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Correio da Manhã

Cultura
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MOTORES DO INFERNO

Rock n'roll, almas sonhadoras e heróicos resistentes à chuva. O anfiteatro enlameado que recebe o 12º Festival de Paredes de Coura compôs-se à terceira noite com fãs assumidos, revivalistas, amantes dos ritmos intensos.
20 de Agosto de 2004 às 00:00
Motorhead encabeçaram uma noite de rock n’ roll
Motorhead encabeçaram uma noite de rock n’ roll FOTO: J. Manuel Simões
Quando os Motorhead entraram em cena, quais motores do inferno, as hostes já estavam aquecidas. Caía a noite com os Mão Morta, a música salvadora de climatéricas angústias, a partilha da memória, dos sonhos que nos alimentam, da liberdade que nos abre para o Mundo. Em forma de poema musical mergulhado no trágico das cordas, vociferando com a agressividade das guitarras. "Um concerto dos Mão Morta é sempre um acontecimento" e ali, com o habitual sarcasmo, Adolfo Luxúria Cannibal, disfarçado de juiz da Idade Média ou "boneca de Braga", baralhou as pistas da identidade, brincou com as máscaras, deu corpo ao rock e à palavra.
FAZER HISTÓRIA
Raros dos presentes eram nascidos quando, em 1964, surgiram os MC5. Duraram pouco, gravaram o seu nome em lugar cativo nos anais do rock, retomaram os passos no século XXI acrescentando-lhe as iniciais dos três apelidos dos sobreviventes: DKT - Davis, baixista, Kramer, guitarrista, e Thompson, baterista. Após três décadas de ausência em palcos, é difícil voltar a adquirir transcendência e universalidade.
Na sua terceira vez em Paredes de Coura, o baixista Nick Oliveri (ex-Kyuss e Queens of The Stone Age), agora com os Mondo Generator, voltou a destilar o seu punk metal abrasivo, onde ferocidade, angústia e esquizofrenia são temas recorrentes.
A maioria estavam ali pelos Motorheads, liderados pelo incontornável Lemmy Kilmister, 59 anos, vocalista-baixista. "Em termos médicos, Lemmy devia estar morto. Depois de anos e anos de excessos o sangue do músico poderia facilmente envenenar outro ser humano", refere a sua biografia. Ouvir temas como 'Ace Of Spaces', 'Overkill', 'Civil War' ou 'Going to Brasil', passando pelo novo 'Inferno', interpretados com tal pujança por três músicos com tanto de talento como de experiência, é partilhar desse sangue e perceber que o rock n'roll é como uma chama que nem a chuva consegue apagar.
APONTAMENTOS
PRINCESA
Dona Belmira, a princesa de Moselos, 89 anos, sofre de alzaimer. Há três anos acamada, continua viva, diz a filha, D. Rosa, “graças ao amor e ao carinho”. Para esta família não há festival.
ALENTEJANOS
Stephane Kerdilles e Frank Lapillone deixaram a França para trabalharem numa quinta alentejana. Encantados com as belezas naturais, davam ênfase ao harmonioso ambiente do festival.
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