois de quase uma volta à arena com o forcado na cara, o touro consegue largar o jovem. A Moita veio abaixo. Zé Maria voltou à cara do toiro e voltou a fazer outra pega brutal, lutando quase sozinho contra aquele comboio. Voltou a perder, com o touro a tirá-lo da cara. Mandava o bom senso que se encurtassem terrenos e se pegasse o toiro a sesgo de forma a retirar-lhe velocidade. Zé Maria não quis, foi novamente à cara e de praça a praça. Citou, chamou-o, reuniu novamente de forma perfeita e novamente lutou bravamente com o touro, acabando por ser atirado para o chão. Recuperou folego, sentou-se no estribo, recusou ser dobrado, bebeu água, respirou fundo e foi lá novamente. Desta vez a sesgo, pegou o touro, que vendo-se fechado pelo grupo, ia derrubando a trincheira.
Este enorme Zé Maria. Bem esteve igualmente o Diretor de Corrida Pedro Reinhardt, que apesar de a pegar se ter efetuado à quarta tentativa mandou o forcado para a volta. Desde 1998 que vejo touros na Moita e nunca vi a praça assim, de pé, a aplaudir o seu cabo, numa pega à quarta tentativa.
Zé Maria ganhou o grupo e a Moita. Ele que no grupo tinha a alcunha de "cabito" deste que liderou os forcados juvenis do Aposento da Moita. Perdeu essa alcunha. Chamem-lhe o que quiserem, mas hoje é Cabo de pleno direito e papel passado. Parabéns Zé Maria; foste e estiveste enorme.
Uma palavra para o bandarilheiro da quadrilha de Marcos Bastinhas, Gonçalo Veloso, também ele em tempos um valoro forcado dos Amadores de Santarém. Esteve enorme. Tentou ajudar Zé Maria na primeira tentativa, e que ajuda ele deu, mostrando a muitos forcados como se deve ajudar. Lesionou-se com gravidade, tendo sido levado para a enfermaria da praça e depois para o Hospital do Barreiro.
A praça ficou ao rubro, as emoções subiram, o clima era então de uma corrida de touros. Mais emoção que razão.
Para o terceiro da tarde, um touro com 505 quilos, saiu Filipe Gonçalves. Uma boa atuação. Filipe demonstrou estar bem montado, com uma boa quadra de cavalos. Lidou bem, citando sempre bem, dando vantagens aos touros, cravando no sítio e depois dobrando-se com os touros. Terminou com um bom par de bandarilhas. Uma boa passagem de Filipe Gonçalves pela Moita a justificar plenamente a sua inclusão no cartel.
Para a terceira pega da tarde saiu o focado João Rodrigues, forcado que também se despedia nessa tarde do grupo. Um touro duríssimo, a pedir messas aos forcados. Por duas vezes arrasou o grupo, tendo o João Rodrigues conseguido fechar-se à terceira tentativa, numa dura e excelente pega. Nesta pega, o carismático forcado José Maria Ferreira, Zô para os amigos e uma das almas do grupo, lesionou-se com alguma gravidade, tendo espasmos no chão da arena da Daniel do Nascimento. A preocupação instalou-se, pois a tragédia de Nuno Mata ainda está demasiadamente presente na Moita. Felizmente tudo parece estar bem.
A segunda parte abriu com Marcos Bastinhas. O cavaleiro de Campo Maior saiu para lidar um touro com 510 quilos. Menos enérgico que noutras ocasiões, parecendo respeitar demasiadamente o touro. Nunca pisou terrenos de compromisso, pelo que a lide foi insonsa e sem nada para recordar.
Para a pega deste touro, saiu Nuno Inácio, um dos forcados referência do grupo da Moita. Na primeira tentativa, o touro saiu mal viu o forcado e este demorou uma fração de segundo a reagir, o suficiente para não se conseguir fechar. Voltou à cara do touro e consumou a pega à segunda tentativa, novamente uma pega muito rija com o toiro a fazer tudo para derrotar o grupo e este a fazer tudo para o parar. Ganhou o grupo, mas novamente alguns forcados vieram marcados, tal a violência do "Sommer d’Andrade".
António d’Almeida entrou na praça para lidar o quinto da tarde, um touro com 560 quilos. Muita desconfiança relativamente a este cavaleiro, pouco conhecido e pouco toureado. E foi uma agradável surpresa. O triunfador da tarde. Bem montado, a saber o que estava a fazer, uma enorme surpresa na Moita. Dois bons ferros compridos, os melhores compridos da tarde. Trocou de montada e cravou três bons ferros curtos. Mas teimava em não chegar ao público. Estava a ser uma lide muito boa, com o Diretor de Corrida a ter essa noção e a mandar tocar a música quando devia ser, porque era um prémio para a lide e o público continuava desligado do cavaleiro. António tem pois de rever este aspeto, de como conseguir chegar ao público. E António d’Almeida resolveu arriscar tudo. Foi buscar um cavalo e perante um touro duro e difícil pôs a carne toda no assador. Citou em muito curto, a escassos três metros do touro, provocou-lhe a investida dando-lhe todas as vantagens e com uma batida ao pinto contrário colocou os dois melhores ferros da corrida. "Olé António d’Almeida". Bem-vindo.
Para a cara do touro, o cabo José Maria Bettencourt escolheu o forcado Ruben Serafim. Ainda o grupo não estava completamente formado e eis que o touro ao ver os forcados decide investir imediatamente. Mandaria o bom senso, que o forcado desfizesse a pega e mandasse novamente colocar o touro no sítio. Ruben Serafim não fez nada disso. Entrou o touro com enorme coragem, agarrou-se a ele ou antes, alapou-se ao touro, o grupo fechou e consumou um pegão. Esteve enorme o forcado. Ruben Serafim, que há uma semana tinha igualmente feito uma enorme pega no Montijo, parece saltar de rabejador do grupo para forcado da cara. E que forcado.
A fechar a corrida, a praticante Mara Pimenta. Bonita figura em praça, elegante a trajar e a montar. Pela frente um touro de 590 quilos. Mara não se atemorizou. Montando um cavalo que pertenceu à quadra de Diego Ventura, decidiu mostrar aos companheiros de ofício ao que vinha. Recebeu o touro à porta dos curros, sem recurso a bandarilheiros, dobrando-se com ele, como deve ser. Depois, bem depois, cravou dois excelentes curtos. Trocou de cavalo, e sempre com uma calma enorme, parecendo que transpirava experiência, a mais nova do cartel deu uma autêntica lição de bem tourear. Muito na brega, na escolha dos terrenos para deixar o touro e na escolha dos terrenos para citar. Reuniões perfeitas e grandes ferros, sempre bem rematados. Tudo muito bem feito.
Mara mereceu estar neste cartel e nesta corrida e tanto ela como António d’Almeida fizeram questão de mostrar que estão preparados para maiores desafios.
Para pegar o último da tarde saiu à arena o forcado Leonardo Mathias. Citou bonito, mandou na investida do touro, reuniu bem e fechou com brilhantismo uma dura e rijíssima pega à primeira tentativa.
Para os forcados, esta foi uma corrida muito dura. No final eram visíveis as marcas dessa dureza, entre os muitos forcados lesionados – uns mais graves –, a maioria com lesões menos graves. Hoje as dores de todos eles devem ser enormes. Mas o Aposento da Moita precisa desta corrida. Esta corrida e este curro de touros fazem crescer um grupo. Aglutinam as pessoas. O grupo no domingo cresceu anos. Hoje está muito mais coeso e muito mais forte mentalmente. Quem pegou aqueles touros, pega em qualquer grupo.
Uma boa corrida, como demonstrou o final. As pessoas ficaram nas imediações da praça a discutir com grande emoção o que havia acontecido. A forma como os forcados eram tratados, dizia o respeito que granjearam do público que tinha estado na corrida. Ninguém queria ir para casa. Neste domingo, houve festa a sério na Moita e houve festa porque houve touros a sério, houve emoção, e porque aqueles que estavam nas bancadas viam a cada momento que não eram capazes de fazer o que faziam os toureiros e os forcados. Havia perigo na arena e sentia-se esse perigo. E é este perigo que nos faz ir aos touros.
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