Especialista defende que deve haver mais literacia sobre saúde mental no desporto.
O especialista em saúde mental no desporto, Paul Wylleman, que trabalha com a equipa olímpica da Bélgica, explicou, em entrevista à Lusa, que a Educação Física "tem de ser expandida ou reintroduzida" no currículo escolar.
Para o especialista belga em saúde mental, Portugal beneficiará de uma estratégia que interligue prática desportiva, educação e sociedade, trazendo outra valência à Educação Física que possa recentrar a saúde mental e física como importante, numa fase de desenvolvimento inicial e média de crianças e jovens.
"Tentemos não ficar apenas no desporto de elite, mas olhar para outros domínios em Portugal. Nas escolas, o que se faz pela saúde mental? É preciso ver se é possível usar outras coisas, promover intercâmbios de estratégias", explica, em entrevista à Lusa.
Wylleman, que fala esta quarta-feira num evento da Comissão de Atletas Olímpicos, em Lisboa, respondia em vários pontos ao que pode ser feito pela saúde mental no desporto nacional, citando exemplos de outros países europeus para sustentar a sua tese.
Num país nórdico, há várias décadas, "as crianças de infantário, ao brincar, aprenderam a fazer exercícios de respiração, de relaxamento", conta, mostrando "um dos elementos importantes na saúde mental, que é saber usar a respiração para reduzir a ansiedade".
Nos Países Baixos, onde trabalhou com a equipa olímpica durante mais de oito anos, estando em dois Jogos Olímpicos, Rio2016 e Tóquio2020, a pergunta que as autoridades desportivas colocaram foi: "porque é que vamos esperar até haver um problema?".
"Porque não introduzir, logo nos clubes para crianças, estas pequenas coisas simples que podem fazer, e que os acompanharão ao longo do desenvolvimento, desde os oito, 10 anos", aponta.
Numa "abordagem desenvolvimental, que é essencial", a ideia "é não esperar até ao patamar sénior", por ser "mais fácil introduzir no dia a dia, ou uma vez por semana, junto de crianças e jovens" uma série de técnicas, ferramentas e informação que evite problemas, mais tarde, ou possa levar a vertente de desempenho e evolução atlética mais longe.
Professor universitário em Bruxelas, onde ensina estudantes de Ciências de Desporto, o belga reflete também no papel da Educação Física no currículo escolar, uma disciplina que "tem de ser expandida ou reintroduzida", porque "uma parte da saúde mental é a saúde física".
"Deixámos de ter desporto, fazer desporto, agora, é fora das escolas. E substituímos com outras coisas. Precisamos de educação física, e se ensinarmos os seus professores, poderão ter um grande impacto na saúde mental" de crianças e jovens, nota.
Assim, atuais e futuros professores precisam "de elementos, ferramentas, e conhecimento, sobre saúde mental", seja no ensino básico e secundário, seja como professor ou mesmo alguém ligado a atividades ocupacionais, como com a terceira idade.
Paul Wylleman sugere ainda a Portugal que possa "identificar, no país, especialistas que possam ajudar treinadores e atletas", seja com o lado 'positivo' da saúde mental, isto é, para os poder levar a melhores resultados e práticas, quer pelo negativo.
"É um desafio para federações e para o Comité Olímpico de Portugal, ter a responsabilidade por uma rede de peritos. [...] Nos Países Baixos, temos cinco centros de treino olímpicos, e em cada um tinha uma equipa com vários profissionais, a trabalhar em conjunto com atletas e treinadores", refere.
O especialista belga considera, ainda, que mais literacia sobre o tema, de atletas a treinadores, ajudará a atingir outro patamar após uma entrada do assunto no 'mainstream' desportivo.
"Temos de aumentar a competência de treinadores e atletas, porque podem fazer muito por si mesmos. [...] O papel do treinador e dos atletas passa por empoderamento, competências de desenvolvimento, saber limites, conhecer-se", explica, em entrevista à agência Lusa.
"Depois temos os problemas de saúde mental, as doenças. Aí é que os profissionais qualificados podem entrar", acrescenta.
Wylleman sugere a criação de "programas de literacia de saúde mental", para atletas e treinadores, no fundo para toda a estrutura desportiva, dentro do que considera "o desenvolvimento holístico do atleta", como um todo, a par do que acontece noutras áreas da vida.
"É preciso educar atletas e treinadores, mas há médicos e fisioterapeutas com quem falar, também. [...] Temos de lhes dar mais informação para entender isto melhor e para identificar quando pensam que pode haver um problema, uma doença, e aí chamar o psicólogo. O lado negativo precisa de mais atenção, educação, trabalho", afirma.
Paul Wylleman faz uma distinção, dentro de saúde mental, um termo que "passou a conter muita coisa", entre o trabalho no lado positivo, em prol do desenvolvimento, de aumento na performance e no bem-estar, e no lado negativo, associado a problemas de saúde mental.
O maior mediatismo do tema nos últimos anos foi impulsionado, entre outros, pelo nadador Michael Phelps, o mais bem sucedido atleta olímpico, com 28 medalhas, ou a ginasta Simone Biles, que abandonou a competição em Tóquio2020 por este motivo, passando também "pelo efeito covid-19", que adiou estes Jogos Olímpicos e trouxe um fator extra de ansiedade, entre a 'bolha', os sucessivos testes e as quarentenas.
Wylleman lembra como trabalha como psicólogo junto de atletas de alto rendimento desde o final dos anos 1980, e como o tópico "foi sempre surgindo, mas agora como assunto separado, o que é bom".
Mais recentemente, aponta, uma aliança de ciclistas que representa o pelotão feminino lançou, no Reino Unido, o documento "Duty of Care", ou 'dever de cuidar', que estabelece linhas orientadoras para o bem-estar físico e mental das corredoras e procura garantir que não podem, com ou sem o seu conhecimento e consentimento, ser 'empurradas' para lá do aceitável.
O documento respondia a denúncias de abuso e comportamento extremo por parte de treinadores, mas exemplifica o tipo de resposta estruturada à saúde mental que o desporto de elite tem tomado.
Nos Países Baixos, onde trabalhou quase nove anos no movimento olímpico, qualquer federação que pretende financiamento do Comité Olímpico nacional só o consegue com um documento orientador claro sobre o tema.
Uma maior noção da sua prevalência no desporto, e maior mediatização, não significa que "seja um fenómeno apenas do desporto de elite", porque problemas de saúde mental "sempre estiveram presentes na sociedade".
"Acontece em qualquer lado e devemos também aprender com isso, para não termos de reinventar a roda. O que podemos fazer mais no desporto de elite?", questiona.
Ao lado da literacia sobre o fenómeno, outro trabalho de perceção e informação prende-se com uma "ideia errada do que é um exemplo a seguir", uma figura heróica do desporto, normalmente idealizada como "alguém que não tem problemas, está sempre a rir-se e tem desempenho de alto nível sempre".
"Isto não é realista, e Phelps e outros estão a mostrar que se pode ser campeão olímpico, paralímpico, e ter problemas, desafios, até transtornos de saúde mental", refere.
Assim, "um exemplo a seguir também mostra que há dificuldades", que "nem tudo é a 100%", e que aqueles atletas procuraram ajuda e encontraram soluções, e outros modelos podem "realisticamente falar do lado positivo" da saúde mental.
"Olho para os oito anos que trabalhei nos Países Baixos. Se for ver as consultas que tive, 80% era do lado da saúde mental pela positiva. 'Estou bem, mas o que posso melhorar?' Os restantes 20% foi no lado negativo", conta.
Doutorado em psicologia, Paul Wylleman é professor na Vige Universiteit, em Bruxelas, e atualmente trabalha com a equipa olímpica da Bélgica, desenvolvendo a sua atividade como investigador e profissional nas áreas da psicologia do desporto, desenvolvimento de performance e apoio mental a atletas, entre outros.
Presidiu à Federação Europeia de Psicologia Desportiva e acumula décadas de trabalho na área.
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