A polémica que envolve a Fundação Amália tem mais um episódio. Depois das dívidas ao Fisco surgem agora contradições sobre a propriedade da fadista no Brejão. Enquanto a imobiliária Era se diz aberta a propostas de venda, a Fundação que gere os bens da fadista desmente e garante que só quer alugar os nove hectares que foram refúgio da diva.
A quinta de férias de Amália Rodrigues, situada em Brejão, Odemira, está à venda por 1,25 milhões de euros. Segundo o ‘CM’ confirmou junto da imobiliária Era, a venda da propriedade, situada à beira-mar e com uma área de nove hectares, terá sido autorizada pela Fundação que gere o património da fadista aquando das notícias das dívidas fiscais desta instituição para com o Estado. “Os interessados podem contactar-nos para um eventual negócio, desde que as propostas sejam interessantes”, referiu fonte da Era ao ‘CM’.
A situação foi contudo desmentida ao nosso jornal por Amadeu Aguiar em nome da Fundação. Além de desconhecer qualquer iniciativa do género, o advogado garante que a instituição não venderá os terrenos e moradia do Brejão, mas poderá arrendá-los. Nesse sentido existem negociações com o industrial de hotelaria Dionísio Pestana.
No Brejão a notícia não foi bem recebida. “É muito triste ver o património desfazer-se desta maneira”, confessou ao ‘CM’ a brejense Francisca, mais conhecida por Xica, amiga e confidente de Amália quando esta passava férias na quinta.
Comprada há 45 anos por Amália por 300 contos (1500 euros), a quinta era o refúgio preferido da fadista. “Apaixonou-se por aquele pedaço de terra e disse que já não saía do Brejão sem ele”, recorda Xica. Ao longo da vida Amália passou ali grandes temporadas, sobretudo nos meses de Verão, ao lado dos amigos íntimos e do marido, César Seabra. Aliás, foi o companheiro quem desenhou a casa, com mais de 200 metros quadrados e composta por um rés-do-chão com dois quartos, salas de jantar e de estar mais cozinha e por um sótão com os quartos de hóspedes. Da casa sai uma escadaria até à praia da Seiceira, hoje conhecida por praia da Amália e frequentada apenas por corajosos, uma vez que os últimos degraus foram destruídos pelo mar. “Quando olhava pela vidraça com vista para o mar Amália dizia que parecia estar dentro de um navio”, lembra Xica.
Além do jardim e de um eucalipto importado pela fadista, que entretanto murchou, a quinta tem ainda uma piscina e um monte que serve de anexo. As paredes pintadas com malmequeres, margaridas e outras flores que a fadista tanto apreciava são a imagem de marca da propriedade.
Amália começou a perder o encanto pela quinta quando lhe foi diagnosticado o cancro no pulmão, 15 anos antes de morrer. A partir daí passou a preferir a vida nos grandes centros para estar próxima dos cuidados de saúde. Aos amigos chegou a confidenciar que um dia ia vender o refúgio por ter medo de ali morrer sozinha. Das palavras passou aos actos e, após uma conversa com o marido, no início dos anos 90, decidiu pôr a quinta à venda por 500 mil contos. Sem interessados, baixou para 350 mil. Manteve este preço mesmo após a morte do marido e baixou para os 250 mil dias antes de falecer.
BREJÃO NUNCA RECEBEU HERANÇA DEIXADA EM TESTAMENTO PELA FADISTA
Amália adorava o Brejão e criou laços de amizade com as gentes locais. Para retribuir o carinho deixou em testamento à terra o dinheiro correspondente a 15 por cento dos lucros da Fundação. O objectivo era ajudar à manutenção do posto médico mas, em oito anos, ninguém viu um tostão. “Criámos um centro social, inaugurado este ano, com posto médico, biblioteca e sala multiusos, e contactámos a Fundação, mas não obtivemos resposta. Vamos enviar uma carta para saber se contamos com apoio porque não podemos equipar o posto médico sem saber se temos ajudas”, disse ao CM António Pacheco, presidente da Associação Cultura e de Desenvolvimento Económico e Social do Brejão. Este proprietário do Turismo Rural Casa da Seiceira, vizinho da quinta de Amália, apontou ainda uma das prioridades locais: “Era importante recuperar o acesso à chamada praia da Amália, já que escadas estão praticamente destruídas e são perigosas.”
"SE VOLTASSE À VIDA MORRERIA LOGO DE SEGUIDA DE DESGOSTO"
“Vejo tudo isto com muita tristeza”, explica Xica, uma das primeiras pessoas do Brejão a contactar com Amália quando, em 1962, ela adquiriu a propriedade.
Foi no ano seguinte a casar-se no Brasil com César Seabra, que dedicava especial atenção à quinta. Amália era muito querida no Brejão e na freguesia de São Teotónio, concelho de Odemira, e fez logo amigos para a vida. “A minha família tinha uma mercearia em São Teotónio e ela foi lá comprar bananas. Eu vendi-lhas e disse-me que tinha muito prazer em ver-me. Desde esse dia nunca mais nos largámos”, recorda Xica, enquanto mostra, orgulhosa, livros, discos, bilhetes e outros objectos assinados ou oferecidos pela fadista. Na altura, Xica tinha 19 anos. “Era muito mais nova, mas criámos grande amizade. Ela era uma pessoa muito carente e triste. E muito bondosa com as pessoas”, conta.
Xica lembra ainda o último episódio que viveu com Amália. “Ela estava com outras pessoas a ver o pôr-do-Sol quando lá cheguei ao fim da tarde. Cumprimentei-a, fui à pesca e, quando regressei, tinha um bilhete no carro a informar que a Amália se sentira mal e partira para Lisboa. Horas depois faleceu”, referiu.
Sobre a polémica em torno da Fundação, desabafa: “É triste. Se Amália voltasse à vida morreria logo a seguir de desgosto.”
"FOI AMÁLIA QUEM DEU RELÓGIO DE OURO À SUA MAQUILHADORA"
“Sou testemunha presencial da oferta, pela D. Amália, de um relógio de ouro à maquilhadora, D. Alice Valente, numa segunda-feira de Maio de 1999, aquando da gravação de um programa para a TV Galicia”, conta o médico Hélder Bértolo, que considera “falsa e infame” a referência feita num direito de resposta publicado no CM pelo advogado Amadeu Aguiar, presidente da Fundação Amália Rodrigues.
Amadeu Aguiar diz na sua carta que “toda a fortuna de Amália Rodrigues continua intacta, conforme foi deixada, à excepção do relógio de pulso em ouro que Amália usava todos os dias e que após a sua morte foi abusivamente dado pela Senhora Leonilde – D. Lili – à Senhora que fez a maquilhagem dos restos mortais de Amália”.
Hélder Bértolo disse ao CM que não admite a “afirmação caluniosa” e recorda o que se passou à volta das filmagens para a TV, no Mosteiro dos Jerónimos e nas Portas do Sol em Alfama: “O programa foi gravado numa segunda-feira e como Amália ia fazer play-back, algo de que nunca gostou, passámos a tarde e a noite de domingo a ensaiar. No dia quem maquilhou Amália foi a D. Alice Valente, em quem ela muito confiava. Para agradecer o ânimo recebido Amália deu-lhe o relógio. Aliás, deve faltar outro bem na lista de pertences, uma gravata Versace que Amália me ofereceu, nesse mesmo dia, pelo incentivo e amizade.” conclui o médico.
"CHAMADO PARA TRATAR DA VENDA DE ANDARES"
Foi através do guitarrista José Fontes Rocha e por indicação de Fernando Machado Soares, voz maior do fado de Coimbra, autor da balada ‘Coimbra tem mais encanto/Na hora da despedida’ e juiz jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, que o advogado Amadeu Costa Aguiar, com diploma de três licenciaturas além da de Direito, passou a trabalhar para Amália Rodrigues em meados dos anos 90. A questão que motivou a procura de um advogado foi o contencioso com o inquilino de um dos andares de que a cantora era proprietária num prédio da rua Presidente Wilson, entre as avenidas João XXI e de Paris, ao Areeiro, em Lisboa. A presença do advogado junto de Amália fez dele testamenteiro e hoje presidente vitalício da Fundação criada com o legado da artista.
VISITAS A CINCO EUROS POR PESSOA NA CASA-MUSEU EM SÃO BENTO
O valor imobiliário mais importante do legado de Amália – a residência de três pisos e águas furtadas nos números 191 e 193 da rua de São Bento, em Lisboa – é difícil de avaliar pelas condicionantes de ser património da cidade. De acordo com a vontade da cantora, que desejava nada ver alterado na sua residência durante 44 anos, desde 1955 até à morte, tornou-se casa--museu. A Fundação Amália Rodrigues abriu-a ao público em 22 de Julho de 2001. As visitas guiadas pelas salas do 1.º andar e quartos do 2.º custam actualmente cinco euros por pessoa. Há também uma loja de venda de CD.
PRÉMIOS DE FADO AMÁLIA RODRIGUES
Os Prémios Amália Rodrigues, atribuídos em 17 categorias que vão de intérpretes e músicos a autores de fado, são uma iniciativa da Fundação
FINANÇAS PEDEM 2,3 MILHÕES DE EUROS
O imposto sucessório fixado pelo Fisco aos bens legados por Amália ascende a 2,3 milhões de euros. Se fosse aplicado acabaria com a Fundação
RECONHECIDA UTILIDADE PÚBLICA
No Diário da República de 19 de Outubro atribuiu-se, com efeitos retroactivos a 2000, o estatuto de utilidade pública à Fundação Amália Rodrigues
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