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Crescimento dos 'casuals' em Portugal é efeito perverso da legislação repressiva, diz especialista

Em 2025 foram instaurados 1.729 processos de contraordenação, resultando em 415 adeptos impedidos de entrar em recintos desportivos.

21 de fevereiro de 2026 às 09:21

O coordenador do Observatório da Violência associada ao Desporto (ObVD) alertou este sábado que o crescimento do movimento 'casual' em Portugal é um efeito perverso da legislação repressiva, que radicalizou jovens e empurrou grupos organizados para a clandestinidade.

Em declarações à Lusa após os incidentes entre 'casuals' do Sporting e do Benfica, na quinta-feira, antes de um dérbi para o Nacional de futsal, que resultaram na detenção de 124 pessoas, Daniel Seabra defende que o fenómeno da violência no desporto em Portugal não é um "epifenómeno" isolado, mas o resultado de um processo de deriva radical que antecipava já em 2007.

Segundo a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), em 2025 foram instaurados 1.729 processos de contraordenação, resultando em 415 adeptos impedidos de entrar em recintos, dos quais 72,5% por posse ou uso de pirotecnia.

Numa análise detalhada à radiografia atual das claques em Portugal, o investigador traça um cenário de mutação perigosa: a migração do movimento 'ultra' para o estilo 'casual'.

De acordo com o especialista, o endurecimento cego da legislação portuguesa acabou por ter o chamado "efeito perverso": em vez de erradicar a violência, empurrou-a para a clandestinidade.

A distinção é fundamental para entender o panorama atual. Enquanto as claques tradicionais nasceram nos anos 1960 para apoiar o clube com coreografias e adereços, os 'casuals' são uma derivação do hooliganismo inglês dos anos 1970.

"Os 'casuals' deixaram de vestir adereços que os identificassem com o clube para fugir ao controlo policial. Usam marcas caras para emular uma classe social média-alta e passar despercebidos", explica o antropólogo, cuja investigação se foca na violência associada ao desporto, com especial ênfase em claques de futebol, o movimento ultra, hooliganismo e o estilo 'casual'.

Em Portugal, esta migração acentuou-se após o Euro2004 por dois motivos principais: pela insatisfação com a "empresarialização" das claques e o lucro dos seus líderes e pela exigência de legalização como associações, a entrega de bases de dados pessoais às autoridades e a Cartão do Adepto, entretanto extinto.

Daniel Seabra critica a estratégia do legislador que, perante o falhanço de uma medida, decide "dobrar a dose do medicamento". Hoje, em Portugal, a punição para quem acende uma tocha numestádio pode ser superior à de uma infração grave de condução sob efeito de álcool, notou.

O especialista alerta que os estádios se tornaram espaços "panópticos" --- de vigilância total --- onde as tochas foram transformadas num símbolo de "rebeldia e protesto" contra o sistema, em vez de um adereço coreográfico.

Para Seabra, o crescimento destes grupos radicais traz riscos reais de danos patrimoniais, ferimentos graves e até morte, citando o caso do adepto italiano Marco Ficini, que morreu depois de ser atropelado junto ao Estádio da Luz, em Lisboa.

O especialista sublinhou que estes grupos não são apenas "adeptos", mas sim estruturas "altamente organizadas" que comunicam entre si e testam constantemente os limites da autoridade.

Atualmente, assiste-se a uma nova vaga de recrutamento: jovens de 17 a 20 anos que aderem diretamente aos grupos 'casual' sem passarem pela militância das claques tradicionais. Para muitos, o objetivo primordial é o confronto.

O coordenador do ObVD considera que o fenómeno é indissociável do aumento da delinquência juvenil e do discurso de ódio nas redes sociais, que funcionam como canais de propagação imediata.

Como solução, o especialista defende a necessidade de recuperar os valores positivos do movimento 'ultra' e de integrar os clubes e as gerações mais velhas de adeptos na discussão, em vez de se legislar por impulso mediático.

Na quinta-feira, a PSP efetuou 124 detenções, de 64 adeptos do Benfica e 61 do Sporting, nas imediações do Estádio José Alvalade, em Lisboa, antes do dérbi de futsal entre os dois rivais, no Pavilhão João Rocha.

Sporting e Benfica voltam a defrontar-se na segunda-feira, desta feita em casa dos 'encarnados', para a Liga dos Campeões de futsal.

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