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Correio da Manhã

Desporto
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A rendição anunciada

O Sporting entregou-se ideologicamente à claque amiga de alguns dirigentes.
18 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Leonor Pinhão, Sá Pinto, Domingos Paciência, Sporting, Bruno Alves

Há uma grande diferença entre o futebol jogado e o futebol falado? Deve haver com certeza. O futebol jogado é uma questão de bola a rolar com maior ou menor arte, o futebol falado é uma questão de tagarelice a rolar com maior ou menor acidez, conforme os resultados, empolgam ou martirizam adeptos, dirigentes, comentadores, fadistas, médicos e carpinteiros. Como em tudo na vida, há gente mais competente e menos competente neste ofício do futebol falado. E há também gente que, pelo seu passado, tem melhor currículo e que deve ser ouvida com mais atenção.

Tomemos o caso da última semana na vida do imparável Sporting e, respeitando as hierarquias, comecemos pelo presidente do clube. No campeonato do futebol falado, Godinho Lopes fez o pleno noticioso em 24 horas. Na segunda-feira, anunciou a sua confiança sem limites em Domingos Paciência e na terça-feira despediu-o liminarmente. Foi um êxito! Ficam, no entanto, sem efeito todas as culpas atiradas, em futebol falado, contra os árbitros que já não são mais os responsáveis pelo mau futebol jogado dos leões. O grande culpado pelos maus resultados chama-se Domingos Paciência. E foi logo apontado a dedo no regresso do Funchal pela ruidosa delegação do Comité Intelectual e Científico do Sporting que aguardou o treinador no Aeroporto de Lisboa depois da derrota com o Marítimo.

 

O Sporting entregou-se ideologicamente à claque amiga de alguns dirigentes. Diga-se, em abono da verdade, que a dita claque é mais amiga de uns dirigentes do que de outros, o que não tem grande importância. Em democracia é assim que as coisas funcionam. É curioso, no entanto, verificar como a substituição de Domingos por Sá Pinto estava há muito anunciada. O futebol falado em torno dos fabulosos êxitos da equipa de sub-19 do clube fazia prever semelhante desfecho. E, consumada a tão desejada rendição, foram muitos os responsáveis, os adeptos, os opinadores que viram na nomeação de Sá Pinto o regresso aos velhos tempos de glória e a certeza de que os pergaminhos do clube não iam cair em mãos alheias.

 


 

Poucas vozes em Alvalade se fizeram ouvir contrariando este sucesso tão acarinhado pelo tal Comité Intelectual e Científico. Gente da velha cepa como Manolo Vidal, que foi dirigente e campeão, e como Hilário, que foi campeão de campeões, deitaram as mãos à cabeça. Hilário chegou ao ponto de dizer que por este andar “qualquer dia até o Paulinho é treinador do Sporting”. Mas Hilário, na verdade, não tem currículo para alinhar no fabuloso futebol falado deste Sporting. Ainda por cima é amigo do Eusébio.

ERRAR É HUMANO

Ladrões de cartola

 

Para os árbitros trata-se de uma questão de justiça social mas para o comum dos adeptos a premência da profissionalização dos árbitros volta sempre à baila quando um árbitro erra de modo calamitoso. Os árbitros querem ser profissionais porque é justo que o sejam numa indústria que move milhões. Os adeptos querem árbitros profissionais quando se sentem prejudicados. De um modo bastante simplista e infantil, acreditam que se os árbitros forem gente rica, como os jogadores, já não precisarão de ser “pagos” por com hipotéticas benesses como envelopes recheados ou viagens de férias a paraísos exóticos ou com empregos para familiares ou com promoções nas carreiras.

 

Os adeptos são muito básicos quando se trata de analisar estas questões. De um modo geral, convencionou-se que um árbitro rico não aceitará jamais gorjetas. E que, por isso mesmo, um árbitro rico nem precisa de se dar ao trabalho de errar. Nada mais errado do que esta ideia. Por exemplo, o árbitro do Zénite-Benfica, um sueco chamado Erikson, é multimilionário e errou duas vezes com prejuízo para o Benfica, poupando a expulsão de Bruno Alves e afastando Aimar do jogo da segunda-mão. O senhor Erikson ficou rico ao vender uma participação que detinha numa rádio sueca e, certamente, não ficou mais rico depois do jogo de São Petersburgo. Se os árbitros fossem todos milionários como o senhor Erikson continuaria a haver decisões erradas nos campos de futebol. Mas a expressão “ladrão de cartola” ia pegar.

 



 

POSITIVO

 

André em cheio

 

O 2-1 favorável ao Légia não era nenhuma tragédia, longe disso. Mas André Santos resolveu que as coisas ainda podiam melhorar para o Sporting e, à beira do fim, aplicou-se numa trivela que deu o empate e aumentou as expectativas para o jogo de Alvalade.

 

NEGATIVO

 

Pereira compromete

 

Num lance disputado com Balotelli, Álvaro Pereira foi infeliz ao ponto de marcar um golo na própria baliza, traindo Helton e abrindo caminho para a reviravolta do resultado a favor do Manchester City.

 

Pouco James

 

Vítor Pereira fez a vontade aos adeptos e aos teóricos lançando James de início no jogo com os ingleses. Mas o jovem jogador colombiano viu-se pouco nos 90 minutos e não acrescentou nada ao futebol portista.

 

PÉROLA

 

“Há um clube que devia jogar à porta fechada.” PAULO PEREIRA CRISTÓVÃO

 

O vice-presidente do Sporting continua a pugnar pela “legalização” das claques. E, sempre com o Benfica em mente, como não podia deixar de ser. Bonito é ter grupos de adeptos tão “legais” que estão sempre prontos a intervir, na máxima legalidade, seja para incendiar bancadas ou para insultar presidentes e treinadores.

Leonor Pinhão Sá Pinto Domingos Paciência Sporting Bruno Alves
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