Escreve como um profeta, tornou-se mito

Camões (1524-1580) foi um poeta que não podia ter sido outra coisa. ‘Os Lusíadas’ é um misto de épico, profecia, lirismo nacional, desafio aos poderosos. Manuseado por todos os regimes, falta-lhe ser verdadeiramente lido pelos portugueses.

22 de março de 2026 às 13:29
Luís de Camões Foto: Getty Images
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Terá nascido em 1524 (mas pode ter sido em 1525), as primeiras biografias foram escritas depois da sua morte, e há registos a garantir que era filho da mouraria lisboeta, “barbirruivo”, escudeiro, destinado a viajar para a Índia em 1550. Pobre e dando-se com ricos, náufrago e prisioneiro, degredado e soldado, valdevinos e erudito. Foi censurado, expurgado e treslido: serviu para exercícios de gramática, oratória e retórica, história e mitologia da pátria, herança clássica e métrica - um pouco de tudo. Em 1926, um decreto-lei institui que ‘Os Lusíadas’ deviam servir para despertar nos alunos “virtudes cívicas e domésticas” - e já durante a República era o material destinado a servir para o ensino da gramática e do patriotismo nas escolas. Depois, com o Estado Novo, passámos ao “culto cristão da Pátria” e o épico como altar da “Santa Arca da nacionalidade”. Com a democracia de hoje, acabou ridicularizado pelos medíocres. Pobre Camões, a servir as necessidades de cada regime. Hoje, não há debate, colóquio, missa académica, encontro de lunáticos, congresso de camonistas, simpósio de patriotas - em que, depois de se elogiar Camões, não apareça uma alma com a excruciante pergunta: e então o colonialismo, o racismo, o machismo, a misoginia (nisto miseravelmente se transformou o tão perigoso Canto IX), a violência e a escravatura? Essas questões têm um interesse devastador para os historiadores e para os censores ou ativistas, mas não acrescentam nada à voz de um autor se não lhe ouvirmos a consciência ou os combates que travou com o passado e com o mundo de que foi testemunha. Um resumo vem no Canto V: “Contar-te longamente as perigosas/ Cousas do mar, que os homens não entendem,/ Súbitas trovoadas temerosas,/ Relâmpagos que o ar em fogo acendem,/ Negros chuveiros, noites tenebrosas,/ Bramidos de trovões, que o mundo fendem...”

Flibusteiro e aventureiro, galanteador e pobretanas, Camões - um meteoro que atravessou o século XVI, um relâmpago vadio que a posteridade mantém como exemplo intermitente de génio - chega a ‘Os Lusíadas’ para atingir a grandiosidade e o patamar de Virgílio e Homero. E sofre sem limite, escrevendo como um profeta, abandona tudo exceto os precipícios da pobreza e da vida irregular - e parte para África e para a aventura das Índias, é preso (por desvio de fundos), mas nunca esquece a grandeza da pátria, uma companhia de aventureiros que atravessa os mares, desafia os deuses e seduz as ninfas. Faz desta grandeza o problema central de ‘Os Lusíadas’. É o seu mito, e nisso cabe tudo o que transportou para o poema: história, autores do passado, mitologia, violência e derrota. Com ele se compõe a figura extraordinária de um funâmbulo equilibrado sobre os arames do talento, da vagabundagem, do risco de viver, de uma misteriosa erudição que o tornou um grande espírito do seu tempo, da infelicidade como obra de arte, da melancolia e da má sorte.

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Não há epopeia tão lírica (excetuando a ‘Odisseia’) nem poema tão travesso como ‘Os Lusíadas’. Basta lê-lo.

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