Iniciou carreira com apenas 20 anos, como assistente de Pasolini. Realizador tinha 77 anos e morreu vítima de cancro.
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Era o último dos grandes realizadores italianos e o seu génio só comparável ao de um Antonioni ou de um Fellini.
Bernardo Bertolucci, que vivia há mais de dez anos confinado a uma cadeira de rodas (por causa de uma operação a uma hérnia que correu mal), morreu ontem, aos 77 anos, vítima de cancro.
Nascido em 1941, no seio de uma família de intelectuais – a mãe era professora e o pai um poeta famoso e um conhecido crítico de cinema – Bertolucci quis ser escritor e frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Roma. Até que um encontro com Pier Paolo Pasolini mudou tudo.
Pasolini, que era amigo do pai de Bertolucci, contratou-o como assistente no seu filme de estreia, ‘Accattone’, de 1961, e a partir desse momento o futuro do jovem de 20 anos estava traçado. No ano seguinte o próprio Bertolucci assinou o seu primeiro filme (‘La Commare Secca’) e os anos seguintes viram-no embarcar no cinema de ativismo político de esquerda.
Em 1972, rodou a mais famosa das suas obras, ‘O Último Tango em Paris’, em que conta a história de um americano de meia-idade que tem uma relação obsessiva com uma jovem francesa.
O filme, polémico quando estreou, voltou a dar que falar em 2016, quando se descobriu que a cena de violação anal protagonizada por Marlon Brando sobre Maria Schneider com a ajuda de manteiga tinha sido combinada pelo realizador e pelo ator, sem o conhecimento da atriz. Mas o dinheiro gerado pelo filme abriu as portas de Hollywood ao italiano, que logo a seguir estreou o magistral ‘1900’ com Robert De Niro e Gérard Depardieu.
Onze anos depois, ‘O Último Imperador’ valeu-lhe a rendição incondicional de público e crítica, e a carreira, apesar das seis obras posteriores, nunca mais chegou tão alto. Bertolucci casou duas vezes e não deixa filhos. ‘Apenas’ filmes que vão durar para sempre.
Non si può vivere senza Bertolucci/Não se pode viver sem BertolucciAos vinte e três anos, Bernardo Bertolucci fez um filme que viria a revolucionar o cinema: chamava-se ‘Antes da Revolução’ (‘Prima Della Rivoluzione’), e um dos personagens dizia uma frase que ficou histórica: "non si può vivere senza Rossellini" (não se pode viver sem Rossellini). Com esta frase que imortalizava o olhar exemplar de Roberto Rossellini, Bertolucci revelava-nos o seu posicionamento ético e artístico sobre o cinema e a sua importância na vida das pessoas.
Talvez possamos, por isso, dizer a mesma coisa: "non si può vivere senza Bertolucci", que tanto contribuiu para a história do cinema, de uma maneira ímpar, num percurso que vem desde ‘Prima Della Rivoluzione’ e acaba com ‘Eu e Tu’, um filme feito em Roma com poucos meios.
Morreu o realizador italiano Bernardo Bertolucci
Um percurso que atravessou os picos da popularidade e do reconhecimento com filmes como ‘O Último Tango em Paris’, absolutamente essencial para a geração pós-68.
Um percurso que teve também uma fortíssima relação com a história italiana, desde a ‘Estratégia da Aranha’ e ‘O Conformista’, olhares extremamente fortes e importantes sobre épocas dramáticas na história italiana, sobre a presença do fascismo e do compromisso e ambiguidades nas classes sociais mais abastadas relativamente a essas situações, até ao ‘1900’, esse grande fresco que atravessa 50 anos da história italiana, e que é único na sua grandiosidade, com os conflitos sociais, as rupturas e todos os compromissos políticos sociais e humanos que representa, com um Robert De Niro extraordinário, e Gérard Depardieu no princípio da sua carreira, que aliava uma história em que os operários têm uma posição central no enredo do filme.
Também ‘O Último Imperador’, filme que conquistou Hollywood como mais ninguém o tinha feito até essa data e que arrebatou cerca de uma dezena de Óscares; ou ‘O Pequeno Buda’, que oferece um olhar diferente, não convencional sobre a relação entre Oriente e Ocidente; ou quando decide visitar Paul Bowles em ‘The Sheltering Sky’, filme até agora incompreendido.
Tive o privilégio de poder partilhar da sua amizade ao longo dos últimos quarenta anos, e Bernardo foi das pessoas que mais me apoiou desde o início da minha actividade. Esteve connosco aqui em Lisboa na inauguração do cinema Monumental, esteve connosco quando, pela primeira vez, aceitou ser visto em público em condições físicas debilitadas, numa cadeira de rodas, no Festival do Estoril há dez anos, presença que ele próprio disse ter sido capital para voltar a filmar e aceitar a sua condição…
É com enorme tristeza que vejo partir alguém que durante todos estes anos acompanhou a minha actividade com uma enorme curiosidade e, sobretudo, com conselhos e conversas que me ajudaram, que me deram força para até ao momento continuar a produzir filmes. Bernardo Bertolucci estava a preparar um novo filme, tinha acabado de escrever o seu argumento, e deixa-nos, pois, numa altura que ainda poderia trazer muito ao cinema.
Depoimento de Paulo Branco
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