Músico está de regresso aos discos com ‘Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid’, um álbum de poesia e canções.
Idealizado a propósito do mitico disco dos Beatles 'Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band' que no ano passado celebrou 50 anos e aproveitando também o meio século volvido sobre a 'Lenda D'el Rei D. Sebastião' do Quarteto 1111, ‘Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid’ é um disco de coragem, de compromisso com a arte pela arte, com a música pela música, um disco de canções no qual a palavra ganha sempre uma especial preponderância. Porventura o disco mais ambicioso de José Cid.
O José Cid já fala deste disco, ‘Clube dos Coração Solitários’, há muitos anos, mas a verdade é que só agora chega ao mercado. Porquê tanto tempo?
Porque não houve grande concordância na minha antiga editora para o gravar. Diziam que este era um disco estapafúrdio e que não estavam interessados. Eu, por outro lado, não podia fazer mais músicas para novelas. Por isso gravei primeiro o ‘Menino Prodígio’, que já era um disco de rutura, nada cor de rosa e muito rock. A partir daí, decidi fazer apenas o que bem entendesse.
E a melhor solução foi criar a sua própria editora, a Acid Records?
Sim. Numa multinacional, eu dificilmente conseguiria fazer o que queria. Ou me impunham um estilo ou me impunham limitações. Assim, eu posso fazer os álbuns que mereço, com a estética e o grafismo que mereço e com a provocação que tenho. Estas coisas incomodam, mas eu não estou preocupado.
Afinal que clube é este?
Foi um clube que idealizei a propósito do mítico disco dos Beatles ‘Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band’, que no ano passado fez 50 anos, e também a propósito do meio século da ‘Lenda D’el Rei D. Sebastião’, do Quarteto 1111. Digamos que naquela altura arrancou uma geração inglesa com Beatles e Rolling Stones e outra em Portugal com o Quarteto 1111. E este disco tem muito a ver com isso.
Já pensou em enviar uma cópia ao Paul McCartney?
Não estou muito interessado [risos]. Não gostei nada do último disco dele. Acho que o Paul McCartney se esqueceu de ligar às musas [risos]. Eu acho que nem deve saber onde elas andam [risos].
Mas acha que ele não ia ouvir?
Portugal tem um nicho muito pequeno de mercado. O único nicho grande são os concertos de verão. E aí sim, eles vêm todos para cá. Mas ouvirem música portuguesa atentamente é coisa que nem lhes passa pela cabeça. Só o fizeram agora por causa do Salvador Sobral.
Lançar este disco graficamente inspirado no ‘Sgt. Peppers’ dos Beatles, significa que eles foram a sua grande referência na música?
Não. Eu sou da geração deles, mas comecei por não gostar nada daquela primeira fase do ‘Love Me Do’. Eu vinha do jazz e de outras coisas mais eruditas e aquilo não me dizia nada. Só no ‘Sgt. Peppers’ é que me apercebi como eles tinham mudado e como se tinham tornado interessantes.
E era mais fã do Lennon ou do Paul McCartney?
Nem um nem outro. Eu gostava do George Harrison. Acho que ele era o esteta do grupo.
Diz que este é o disco em que mais se revela. Ao final de 50 anos, ainda havia o que revelar do José Cid?
[Risos] Eu digo que este é o disco em que mais me revelo porque é um álbum de poesia. É um disco em que, com a idade que tenho, me revelo em grande forma. Eu acho que ainda não está na altura de ser condecorado no 10 de junho ou de darem o meu nome a uma rua ou a uma estátua, mas os portugueses têm de reconhecer que aos 75 anos este menino está a cantar e a compor como poucos [risos]. Há tempos vi o Elton John, que é mais novo do que eu, a cantar e foi uma desilusão. Eu acho que os portugueses sabem que existe em Portugal um músico que continua para lá do seu tempo.
Diz que este é um disco de poesia. Isso faz de si um poeta?
Os outros, aqueles que me ouvem e que me leem, é que podem dizer. O que eu acho é que quem pegar num disco meu não ouve coisas vazias ou sem sentido. Eu procuro dar um contexto às minhas palavras, às vezes um sentido interventivo ou de sonho.
Um dos temas em destaque neste disco é o ‘Saudades do Botequim’. Que botequim é este?
É um botequim que existe no velho largo da Graça onde, no antigo regime, no final dos anos 60 e princípio dos anos 70, se reuniam os intelectuais, as pessoas de cultura e objetores de consciência para discutirem ideias e conspirarem contra o sistema.
E o Zé frequentou-o?
Sim. Fui lá algumas vezes com a Natália Correia. Aliás, este tema é dedicado a ela, uma grande amiga e uma pessoa que eu admirava imenso. Ela representava o antirregime. Tinha uma visão muito avançada para a sua época, de tal forma que muitas vezes nem percebíamos as suas ideias. Tínhamos que lhe pedir para trocar por miúdos [risos].
O Cid também era antirregime!
Bem, eu tive 28 canções censuradas. Nunca fiz menção a ser um cantor de esquerda, porque também nunca alinhei em grupos e nunca quis impor as minhas ideias, mas neste álbum, por exemplo, canto poesia de Gabriela Mistral, que era uma intelectual chilena e prémio Nobel da Paz, canto um tema de João Monge chamado ‘Nunca Parto Inteiramente’, que é seguramente o poeta português mais ‘lorquiano’ que temos e canto um poema chamado ‘Anjos Negros’, em que o poeta pergunta ao pintor porque é que em vez de anjinhos brancos, de caracóis loiros e olhos azuis à volta das virgens não pinta anjos negros. E juntamente com ‘Saudades do Botequim’ este também é de, certa forma, um álbum de objeção de consciência.
Que não esquece as canções!
Sim, este é um disco de canções. É muito variado porque também fiz questão de gravar em estúdios diferentes e com músicos diferentes para não ter sempre a mesma sonoridade. Há neste disco muitas nuances musicais que o tornam único.
O José Cid é daqueles que cada canção que faz parece que acerta na ‘muche’. É possível haver uma fórmula mágica?
Eu acho que sim. Eu posso ensinar [risos]. É só telefonar às musas que elas ensinam [risos].
O José Cid reúne na capa deste disco as fotografias de várias personalidades e muitos amigos. Sente que é uma pessoa consensual ou acha que há muita gente que não gosta de si?
Eliminando as pessoas rancorosas e sem sentido de humor no meu Facebook, por exemplo, eu só vejo gente que gosta de mim e que me respeita. Isso deixa-me muito contente.
E quem são os inimigos do Cid?
Deve haver muitos [risos]. Eles que se revelem.
Na música tem muitos?
Alguns. Os plagiadores, os medíocres, os que não sabem cantar ou os que não sabem o que é poesia. Essa gente deve sentir uma enorme frustração quando olha para mim.
REGRESSO AO FESTIVAL 25 ANOS DEPOIS
O José Cid vai voltar ao Festival da Canção. Como está a encarar este regresso, 25 anos depois?
É engraçado como as coisas aconteceram. Houve uma pessoa que me disse que estavam a pensar fazer-me uma homenagem durante o Festival e eu respondi logo: "Eu não quero homenagem nenhuma, eu quero é participar." E lá vou eu incentivado pela minha mulher, Gabriela. A última vez que cantei no festival foi o ‘Poeta, o Cantor e o Músico’, com o Paulo Bragança. Ficámos em segundo lugar.
E que canção é esta que vai levar?
O poema é do melhor que já escrevi e a música é muito enraizada. Como o festival acontece em Portugal, pensei numa canção que definisse Portugal e o seu povo. Passo pelos Descobrimentos, pelo 25 de Abril e por nomes como Amália, Camões ou Pessoa. É um tema muito nacionalista e que tem muito a ver connosco. Não vai passar despercebido a ninguém. Não é nenhum ‘trálálá’.
Vai cantá-lo sozinho?
Vou cantar com o meu sobrinho Gonçalo Tavares. Eu estarei no acordeão, ele no piano e vamos ter mais duas guitarras portuguesas, um violoncelo e um contrabaixo.
A Europa da música vai estar mais atenta a Portugal este ano!
Sim, e a vitória do Salvador veio mostrar que Portugal é mais do que fado. Só espero que não haja o oportunismo de lá fora quererem copiar o Salvador. Ouvi dizer que a Geórgia está a preparar uma música muito jazzística.
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