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Correio da Manhã

Cultura
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Mazgani: "Adotei e fui adotado por Portugal"

Veio para Portugal aos cinco anos, depois da revolução Iraniana. ‘LifeBoat’ é o seu quarto disco.
18 de Abril de 2015 às 17:54
Shahryar Mazgani estudou Direito, mas foi na música que descobriu a vocação
Shahryar Mazgani estudou Direito, mas foi na música que descobriu a vocação FOTO: Rita Carmo
Há muita gente que se refere ao Mazgani quase comoum nome de culto, um segredo ainda muito bem guardado. Sente isso?
Eu faço música em casa sem pensar muito nisso. Quando faço as minhas canções quero é escrevê-las, acabá-las e cantá-las. Sou apenas um tipo que quando está em casa a fazer música não está a pensar se vai tocar no estádio de Wembley ou para quatro gatos-pingados. Claro que temos sempre o desejo de que o Mundo seja hospitaleiro para com o nosso trabalho, mas nunca penso na ressonância do que faço. Se existe algum culto em torno de mim, não fui eu que o criei.

O Mazgani é iraniano, mas nunca optou por cantar nem na língua do Irão, nem em português. Foi uma opção estética?
Uma coisa que eu recusaria sempre era cantar em pársi, que é a língua do Irão, porque lá a música clássica é uma coisa muito séria que passa de pai para filho, de mestre para discípulo, e obriga a uma vida de trabalho muito exigente. Temos praticamente de entregar a nossa vida àquilo. Quando se ouve a música do Irão percebe-se que só mesmo um mestre consegue produzir aquilo. Por isso, por aí eu não me meto até porque sou muito preguiçoso [risos]. Quanto ao português, nunca foi uma recusa, mas é assim, em inglês, que as coisas têm saído. Nada disto foi planeado. Até sou uma pessoa que nem costuma fazer planos para nada.

Pode então vir a acontecer cantar em português?
Claro que sim, e até noutra língua qualquer. Eu quero é cantar.

Veio para Portugal com cinco anos. Que relação é que tem com o Irão?
Eu nasci no Irão, cresci numa casa iraniana e a falar a língua porque os meus pais são iranianos. Cresci exposto à própria cultura e sou muito grato aos meus pais por me terem mostrado a história, a poesia que é riquíssima, a música que é extraordinária ou o cinema que é evidente para todos. Essa relação existe.

Mas vai lá com frequência?
Não, não. Nesse sentido não tenho relação nenhuma. Nunca mais lá fui desde que vim para Portugal. Não me revejo no regime, na realidade ou no que lhe quiserem chamar.

Entristece-o ver as notícias que chegam diariamente do Irão?
Claro que sim. O Irão tem uma história inacreditavelmente rica que está soterrada por debaixo desta loucura. E isso acho que nos deve entristecer a todos. Todos perdemos e eu mais ainda porque tenho uma relação emocional com o Irão.

Ainda tem lá família?
Sim, tenho lá família muito próxima, mas nós também vivemos numa diáspora. Tenho família em todos os continentes, uns que saíram antes da revolução e outros depois.

Que tipo de memórias é que ainda tem do Irão?
Com cinco anos já se é gente e tenho as memórias próprias de um miúdo daquela idade. Com cinco anos já se é o bicho que se vai ser [risos]. Aliás, hoje acho que não sou muito diferente daquele gaiato. Acho mesmo que é muito importante para quem trabalha com o processo criativo ter a sua infância muito próxima, não crescer.

Mas sente-se hoje cem por cento português ou há em si ainda muito de iraniano?
Acho que com sorte todos nós somos ilegíveis. No dia em que soubermos o que somos acho que acabamos. Nós somos sempre criaturas a explorar até ao fim. Mas sim, construí aqui a minha identidade. Eu sou tuga e tenho todos os tiques de tuga. Tenho um amor grande por Portugal. Adotei e fui adotado.

Os seus pais na altura escolheram Portugal por algum motivo em especial?
Bom, eu tive pouco peso nessa decisão [risos]. O que sei é que eles tinham cá amigos e decidiram vir. Acho que escolheram bem.

E já tinha alguém da família ligado à música?
O amor pela música sempre houve em minha casa. As coisas que definiram a estética em que me movo foram descobertas muito precocemente. Comecei muito novo a ouvir as coisas que ainda gosto. Os meus discos de vida são os mesmos de há muitos anos. Curiosamente, até achava que a música não fosse para mim, tão grande era o meu amor por ela e por alguns artistas. Só gradualmente é que isto se foi tornando a minha vida. Não houve propriamente um ‘click’. Não consigo precisar isso. Sei que a música é o meu norte e é o que dá sentido aos meus dias.

Depois de três discos de originais atira-se a um disco inteiramente de versões [Leonard Cohen, Cole Porter, Willie Johnson, Otis Reading e Elvis Presley, entre outros]. Houve algum motivo para isso?
Nunca tive nenhum motivo para fazer nenhum disco [risos]. Não sei, acho que só agora é que tenho voz e autoridade para me apoderar das canções. Mais cedo não seria possível. O meu percurso foi feito um bocadinho ao contrário da maioria. Comecei a cantar aos 30 anos, numa idade em que muita gente já tem vinte anos de covers em cima e só depois começa a escrever as suas canções. Eu comecei a escrever originais e só agora faço covers [risos].

Mas é mais difícil fazer originais?
Comecei a fazer originais porque não sabia tocar as músicas dos outros [risos]. Entretanto, fui aprendendo. E hoje acho que tenho a minha voz. Só faz sentido cantar as canções dos outros quando, de alguma forma, as podemos tornar nossas.

Presume-se que quem opta por fazer versões nunca o faz ao acaso. O que é que estas canções dizem sobre o Mazgani?
Acho que estas canções mostram o meu gosto por uma certa temática. Há aqui um fio condutor que tem a ver com um certo sentimento de anseio, uma urgência, um sentimento de distância, uma vontade de pertença, uma deslocação, um certo exílio .Acho que são essas coisas que fazem as canções bonitas e pungentes. São canções de amor, de solidão e saudade. E vendo bem, isso também é muito do que faço na minha música.

Destas canções que escolheu, qual é a que vem mais de trás?
Epá! Não faço ideia. Talvez o Elvis Presley. O que posso dizer é que o artista que primeiro me fez querer cantar e escrever canções foi o Leonard Cohen. Não sabia que uma canção podia ser ‘aquilo’ até ouvir o Leonard Cohen.

Que idade é que tinha?
Eu ouvi-o em dois períodos diferentes da minha vida. Primeiro mais puto e depois talvez por volta dos vinte anos. Foi uma revelação para mim, perceber que se podia contar histórias numa canção daquela maneira. Encantou-me aquele despojamento. É só osso. Não há gordura nenhuma [risos].

É uma pessoa muito sentimental em relação à música, no sentido de se agarrar às canções como uma boia de salvação em períodos menos bons da sua vida?
Bons e maus. Acho que isto se aplica a qualquer pessoa que faz um trabalho criativo. É-se sempre muito sentimental em relação ao trabalho criativo. Pode-se ter uma relação muito equilibrada com toda a nossa vida, mas quando se fala de criatividade está-se sempre entre o êxtase e a depressão. Não há equilíbrio. Por isso acabamos por ser sempre muitos sentimentais. Estamos sempre entre os píncaros e a fossa.

E não há outra forma de ser?
Não. Não é possível ter uma relação sã, equilibrada e distanciada com o trabalhocriativo.Jamais.Somos sempre assaltados por dúvidas e inseguranças. Coisas que são íntimas, muito nossas. É tudo muito vivido à flor da pele.
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