José Jorge Letria, escritor. Durante quase seis anos bateu-se pelos sócios da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Todos os sócios. O presidente assim não o entendeu. E ele bateu com a porta. As razões da demissão já a seguir, em entrevista exclusiva ao CM, a que sucederá o silêncio:
Correio da Manhã – A sua demissão do cargo de presidente da Assembleia Geral da SPA é uma surpresa e um segredo bem guardado...
José Jorge Letria – Não tornei pública a minha demissão nem sei quem a divulgou, mas, já que está no domínio público, tenho o direito de a explicar. Renunciei ao cargo de presidente da Assembleia Geral da SPA, que exercia há cinco anos e meio, por considerar que se tinham quebrado os laços de confiança mútua e as condições de diálogo com o presidente da Direcção (Luiz Francisco Rebello), embora tivesse toda a legitimidade para concluir o meu mandato com o apoio dos sócios, até finais de 2005. A minha saída é também uma forma de reprovação pública de um modelo de gestão assente numa Administração constituída apenas por pai e filha (Luiz Francisco Rebello e Catarina Rebello), o que é, pelo menos eticamente, pouco sustentável.
– À Direcção parece faltar protagonismo, intervenção, decisão... A sua ruptura passa por aqui?
– A minha ruptura, que não provoquei, foi com o presidente da Direcção e não com a Direcção, onde se encontram pessoas com obra feita, com prestígio e idoneidade e onde estão amigos que muito prezo. Sei que, se souberem usar os poderes legítimos que têm, encontrarão a curto prazo as soluções certas para a SPA, mesmo que elas passem pela antecipação de eleições. É uma saída legítima quando há crise de confiança. Essa crise existe e os directores são os primeiros a reconhecer que é grave.
– Há factos concretos na origem desta demissão, não há?
– O presidente da Direcção empurrou-me para a demissão ao acusar-me, por carta, de favorecer as vozes críticas na Assembleia Geral, o que não é justo nem verdadeiro. A carta que me enviou como presidente da Direcção não teve o conhecimento prévio nem a concordância dos restantes directores, o facto, que já foi reconhecido publicamente por um director, é grave e indica uma prática autocrática e antiestatutária que eu não poderia aceitar.
– Testemunhou ou teve conhecimento de situações de abuso de poder?
– Sobre os actos que são imputados aos dois administradores não me pronuncio, pois é para isso que decorrem investigações da Polícia Judiciária e da Inspecção-Geral de Finanças... Estou muito preocupado com o anúncio de que vai ser discutida pela Direcção a alienação de património da SPA e a redução do pessoal, medidas muito graves que exigem a audição de todos os sócios e que não sei mesmo se poderão ser adoptadas enquanto decorrem processos de investigação como os que estão em curso. Tenho as mais sérias dúvidas e peço aos directores serenidade e firmeza neste momento difícil que requer a avaliação rigorosa das medidas propostas pela Administração.
– Já o acusaram de tudo: do pecado da omissão ao da ambição... Em que ficamos?
– Quero deixar claro que não sou candidato ao lugar de presidente da Direcção nem a qualquer outro dentro da SPA, até porque fui eleito para a vice-presidência da Casa da Imprensa, cargo que quero desempenhar com a dedicação que de mim exige. Quanto ao actual presidente da Direcção, mantenho por ele consideração intelectual e respeito pelo que fez pela SPA, mas isso não me impede de dizer o que penso sobre o actual momento da cooperativa e as responsabilidades de quem a dirige... Tenho a consciência de ter feito tudo o que estava ao meu alcance para que, ao longo de quase seis anos, as assembleias gerais a que presidi fossem um espaço de liberdade, de dignidade e de pluralidade de opiniões... Um homem livre bate-se também pela liberdade dos outros. Várias vezes fui aplaudido por agir dessa maneira mas agora parece que essa atitude se tornou incómoda. Por isso chegou o momento de sair, correspondendo a um imperativo de consciência, que também é ético.
– Que futuro para a SPA?
– As pessoas passam e as instituições ficam. Ninguém é insubstituível. O futuro da SPA, os interesses dos cooperadores e dos funcionários estão muito acima de qualquer outra coisa... Não irei alimentar polémicas sobretudo para preservar a imagem e o prestígio da SPA mas também para não prejudicar a acção das pessoas que irão ter que tomar decisões cruciais. A quem acha que ainda tem condições para permanecer nos órgãos sociais, desejo as maiores felicidades mas não lhe invejo o peso da responsabilidade que vai exigir muita firmeza e tudo menos passividade ou acomodação. Esse tempo terminou definitivamente.
– Bateu com a porta mas sai magoado...
-- Claro que não tomei esta atitude de ânimo leve. Há laços muito fortes que há décadas me ligam à SPA. Sou autor e continuarei a sê-lo e exigirei sempre o respeito integral dos meus direitos, do mesmo modo que cumprirei os meus deveres. Saí porque foram criadas condições para isso, não sei se deliberadamente... Pelos vistos tornei-me muito incómodo ao dar liberdade de intervenção a todos os sócios, incluindo, naturalmente, os que não concordam com a Administração. Numa altura em que era preciso reforçar a coesão dos órgãos sociais, fui acusado de parcialidade e de complacência com os críticos. Pergunto: será que o presidente da Direcção tem já uma lista alternativa da sua total confiança para eleições antecipadas? É legítimo ter este tipo de dúvida.
José Jorge Letria é, antes de mais e acima de tudo, autor. São mais que muitas as actividades a que se dedica. Inteiro. A viver tréguas recentes com a política activa e, mais antigas, com a música, é na escrita em geral e na poesia em particular que encontra a sua “liberdade maior”... Encontro com o escritor é o que vai acontecer amanhã, no Centro Cultural de Cascais, com o lançamento da antologia poética que lhe consagra 30 anos de vida literária. Uma vida repleta de livros e de prémios, o maior dos quais porque o preferido, recebido em 1997 do Presidente da República, a Ordem da Liberdade.
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