Seis jogos e seis golos, todos apontados na área, em jogadas onde os piques não passaram dos 10/12 metros. Ronaldo está diferente. Ao contrário do que sucedia antes do Mundial de 1998, o Fenómeno deixou de arrancar do meio campo com a bola à sua frente e passou a actuar em terrenos mais próximos da baliza adversária.
O ex-treinador do FC Porto, Carlos Alberto Silva não se tem cansado de manifestar a sua emoção com o ressurgimento de um jogador que lançou no Cruzeiro, no início da década de 90, e que nos últimos três anos passou por um “autêntico calvário”, por causa do joelho direito, tendo mesmo sido submetido a duas operações.
“Ele tem sido inteligente, ao procurar actuar mais próximo da área. Com o tempo, aliás, todos os jogadores tentam adaptar-se melhor à sua realidade. É isso que se tem passado com Ronaldo. Além disso, desde que saiu do Cruzeiro aumentou consideravelmente a massa muscular, o que lhe dificulta um pouco os arranques, ao contrário do que acontecia no início da carreira”, diz Calos Alberto Silva.
Marco Moura Teixeira, ex-supervisor da selecção do Brasil e que acompanha o jogador desde o campeonato Sul-Americano, em 1995, refere que a mudança deve-se ao facto de Ronaldo estar mais maduro. “No futebol, o importante é marcar golos. Ronaldo sabe isso. Porquê, então, pegar na bola e fazer longas correrias? Não utilizando esse método, ele evita desgastes desnecessários e só tem a ganhar.”
Já o preparador físico do “escrete” entre 1998 e 2000, António Melo, também notou diferenças em Ronaldo, não hesitando em compará-lo com Romário. “Procura sempre desmarcar-se no momento exacto. E consegue um melhor posicionamento na área. Enfim, o ímpeto de um atleta jovem de querer resolver os jogos de qualquer maneira, foi substituído pela consciência de um atleta maduro.”
Opinião diferente tem o fisioterapeuta Nilton Petroni, com quem Ronaldo há muito mantém uma profunda amizade, bem como o ex-jogador do Vasco da Gama e da selecção, Roberto Dinamite. Para ambos, o facto de o nº. 9 dos “verde-e-amarelos” estar a jogar mais próximo da área deve-se a uma determinação de Luiz Felipe Scolari.
“O que interessa, no entanto, é que o Brasil está a aproveitar a fase excepcional do Ronaldo. Os dribles em que passa os pés sobre a bola são de encher o olho de qualquer torcedor”, comentou Roberto Dinamite.
Quarta-feira, após o jogo com a Turquia, Ronaldo acabou a conferência de impresa com a frase: “Acabou o pesadelo”. Referia-se ao que se passou em 2000 e 2001, épocas em que praticamente não jogou, por causa de duas graves lesões no fatídico joelho direito. O dia 12 de Julho de 1998, data da final do Mundial de França, em que se sentiu mal antes do jogo com os gauleses, também é para esquecer: “Não me quero lembrar desse Mundial. Só penso em fazer tudo diferente”.
O jogador aproveitou ainda a emoção de ter marcado o golo que qualificou os “canarinhos” para a sétima final de um mundial para, pela primeira vez, reconhecer que teve medo de não poder jogar mais futebol, devido à cirurgia complicada a que foi sujeito, em Abril de 2001, ao joelho direito. “Por isso, a cada dia, a cada jogo, depois de cada lance em que toco na bola, sinto-me agradecido. Poder correr, mesmo andar, para mim é uma vitória”.
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