Com a mudança de estação, Springsteen assume, de vez, a sua condição de herdeiro de uma tradição que já o marcara.
Ainda há dois meses tinham chegado notícias de Bruce Springsteen. Ou, se quisermos ser rigorosos, mais um documento de identidade, dos que os interessados estudam e guardam: o registo da passagem do ‘Boss’ pelo Hammersmith Odeon londrino, nos idos de 1975, ano de ‘Born To Run’. Era o período do abraço ao rock, com ‘Thunder Road’, ‘Tenth Avenue Freeze-Out’ e ‘She’s The One’ a mostrarem um cantor em explosão e uma muralha sonora chamada E-Street Band. Era o tempo que justificava a premonição de Jon Landau: “Eu vi o futuro do rock…”.
Agora, com a mudança de estação, Springsteen cumpre um desígnio que, como outros, estava escrito nas estrelas: deixa para trás as suas aventuras solitárias/íntimas como ‘Nebraska’ ou ‘The Ghost Of Tom Joad’ e assume, de vez, a sua condição de herdeiro de uma tradição que já o marcava, traçando uma linha de continuidade que vem de Woody Guthrie, faz escalas de honra em Pete Seeger e Bob Dylan, até chegar ao nosso homem.
Traduzindo: Springsteen desafiou uma seita de músicos – chegados aos banjos e aos bandolins, às tubas e aos violinos, aos instrumentos que ajudaram a erguer a tradição norte-americana – para o que se adivinha ter sido um autêntico ‘hootenanny’ (ou seja: uma ‘jam session’ da música de raízes) na sua casa de New Jersey.
A matéria-prima está, de uma forma ou de outra, relacionada com o percurso musical de Pete Seeger, o quase nonagenário patriarca da folk e da canção de palavra (de ‘luta e esperança’, na síntese feliz de um dos seus biógrafos). Mas não se trata de repor os hinos de Seeger: não andam por aqui ‘Little Boxes’, ‘Where Have All The Flowers Gone’, ‘Bells Of Rhymey’, ‘Turn Turn Turn’, ‘Guantanamera’ ou ‘Oh Freedom’. Nada disso.
Springsteen preferiu recorrer a temas potencialmente mais obscuros mas capazes de identificar o carreiro luminoso de Seeger, cruzando – sem complexos e com a entrega de sempre – o folk, os blues, o gospel, o bluegrass. Para aumentar a autenticidade, não há dobragens de estúdio e, adivinha-se, os ensaios terão sido poucos e curtos, para dar espaço criativo aos músicos.
O resultado é avassalador, ao longo de uma hora, quer esteja em cena o balanço rural de ‘Old Dan Tucker’, a balada transgressora que é ‘Jesse James’, o assumir do berço irlandês em ‘Mrs. McGrath’, a força gutural de ‘John Henry’, a desbunda de enquadramento religioso de ‘Jacob’s Ladder’, a grandiosidade que paira em ‘Shenandoah’, o desafio de ‘Pay Me My Money Down’.
Por várias vezes, Springsteen mexe nas letras tradicionais, seja para se referir ao ‘rei da América’ (adivinhem quem é o alvo…) ou para ironizar sobre os milhões de um tal ‘Mr.Gates’. Mas é mais pela subtileza do que pelo manifesto que este disco se impõe.
Chama-se ‘We Shall Overcome – The Seeger Sessions’ e, contendo uma homenagem, vale muito pela declaração de princípios. Tem, afinal, um hino: o próprio ‘We Shall Overcome’, em que Springsteen abandona o tom épico, a fúria, o grito, negando até o registo vocal que conhecemos de Seeger. Canta baixo, chega quase a sussurrar, apoiado num coro desordenado. Ele sabe – água mole em pedra dura…
Abençoados os simples! Honra aos DELAYS, de Southampton: confirmam no fresco ‘You See Colours’ as pistas da estreia (‘Faded Seaside Glamour’). Canções bem pensadas e tocadas, a voz de Greg Gilbert a marcar diferença na atmosfera pop irresistível. Entrem por ‘You and Me’ e ‘Valentine’: já não param. n
A cadência de JOSH ROUSE impressiona, sem falhas de nível a registar desde ‘Under Cold Blue Stars’ (2002). ‘Subtítulo’ não é excepção nesta corrente de canções lineares, de contornos felizes e sem tiques supérfluos. É uma aposta segura para a época Primavera/Verão. Impressão minha ou cheira a férias?
Dirigiu discos intensos como ‘Sahara Blue’ (Rimbaud no alvo) e ‘Chansons des Mers Froides’, produziu as Nouvelles Polyphonies Corses e ‘Lights In The Dark’, dedicado à tradição irlandesa, emparceirou com Barbara Gogan ou Harold Budd. Agora, HECTOR ZAZOU volta com o radical ‘Quadri Chromies’. São temas escritos para o trabalho do pintor digital Bernard Caillaud, texturas sonoras, electrónica, ambientes, sem melodia aparente. David Sylvian, Ryuichi Sakamoto e Brian Eno colaboram.
JAMIE FOXX ganhou um Óscar por ser um Ray Charles mais perfeito do que o genuíno. Mas, como cantor, não chega aos calcanhares do mestre – ‘Unpredictable’ é uma salganhada de estilos, com tendência para a melopeia. E os convidados (Mary J. Blige, Kanye West, Snoop Dogg) são melhores que o anfitrião.
Tiveram os seus tempos, mas hoje soam gongóricos, excessivos e até pontualmente ridículos: ‘The Anthology’, um duplo CD que prolonga até à náusea as memórias dos GENE LOVES JEZEBEL não merece recomendação senão aos desejosos de cumprir estudos arqueológicos sobre um rock de pompa e circunstância.
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