Concorreram 18, foram escolhidos seis para ir às audições mas só dois foram apurados para ‘a grande final’: os actores Castro Guedes e Francisco Brás. Um deles será António de Oliveira Salazar no espectáculo ‘Férias Grandes com Salazar’, que o Teatro Nacional D. Maria II vai estrear, simbolicamente, no dia 24 de Abril e com o qual lança mais uma acha para a fogueira.
Se ‘A Filha Rebelde’ – que se estreia esta semana na Sala Garrett – conta a história da filha do último director da PIDE se fixou em Cuba, ‘Férias’ é uma comédia burlesca do espanhol Manuel Martinez Mediero que nos pinta o ditador português como o homem que geria as contas domésticas como um merceeiro. Palavra de ordem: desmistificar.
Para o encenador, José Carretas, que estreou esta peça há dez anos em Idanha-a-Nova, a ideia de fazer um casting para escolher um actor é totalmente nova, mas impunha-se, uma vez que trabalha sobretudo no Porto e não conhece suficientemente bem os actores da capital.
“Salazar é uma figura tão carismática que era preciso encontrar alguém que fosse fisicamente compatível com a personagem”, explicou, acrescentando que, surpreendentemente, até amadores responderam ao anúncio colocado no jornal e que tanta euforia gerou nos meios teatrais. “Houve um senhor, de 72 anos, que me disse que nunca tinha feito nem teatro nem cinema, mas que várias vezes tinha sido confundido na rua com pessoas do antigo regime...”, contou.
E se há dez anos, o espectáculo não provocou qualquer desacato – as representações foram pacíficas e “o público riu muito” – Carretas espera que, no Nacional, a história se repita. “Irá sempre haver quem ache que a peça é politicamente incorrecta e que ‘não se brinca com estas coisas’, mas, a haver reclamações, não serão significativas”, afirma.
E só para que não haja equívocos, acrescenta que o desafio que lhe foi lançado pelo Nacional para refazer este espectáculo em Lisboa data de há um ano, nada tendo a ver com o controverso programa ‘Grandes Portugueses’, da RTP 1.
DOIS HOMENS PARA UMA CADEIRA
CASTRO GUEDES
Nasceu em 1954, no Porto, e foi fundador de várias companhias de teatro (entre elas a Seiva Trupe e o TEAR). Trabalhou como encenador convidado em Lisboa e um pouco por todo o país, estagiou com Jorge Lavelli em Paris e é presentemente director artístico do Centro Dramático de Viana do Castelo, que ameaçou encerrar se não tiver “subsídios decentes”.
FRANCISCO BRÁS
Nascido em Alcoutim em 1955, é actor, encenador e professor de teatro. Trabalhou com companhias independentes como o Teatro Ibérico ou a companhia Teatral do Chiado, entrou em filmes como ‘Francisca’, de Manoel de Oliveira ou ‘Requiem’, de Alain Taner, e em produções televisivas como ‘Vila Faia’ e ‘A Mala de Cartão’. Fundou e dirige o Grupo de Teatro Crinabel.
NA MERCEARIA
O cenário do espectáculo de José Carretas vai ser uma mercearia (!) e em vez da tradicional secretária, o público encontrará Salazar atrás do balcão, a gerir Portugal como se gere uma pequena loja de bairro. José Carretas diz que muito daquilo que aparecerá em cena é verídico: “É um facto que Maria criava galinhas no quintal de S. Bento e era o próprio Salazar quem geria as contas domésticas, ralhando com ela quando cobrava menos do que devia pelos ovos com duas gemas...”
RESPEITAR A HISTÓRIA
O encenador diz que só um espanhol podia escrever uma peça como esta, pois nós, portugueses, ainda não nos conseguimos distanciar o suficiente da nossa História recente: “É importante recuperar Salazar de forma verdadeira.”
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