Modalidade katas foi proibida devido ao alto risco de contágio do vírus mas atletas dizem que não há contacto físico.
Atletas e dirigentes criticaram esta sexta-feira a "ignorância" da decisão da Direção-Geral da Saúde ao classificar o katas, uma disciplina individual do karaté, como desporto de alto risco no contágio da covid-19, o que acarreta "prejuízos tremendos" à modalidade.
Em declarações à agência Lusa, o diretor técnico nacional da Federação Nacional de Karaté, Joaquim Gonçalves, afirma que já foram feitas várias exposições à Direção-Geral da Saúde (DGS) para corrigir o que diz ser um "erro tremendo": "[O katas] está proibido por ignorância na estratificação que foi feita", declarou. O dirigente defende que o katas deveria ser classificado como de baixo risco, porque se trata de uma "disciplina puramente individual". "No fundo, eles não classificaram a disciplina, classificaram a modalidade. Não conseguiram foi distinguir a disciplina de katas da de kumite. A kumite sim, tem o adversário para poder evoluir e realizar todas as ações técnicas", assinala.
Contrariamente à generalidade das disciplinas do karaté, o katas não requer contacto físico com o adversário, porque se baseia na sequência dos movimentos das técnicas de ataque e defesa. "É uma disciplina técnica, para se ter uma compreensão mais fácil, [acaba por ser] muito próximo daquilo que é a ginástica artística", explica. Para "colmatar" as "dificuldades" trazidas pela classificação de alto risco, os atletas e treinadores da modalidade recorreram às novas tecnologias.
"Fazíamos e continuamos a fazer, infelizmente, a gravação do respetivo exercício técnico e depois vamos corrigindo o que é necessário para a evolução dos atletas, sobretudo os que estão em projeto olímpico e em alto rendimento", aponta. Joaquim Gonçalves afirma que têm sido feitos "vários contactos" com a equipa da DGS responsável pela revisão das orientações para o desporto no âmbito da pandemia, mostrando-se confiante de que a classificação será corrigida em "breve". "Há uma desigualdade de todo o tamanho quando comparamos a disciplina relativamente a outras que foram classificadas de baixo risco. Isso tem criado um prejuízo tremendo, tremendo mesmo, ao nível de atletas, treinadores e do processo competitivo", declara.
A atleta de katas Patrícia Esparteiro, que foi bronze nos Jogos Europeus de 2019, já voltou aos treinos presenciais, mas recorda os meses em que teve de treinar em casa. "Enviava os meus vídeos todos os dias para o meu treinador e depois fazíamos a análise pelo Zoom. Às vezes, passávamos umas três horas em vídeo-análise, mas acabou por correr bem", avança. Salientando que nos últimos meses só houve uma competição da modalidade em Portugal, realizada em dezembro passado, Patrícia Esparteiro considera que o adiamento sucessivo das competições condiciona a motivação. "Fico um pouco triste de ver os objetivos passarem de Fevereiro para março, de março para abril e os meses têm passado e continua tudo adiado. Tenho-me mantido motivada, mas sempre a adiar não é muito bom para a motivação", diz. A atleta de 26 anos não concorda com a classificação de alto risco atribuída ao katas, decisão que "não faz sentido nenhum" e que foi tomada por "falta de conhecimento".
"Uma modalidade individual que, em contexto competitivo, realizamos numa área de 8x8 metros, às vezes até mais, não vejo qual é o alto risco nisso porque sou apenas eu e mais ninguém", defende.
Segundo a orientação 036/2020 da DGS de 25 agosto, todas as disciplinas de karaté são classificadas como de alto risco de contágio da covid-19, enquanto o futebol, por exemplo, é tido como de risco médio.
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