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Correio da Manhã

Cultura
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João Pedro Pais tem novo disco

‘Identidade’ é um regresso às raízes, gravado em Londres e com produção de Luís Jardim.
Miguel Azevedo 30 de Novembro de 2015 às 16:30
João Pedro Pais
João Pedro Pais FOTO: Direitos Reservados
Se alguém chegasse agora a Portugal sem saber nada de música portuguesa e ouvisse este novo disco, o que é que ficava a conhecer da ‘Identidade’ do João Pedro Pais?
Se não falasse a minha língua provavelmente a primeira coisa que perguntaria era: ‘O que é que este gajo está a dizer?’ [risos] Acho que ia achar a sonoridade agradável, ia perceber que eu não inventei nada que já não tenha sido feito e que tenho outros como influência. Aliás, o grande desafio de um artista é precisamente reinventar e reinventar-se.

Já disse que este disco é um regresso ao princípio. Foi uma casualidade ou uma necessidade?
Foi uma necessidade a fim de deixar que as palavras fluíssem para não me trancar nelas. No fundo, voltar a ser quem sempre fui.

Esta necessidade de regressar à simplicidade significa que o artista com o passar do tempo tem tendência a ligar o ‘complicómetro’ e a tornar-se complexo?
Sim, porque há a necessidade de construir, mas também há a necessidade de desconstrução. Aqueles que compõem as suas próprias canções são eternos insatisfeitos e andamos sempre à procura da perfeição. Eu pelo menos nunca a encontrei.

E ela existe?
Opá! Há artistas incríveis. O Seal, por exemplo, em termos interpretativos bate no 99,9 por cento da perfeição [risos]. Como ele não há ninguém. Não sei quantas vezes ele se repete em estúdio, mas o Seal é uma pessoa quase inatingível.

Mas o João Pedro Pais é mais do que intérprete. É compositor e autor!
Essa apreciação já não posso ser eu a fazê-la. Quando faço uma canção escrevo aquilo que me sai no momento... mas estou sempre cheio de dúvidas.

Sente que já criou uma escrita própria e um estilo único?
Sei que tenho um estilo que é meu, que as pessoas reconhecem. A minha forma de cantar é muito própria, mas já foi mais límpida. Agora está mais rouca, deve ser da idade [risos]. Mas também devo confessar que a maneira como canto também não é fácil para mim porque nunca o faço da mesma maneira.

Neste disco fala muito do que ‘vi e do que vivi’. O que é que viu e viveu nestes últimos anos?
Vi o que todos nós somos e aquilo por que todos nós passamos. O tema ‘Civilização’, por exemplo, retrata-me a mim e a todos nós. Ninguém pode ser indiferente àquilo que escrevo no ‘Civilização’. Só acho que nenhuma rádio terá coragem de o passar. O Alan Winstanley, que coproduziu este disco e que já tinha trabalhado com os Bush e o Elvis Costello, um dia veio ter comigo a perguntar-me sobre o que é que falava o ‘Civilização’ porque tinha gostado da batida. E quando lhe respondi, ele disse-me logo: ‘Isto em Inglaterra é que era o single.’

E o que é que o levou a escrever essa canção?
A ‘Civilização’ é um grito de revolta. Todos nós temos direito ao grito e a dizer ‘basta!’. Todos temos direito ao trabalho, à educação, à saúde, à Justiça e ninguém pode ser indiferente a isso. O tema ‘Uns e Outros’ é a mesma coisa. Falo muito nos jovens que vão para a guerra. Nestes últimos anos vi muita gente em manifestações a passar à porta de minha casa, na minha rua.

É obrigação de um músico falar destas coisas?
Se estiver atento e se não tiver receio de ferir suscetibilidades, sim. Caso contrário, passa o tempo a falar de si e dos seus desamores, mas eu já não tenho idade para andar a compor bonitinho. Claro que há coisas que me saem mais bonitas, mas eu também me preocupo muito com os outros, com os que não têm nada e que precisam de tudo.

Está a cumprir 20 anos de percurso desde o ‘Chuva de Estrelas’ [SIC]...
Isso não conta. O que conta é o primeiro disco, é aí que tu és avaliado. Não podes ser avaliado por uma brincadeira. O vocalista dos Foo Fighters diz que se fosse a um programa de talentos provavelmente seria logo chumbado. O que conta é o trabalho em nome próprio. Uma brincadeira com as canções dos outros toda a gente faz. Até há pessoas que cantam as minhas canções melhor do que eu [risos].

Então fiquemos por esse João Pedro Pais de 1997, quando lançou o primeiro disco. Ainda tem essa data muito presente?
Já passou algum tempo. Hoje há mais informação e parece que as coisas acontecem mais rápido. Aquele João Pedro ainda está muito presente. Acho que isso é bom. É sinal de que não perdi a minha identidade. Acho que mudei apenas no tempo que tenho para ouvir os outros.

Ganha-se mais humildade ou arrogância com o tempo?
Quem ganha arrogância é parvo. Ninguém é mais do que ninguém. Todos têm o direito a ter o seu estilo e a sua maneira de estar. Os heróis são aqueles que salvam vidas ou as crianças doentes que lutam dia a dia e que eu vejo na [Associação] Acreditar, onde vou regularmente.

Há precisamente 20 anos fez o seu último combate de luta greco-romana, com um primeiro lugar num torneio no Rio de Janeiro, Brasil. Ainda pensa muito na luta?
Ainda esta semana estive no Jamor. Encontro-me muito lá com malta da alta competição do judo que está a treinar para os Jogos Olímpicos. E acho engraçado porque eles olham para mim como se ainda fosse um deles. Mas neste momento não me via a perder peso para combater. A luta é muito puxada.

A alta competição chega a uma altura que tem de acabar. E a música?
Eu nunca gosto de levar as coisas para esse lado: ‘O que é que eu vou fazer quando isto acabar?’ Mas acho que tenho muita coisa para fazer.

Não tem o fantasma da inspiração, dela um dia falhar?
Se falhar é porque não me informei. Tenho de ler, de me manter atualizado, pesquisar...

Em 2014 tocou no Rock in Rio para 50 mil pessoas. Como foi?
Foi brutal. Ainda por cima tudo me correu bem. O dia 1 de junho de 2014 vai ficar na história. Primeiro era o meu dia, o Dia Mundial da Criança, depois porque vi quase 50 mil pessoas às sete da tarde, assisti a um grande concerto de Jessie J e como se não bastasse às 22h00 ainda encontrei ao vivo e a cores o Bruce Springsteen. Abracei-o e estivemos a falar dois minutos.

E o que é que lhe disse?
Disse para não se assustar que eu não era nenhum intruso, que tinha aberto o palco naquele dia e que tinha gravado um disco com um amigo dele, que é o Keith Scott, o guitarrista do Bryan Adams. E ele abraçou-me. Parecia uma criança de tão alegre. 
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