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Correio da Manhã

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"Gostava de voltar ao Benfica"

Manuel Fernandes, jogador do Valência emprestado ao Besiktas na última temporada, não esquece os 11 anos de águia ao peito.E continua a pensar na Selecção Nacional
11 de Junho de 2011 às 00:00
'Gostava de voltar ao Benfica'
'Gostava de voltar ao Benfica'

Correio Sport – Por que é que Paulo Bento não o convocou para o jogo com a Noruega?

Manuel Fernandes – Suponho que por opção técnica. Há muitos jogadores para a minha posição e alguns conservaram o lugar com as boas exibições que fizeram na Selecção ou surpreenderam-no com o rendimento nos seus clubes.

- Depois da ponta final exuberante que fez no Besiktas, esperava ser chamado?

- É verdade que os últimos meses foram bons a nível pessoal. Fui bem aproveitado no sistema táctico do Besiktas. Além da cobertura defensiva, tinha liberdade para transportar a bola e agilizar o ataque. Confesso que havia sempre aquela esperança de ser chamado, mas, sinceramente, a minha ausência não foi a maior surpresa...

- Então?

- Estranhei que não tivessem chamado o Ricardo [Quaresma]. Acompanhei os últimos seis meses dele no Besiktas e foram, no mínimo, brutais. Está em muito melhor forma do que outros jogadores da posição dele. Era mais do que merecido e digo isto sem desrespeitar quem foi chamado.

- Que opinião tem de Paulo Bento?

- É um treinador tranquilo, dá autonomia e transmite segurança aos jogadores. Não é chato nem daqueles que desesperam no pescoço dos jogadores. Quer o melhor para a Selecção e é o que está a fazer neste momento.

- Como é que avalia a liderança de Ronaldo na Selecção?

- É o jogador com mais talento, um exemplo para todos. A liderança é ajustada, não há discussão.

- Três golos, 20 jogos e críticas fantásticas na Turquia, onde é visto como "o motor do Besiktas". Está no seu melhor momento?

- Não. Talvez seja o melhor nos últimos dois anos e meio. Já estive muito bem e acredito sempre que há margem para fazer melhor. O final da época foi bastante feliz para mim e para os outros portugueses do Besiktas. Conquistámos a Taça da Turquia e um lugar na Liga Europa. Foi muito importante também para o clube, que queria justificar os grandes investimentos.

- Foi fácil a adaptação ao futebol turco?

- Tinha outros portugueses e pude contar com a ajuda do Ricardo Quaresma, que já lá estava desde o Verão. Tenho uma amizade muito grande com o Ricardo.

- Tal como Simão e Hugo Almeida, foi recebido como uma estrela de cinema. Esperava uma recepção tão apoteótica no aeroporto?

- Cheguei a Istambul às oito da manhã. É claro que não esperava ver milhares de pessoas aos berros e a correr na minha direcção. Assustei-me, entrámos outra vez no aeroporto e encontrámos uma saída alternativa. Os turcos vivem o futebol com muita intensidade.

- Na Turquia livrou-se da fama de ‘bad boy’?

- Não me dou a conhecer facilmente, mas quem me conhece sabe que não sou ‘bad boy’, nem um rebelde com estratégias manhosas. No Besiktas fui exemplar como em todos os clubes por onde passei. As pessoas acreditam em muita coisa que se escreve e não corresponde à verdade. Devo ter andado a pagar pelo grande amor que me tinham no Benfica.

- Como assim?

- Apareci nos seniores com muito alarido mediático, endeusaram--me aos 18 anos. Depois passei a ser o maior traidor do Mundo quando me fui embora. Por isso, nos últimos quatro anos, tudo aquilo que foi mau foi visto como sendo ainda pior. E tudo o que fiz de bom foi desvalorizado. Não perdoam uma falha e tudo é choradinho.

- Deixou o Benfica magoado com os dirigentes do clube pelo modo como foi tratada uma pubalgia que o afectava (em 2004/05). Ainda existe mágoa?

- Não há nada. O Benfica está sempre muito presente na minha vida. Não ando por aí a apregoar o meu benfiquismo, mas joguei lá 11 anos, fiz todas as camadas jovens e estreei-me como profissional. Logo, é um clube que me marca de forma especial.

- Quer voltar à Luz?

- Gostava de voltar um dia ao Benfica, mas não para me arrastar. Quero voltar numa fase em que possa dar um contributo aceitável. Não sei se vai acontecer, mas gostava muito.

- Mas esteve a um passo do Sporting no Verão passado...

- Houve conversações com o Valência, mas não chegaram a acordo. Também não era o momento ideal para regressar a Portugal.

- Porquê?

- Porque ainda posso evoluir em ligas mais fortes. Mudar agora para um clube português seria deitar a toalha ao chão.

- O que vai fazer na próxima época?

- Para já, só sei que regresso ao Valência – tenho contrato por mais dois anos. O Besiktas quer que eu fique, mas não tem acordo com o Valência para outro empréstimo. A última palavra vai ser a minha…

- E não parece interessado em continuar na Turquia.

- Nesta altura da minha carreira, o que mexe comigo é mais o sonho e menos o dinheiro. Tenho 25 anos, os passos que dei até agora permitem--me um desprendimento financeiro que me é útil, por isso a prioridade é jogar numa liga forte, onde possa mostrar as minhas qualidades. Ando à procura do sonho.

- Onde gasta os 1,8 milhões de euros/ano que recebe no Valência?

- Quem diz que ganho isso? Não interessa o que ganho. Posso dizer que não sou do género espampanante, sou reservado. Os carros são dos poucos luxos que tenho.

- Quantos tem?

- Quatro. Invisto o meu dinheiro no sector imobiliário e em terrenos. Também tenho um negócio de roupa vintage, de várias marcas internacionais. A moda é uma área que me agrada.

- Em quem aposta na Supertaça europeia: Porto ou Barcelona?

- Não entro em apostas, mas vou torcer pelo FC Porto.

- Quem era o seu ídolo quando começou a jogar?

- Del Piero. Na minha posição, quem me agrada hoje é o Gerrard.

- O que aprendeu lá por fora ?

- Que a hipocrisia e a falsidade são universais, não há distinção em função do país e da nacionalidade. Que há bons e maus companheiros em todos os clubes. Estes anos serviram para ganhar mais confiança. Agora estou mais forte mentalmente.

 

PERFIL

Manuel Henrique Tavares Fernandes nasceu a 5 de Fevereiro de 1986 (25 anos), no Cacém. Começou a jogar no Clube Futebol Benfica, com apenas oito anos. Já no Benfica, venceu um campeonato e uma Taça de Portugal, antes de assinar por seis anos com o Valência, num negócio de 15 milhões de euros. Pouco utilizado em Espanha, jogou por empréstimo em clubes ingleses e no Besiktas, na época passada. Vai voltar ao Valência.

 

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