'Cumplicidades', o novo disco do mestre, tem vozes de Rui Veloso, Fernando Ribeiro, Vanessa da Mata e Ana Bacalhau.
'Cumplicidades' é muito mais do que o título de disco não é? É já a sua postura perante a música!
Sim. É a minha postura sobretudo perante a guitarra portuguesa, com quem tenho uma enorme intimidade desde os meus sete anos. Sempre tentei ao longo da minha vida dignificar este instrumento que sempre esteve subjugado ao fado. O que fiz foi tentar libertar a guitarra portuguesa.
E acha que o tem conseguido ao longo destes seus já 50 anos de carreira?
Honestamente, acho que ao fazer projetos como aqueles que já fiz por exemplo coma Orquestra Sinfónica de Londres ['The London Philharmonic Orchestra' em 1996], com músicos de jazz americanos ['Red Hot Lisbon com KD Lang' em 1998], com músicos brasileiros ['Lisboa-Rio' em 2000] ou com músicos indianos ['LisGoa' em 2010] - tenho pelo menos conseguido provar quese pode ir mais além com a guitarra portuguesa.
Este disco é então só mais uma etapa deste longo percurso!
Sim. Acho que este novo disco, 'Cumplicidades', tem muito a ver com o meu percurso. Aliás, aqui até gravei comalguns artistas que eu admirava muito e com quem nunca tinha tido a oportunidade de trabalhar antes.
Já que fala nisso, há aqui algumas cumplicidades no mínimo improváveis, como a do Fernando Ribeiro, dos Moonspell. Não é fácil imaginar o António Chainho a ouvir metal gótico!
[Risos] Esta cumplicidade tem uma história que começou há três anos, quando os Moonspell me convida- ram para fazer um espetáculo com eles na Torre de Belém, daqueles organizados pela Câmara Municipal de Lisboa. E daí ficámos amigos.
Como é que recebeu na altura esse convite? Afinal estamos a falar de uma banda de metal que a única coisa que tem em comum com o fado é vestir-se de preto...
Confesso que, inicialmente, estranhei o convite, mas a verdade é que eu também já tinha feito uma colaboração com os Blasted Mechanism, que se calhar ninguém esperava. Na verdade, eu gosto disto, estes são de- safios que considero sempre altamente positivos. No caso do Fernando Ribeiro cheguei aestar comele em minha casa para falarmos, e tenho de confessar que passei a ter uma enorme admiração por ele, porque é uma pessoa muito culta.
E como é que se desafia um metaleiro para cantar fado?
[Risos] Quando oconvidei, ele disse-me logo: "Ó António, issopara mim é uma honra, mas eu não sou fadista!" E eu respondi-lhe: "Mas é precisamente por isso que te estou a convidar. Fica descansado que eu vou compor uma coisa que se encaixe bem na tua voz."
E o resultado final correspondeu?
Sim. Fiquei muito feliz por ele ter aceitado este convite. Acho que são estas coisas que dignificam a minha querida guitarra.
É permitido cruzar a guitarra portuguesa com todos os géneros musicais ou deve haver limites?
A música é universal. A guitarra portuguesa não é um instrumento como o piano, que é, provavelmente, o mais completo que existe. Porém, a meu ver, há caminhos difíceis de explorar comela por causa da afinação.
Mas é um instrumento que continua a encantar o Mundo!
Sim. Eu recordo-me de que quando gravei para a Orquestra Sinfónica de Londres nenhum dos músicos que ouviu a gravação acreditava que aquele som viesse apenas de uma só guitarra. Foi o maestro José Calvário que me levou aos Abbey Road Studios para eu tocar na frente deles. Quando me ouviram foi logo a primeira coisa que me perguntaram: qual era a afinação.
E os mais puristas do fado, não se incomodam de ver a guitarra portuguesa por outras áreas?
Isso sempre houve e sempre haverá. Os puristas entendem que o fado deve ser só de uma maneira e que não deve ter grandes mudanças em termos de harmonia. Eu acho que eles apenas têm razão quando se trata de fados que foram compostos por grandes fadistas e que fizeram melodias lindíssimas. E é verdade que há alguns guitarristas que não respeitam o trabalho que foi feito, tirando a beleza das melodias originais.
E quando é que eles não têm razão?
Eu acho que não podemos esquecer que a guitarra portuguesa também tem a sua evolução, assim como teve a guitarra espanhola. Lembro-me de que o Paco de Lucia me chegou a dizer isso mesmo, que a guitarra portuguesa tinha de evoluir. Os guitarristas de flamenco começaram a determinada altura a convidar vozes, e foi isso que eu comecei também a fazer, quando a rádio deixou de passar música instrumental.
Mas é mais difícil para um instrumentista obter reconhecimento?
Primeiro é preciso dizer que para aprender a tocar guitarra portuguesa é preciso gostar. Este é um instrumento muito difícil. Depois de abrir as escolas que tenho em Santiago e em Grândola percebi que há muitos alunos que desistem.
Porque é que isso acontece?
Porque isto exige muito trabalho. Eu dediquei-me muito e acho que as pessoas me conhecem e me prestam o devido reconhecimento, mesmo sabendo que em Portugal não se valoriza muito o artista português. Na minha primeira fase de guitarrista ainda se passava muita música portuguesa, mas recordo-me de que logo a seguir ao 25 de Abril, em que o fado foi considerado fascista, muita da música que se ouvia em Portugal vinha lá de fora. Por isso é que eu acho que, depois de tudo, até sou bem reconhecido, sobretudo sabendo que a guitarra portuguesa ainda tem um longo caminho a percorrer.
E, afinal, há ou não há fado novo?
Há. A evolução do fado e da guitarra portuguesa tem sido imparável. O fado, como eu o conheci primeiramente, era uma coisa muito arrastada. Tivemos um grande guitarrista chamado Armandinho, que deu uma grande evolução ao fado, mas naquela altura a guitarra portuguesa ainda era tocada apenas à base do fado Corrido, Menor e Mouraria. Foram os próprios fadistas que foram fazendoas suas composições e, por isso, foram aparecendo fados com nomes dos fadistas. Hoje são também os jovens guitarristas a darem um grande contributo ao instrumento.
Nunca tentou cantar?
Não, porque a minha voz não é assim lá muito famosa [risos]. O que acontece muitas vezes, e voltou a acontecer neste disco, é eu ter de gravar primeiro com a minha voz para os cantores aprenderem as canções. O amor que eu sempre tive pela guitarra nunca me deixou ir por outros caminhos, como o do canto [risos]. Ainda assim, cheguei a cantar na minha aldeia quando era novo e quando fazíamos desgarradas. Era o nosso divertimento no café do meu pai, até às quatro da manhã, com um copo de vinho e um chouriço assado.
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