José Saramago, Nobel de Literatura 1998. Visionário ou profeta e saudosista da geração de Abril, assim é o autor de 'Ensaio sobre a Lucidez', romance político desde ontem nas livrarias e, na segunda-feira, em debate no espaço da antiga FIL.
Correio da Manhã - Da 'Cegueira' de 1995 à 'Lucidez' de 2004 pode ler-se da escuridão nasce a luz?
José Saramago - Não diria que há uma relação directa entre esses livros mas há uma dominante que une o 'Ensaio sobre a Cegueira', 'Todos os Nomes', 'O Homem Duplicado' e o 'Ensaio sobre a Lucidez'… 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo' fecha um ciclo e o 'Ensaio sobre a Cegueira' abre outro. Digamos que até ao 'Evangelho' os livros são mais corais, são como um coro, um colectivo e a partir da 'Cegueira' o foco de tensão dirige-se mais ao indivíduo.
- Com o 'Evangelho' conheceu a polémica maior. Preparado para repetir a dose com 'Lucidez'?
- Eu não escrevo um livro para provocar uma polémica, o que acontece é que também não sou inconsciente e se o assunto que toco escalda, então, preparo-me, enfim, para reacções de desacordo e desagrado. O problema aqui é se o que se toca é algo de essencial ou não. No primeiro caso, não era só a crença, a prática ou o dogma mas a própria Igreja Católica, logo era de esperar que a instituição reagisse, e foi o que fez.
- Neste caso, a instituição é o poder político?
- É o poder político sim mas ninguém pode dizer que eu sou um provocador porque critico de dentro uma questão que tem a ver com o próprio sistema democrático. Enquanto o voto em branco se mantiver em 1,2 por cento ou coisa que o valha, não perturba, não atrapalha, não complica. A preocupação só começa se ele começar a subir e a subir ao ponto de se tornar maioritário, aí, é o próprio sistema que tem de pensar em pensar-se... Numa passagem do livro, o presidente da república, desse país inventado, classifica o voto em branco como 'um torpedo abaixo da linha de flutuação do sistema democrático', o que é uma improbabilidade mas não uma impossibilidade. E, um dia, pode acontecer.
- E não é um provocador... Sobreviver a um sistema assim não é já em si uma provocação?
- E não sou, mas, nesse sentido, admitamos que sim, porém, não sou um provocador gratuito porque não estou de fora a criticar quem está dentro. É de dentro que digo: imaginem que as pessoas se cansam, que as pessoas se cansam de passar de partido para partido e não ter mais por onde escolher senão aquilo que se lhes propõe. Por isso é que eu penso que se o livro passar sem polémica, sem debate é mau sinal... Debate que eu nem queria que fosse sobre o livro porque aquilo que realmente tem de ser debatido é a democracia.
- E por que não a abstenção, mais radical, mais terrível?
- Não, não... A abstenção é menos terrível do que o voto em branco. A abstenção nada muda, significa apenas estou-me nas tintas. O voto em branco é um voto expresso que vai dizer eu estive aqui mas não aceito e não tenho outra forma de manifestar a minha resistência que pode, um dia, vir a ter uma expressão numérica que leve a política e os políticos a pensar... O que faremos se isto um dia acontecer? Publicar rapidamente uma lei a declarar o voto em branco ilegal? Distribuir o voto por todos os partidos para que todos fiquem contentes? Este livro é um romance, é uma fábula, é uma sátira e é uma tragédia...
- O voto em branco ainda lhe inspira alguma esperança, alguma dose de optimismo, é isso?
- Não me parece, mas por que é que toda a gente quer que eu seja optimista, que coisa… Eu não sei se o livro é optimista ou não, mas não, não pode ser, o livro até acaba mal. Eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo. E não me venham dizer que vivemos no melhor dos mundos possíveis, esta expressão significa tanto ou tão pouco quanto dizer-se que a democracia é o menos mau dos sistemas possíveis. Se aceitamos que vivemos o melhor que nos é possível, então, não vale a pena mudar nem procurar melhorar nem o mundo nem a democracia.
- Que ideia é a sua da vida que vivemos?
- Vivemos num sistema de poder plutocrático (sob a soberania da riqueza) porque quem governa são os ricos. Eu digo, às vezes, para escândalo de algumas pessoas bem intencionadas, que os governos se transformaram nos comissários políticos do poder económico e estão ali para preparar 'leizinhas' que facilitem. O poder está na mão dos cidadãos. Mas o cidadão tem de ser exigente e tem de ter uma participação activa. Um cidadão que exija contas, responsabilidade, que não se deixe enganar, que denuncie o engano, a mentira sistemática em que vivemos, esta ração quotidiana de mentira que temos de ingerir. Nunca se mentiu tanto como agora, e não me refiro, agora, em concreto à nossa terra… Toda a gente mente, a começar pelos responsáveis políticos de primeira grandeza, e nós? Nós aceitamos. Se a mentira se transforma em alimento quotidiano acabamos por não a distinguir da verdade.
- Alguma vez enquanto eleitor usou a liberdade que lhe concede o voto em branco?
- Digo-lhe com toda a franqueza que não, mas também lhe digo que começo a pensar nisso, afinal, tenho de ser coerente com o que escrevo, não é?
DEMOCRACIA 'DOLOROSA'
– Comemoramos, este ano, os trinta anos do 25 de Abril. Vai celebrar?
– Não, não… Nada ficou do 25 de Abril. Seria capaz de festejar se reconhecesse em cada 25 de Abril alguma coisa do outro 25 de Abril. Podia não ser a construção do socialismo. Podia ser sempre a esperança, esta ideia de que estamos a fazer alguma coisa, acreditamos em alguma coisa, temos um projecto de futuro, mas não, temos nada, rigorosamente nada. O 25 de Abril já se tornou quase no 5 de Outubro da romagem ao cemitério. Dizem-me que ficou a democracia, que não há reforma agrária, que não há privatização da banca, que é isto a democracia, mas que democracia? Esta democracia é igual à de qualquer outro país democrático que não teve 25 de Abril. É desagradável ter de lhe dizer isto, não é simpático e, sim, doloroso. Muito doloroso!
José Saramago nasceu em 1922, na Azinhaga do Ribatejo, aldeia do concelho da Golegã, que, cedo, muito cedo, trocou por Lisboa. São de cá todas as memórias mas são de lá as melhores recordações que tem dos campos de oliveiras. Que já não há! Premiado com o Nobel de Literatura em 1998, antes, em 1991, foi distinguido com o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores pelo romance de todos os tormentos: ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’. Não por acaso, pouco depois, fixa residência em Lanzarote, no arquipélago das Canárias.
Gosta do romance “que deixou de ser género literário para se tornar espaço literário” e prepara-se para denunciar “a hipocrisia” no libreto que vai escrever sobre D. João.
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