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Correio da Manhã

Cultura
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Morreu cantora Cesária Évora

A cantora cabo-verdiana Cesária Évora morreu neste sábado no Hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A morte ocorreu por volta das 11h20 de hoje por "insuficiência cardio-respiratória aguda e tensão cardíaca elevada".
17 de Dezembro de 2011 às 14:32
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cesária évora, cabo verde, óbito, morte, cantora FOTO: Sérgio Lemos

A conhecida cantora de 70 anos, de Cabo Verde, tinha sido admitida de urgência, em Setembro, no hospital de La Pitié-SalpétriŠre, "na sequência de um AVC agravado por sérias dificuldades respiratórias".

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A cantora, que tinha anunciado este ano um ponto final na sua carreira, esteve desde então sob cuidados intensivos.

DIVA DE CABO VERDE

Era a diva dos pés descalços, a embaixadora da morna, a rainha da música cabo-verdiana. Cesária Évora, nascida a 27 de Agosto de 1941 em Mindelo, Cabo-Verde, morreu hoje, três meses depois de anunciado o fim de uma carreira de mais de cinquenta anos e vários problemas de saúde graves.

Ao longo da sua carreira, Cesária editou 24 discos, entre originais, parcerias com outros artistas - como Caetano Veloso e Marisa Monte - e espectáculos ao vivo. ‘Sodade' era a sua música mais célebre.

Uma entre quatro irmãos, a cantora foi viver com a avó na adolescência. Aos 16 anos, começou a cantar em bares e hotéis e, com a ajuda de alguns músicos locais, ganhou notoriedade em Cabo Verde, sendo ‘eleita' a Rainha da Morna pelos fãs. Aos vinte anos foi convidada a trabalhar como cantora para o Congelo - companhia de pesca criada por capital local e português mas no ano de 1975 - na altura da independência - deixou de cantar para ajudar a sustentar a família. A este período, que se prolongou por dez anos e durante o qual teve problemas com o alcoolismo, Cesária chamou os seus ‘Dark Years' (Os Anos Negros).

Em 1985 a convite de Bana, proprietário de um restaurante e uma discoteca com música ao vivo em Lisboa, Cise (como era chamada pelos mais próximos) vem a Lisboa e grava um disco que passou despercebido à crítica, seguindo para Paris onde é "descoberta" e daqui, como aconteceu com outros cantores, partiu para os palcos do mundo. 

Em 1988 grava "La diva aux pied nus", álbum aclamado pela crítica. Nesta fase da sua carreira tem um papel fundamental, que se manteve até ao final, o empresário francês José da Silva.  

Em 1992 Cesária Évora gravou "Miss Perfumado" e aos 47 anos torna-se uma "estrela" internacional no mundo da world music, fazendo parcerias com importantes músicos e pisando os mais prestigiados palcos. 

Em 2004, Cesária Évora venceu o Grammy de Melhor Álbum World Music Contemporâneo com "Voz d'Amor" e foi condecorada, em 2007, pelo então Presidente francês Jaques Chirac com a Legião de Honra de França, país onde encetou a sua carreira internacional, tornando-se a voz cabo-verdiana mais conhecida no mundo.

Foi também  homenageada no seu país, Cabo Verde, com um prémio carreira na gala dos Cabo Verde Music Awards.

Em 2008 sofreu um AVC, durante um espectáculo na Austrália e, em Maio do ano passado, foi operada ao coração.

MÁRIO DE CARVALHO [VICE-PRESIDENTE ASS. CABO VERDIANA EM LISBOA]

O vice-presidente da Associação Cabo-Verdiana  de Lisboa, Mário de Carvalho, disse hoje que a morte de Cesária Évora é  uma "perda irreparável" para a cultura de Cabo Verde e do mundo.  

Afirmando que a cantora já se tinha retirado dos palcos, Mário de Carvalho  ressalvou que a sua música "nunca saiu de cena".  

"Estou muito consternado. Ainda estou a digerir esta perda", disse emocionado  à Lusa.  

O dirigente associativo disse ainda que a associação estava a preparar  uma homenagem à cantora para 2012, financiada pelo ACIDI - Alto Comissariado  para a Imigração e Diálogo Intercultural.  

Agora, a associação vai "repensar" o evento porque "terá de ser feito  de outra forma".  

TITO PARIS

O músico cabo-verdiano Tito Paris lamentou  hoje a morte de Cesária Évora, companheira de palcos e de brincadeiras,  salientando que a música da cantora não morre e será ouvida "até ao último  dia das nossas vidas".  

Em declarações à Agência Lusa, Tito Paris afirmou estar "muito triste"  com a morte da sua amiga, referindo que "o mundo da música e Cabo Verde  a partir de hoje ficaram mais pobres, tal como enriqueceram no dia em que  ela nasceu".  

"O artista e o poeta praticamente não morrem. Desaparecem mas não morrem  e nós vamos ouvir Cesária até ao fim da nossa vida, ela vai existir com  as suas mornas e coladeras até ao último dia das nossas vidas", considerou. 

Tito Paris recordou as "brincadeiras" de muitos anos de cumplicidade  com a cantora, uma "pessoa muito bem disposta, muito porreira" que praticamente  o viu nascer.  

"Eu fazia-lhe cócegas, ela tinha muitas cócegas, e brincava com ela  chamando-lhe 'a minha namorada', dizendo que ia casar com ela. Ela respondia-me:  'você diz isso só no meio das pessoas, quando estamos sozinhos você não  diz nada disso'", recordou.  

Quando ia a casa da cantora, Tito Paris tinha também especial gosto  em provocá-la, abrindo as suas gavetas e indo-lhe ao frigorífico, o que  levava Cesária Évora a censurá-lo: "você pensa que isto aqui é a sua casa?!". 

músico, que produziu o primeiro disco a solo de Cesária Évora, lembrou  ainda "os vários momentos em palco" que ambos tiveram.  

CARLOS SEIXAS [Festival Músicas do Mundo]

Cesária Évora, 70 anos, falecida hoje "é um  pouco a Amália [Rodrigues] cabo-verdiana, ela é a voz e a alma da música  de Cabo Verde", disse o programador do Festival de Músicas do Mundo de Sines.  Carlos Seixas, em declarações à Lusa, referiu que Cesária Évora foi  "capaz de trazer ao mundo aquilo que é a grande cultura musical da crioulidade  da cultura cabo-verdiana".  

O programador mostrou-se confiante que apesar da "perda irrecuperável,  a cultura cabo-verdiana saberá reinventar-se e ultrapassar este momento  de luto, tanto mais que a cena musical está muito ativa"  

O responsável pelo Festival de Músicas do Mundo afirmou-se "comovido"  com a notícia da morte de Cesária e referiu "a imensa pena em nunca a ter  trazido" ao palco de Sines "por razões várias".

JORGE CARLOS FONSECA [PRESIDENTE CABO VERDE]

O Presidente de Cabo Verde considerou  hoje a morte de Cesária Évora uma "grande perda" para todos os cabo-verdianos,  afirmando que se calou uma voz que representava "um pouco a noção de ser  cabo-verdiano".  


Reagindo logo após ter recebido a notícia, interrompendo mesmo o almoço  num restaurante da Cidade da Praia, Jorge Carlos Fonseca afirmou que com  a morte da "Diva dos Pés Descalços", falecida aos 70 anos no Mindelo, desaparece  uma das maiores figuras da cultura cabo-verdiana.  


"O sentimento que me invade é de profunda tristeza e de grande desolação,  porque com o desaparecimento físico de Cesária Évora desaparece uma das  maiores figuras da cultura cabo-verdiana, particularmente da nossa música.  Diria mais, que Cesária Évora representa um pouco a noção de ser cabo-verdiano",  defendeu.  


"Quando pensamos em Cabo Verde seguramente pensamos em Cesária Évora.  E quando as pessoas ouvem Cesária, a referência é Cabo Verde, o que dizer  que é uma das grandes figuras da Nação cabo-verdiana. O falecimento representará  para todos os cabo-verdianos uma grande perda e os cabo-verdianos estarão  atravessados por um profundo sentimento de pesar e de tristeza", avançou. 


"Conhecíamos o estado de saúde dela, mas confiamos sempre na recuperação  das pessoas. Parecia-nos uma questão conjuntural e que se recomporia rapidamente.  Infelizmente, as coisas aconteceram e, neste momento, temos o conforto  de ficar com a imagem, com a figura, com a música. A voz, essa, que é imperecível",  lamentou.  

JOSÉ DA SILVA [EMPRESÁRIO DA CANTORA]

"Pelo que nos deixou como legado artístico e pelo que foi como ser humano,  sentimos neste momento uma indescritível perda" disse o empresário de Cesária Évora, José da Silva, em comunicado.

A fama internacional de Cesária Évora deve-se fundamentalmente a José  da Silva, que pegou na já não tão jovem "Cize", contava então 45 anos, para,  no início dos anos 90 do século XX, promover a cantora mindelense, que cantava  sempre de pés descalços, primeiro em França, seguindo-se, depois, Portugal  e o resto do mundo.  

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