O gestor de uma grande fortuna
Alexandre Soares dos Santos, o mais rico de Portugal, gere o grupo Jerónimo Martins como a sua própria casa: com rigor
A nata da sociedade portuguesa sabe que nem vale a pena endereçar convites para eventos sociais à família Soares dos Santos porque esta nunca os aceita. "Não que sejam marginalizados, pois nem sequer permitem isso", diz quem os conhece de perto. É essa, aliás, uma das muitas diferenças que distinguem os proprietários do grupo Jerónimo Martins (distribuição alimentar) de outros milionários do burgo (herdeiros de industriais e banqueiros). Bem relacionados, mas discretos e rigorosos, assim se definem os elementos desta família, liderada pelo homem que agora é o mais rico de Portugal, segundo o ranking da revista ‘Exame'.
Aos 76 anos, e num ano marcado pela crise, Alexandre Soares dos Santos acumula uma fortuna de 2,1 mil milhões de euros, superando Américo Amorim (1,9 mil milhões de euros) e a família Guimarães de Mello (700 milhões). A ascensão foi calma e ponderada. Em 2004, ano da estreia do citado ranking, ‘o dono do Pingo Doce', como é conhecido, possuía uma fortuna de 330 milhões de euros. Oito anos depois, tem seis vezes mais.
ESTILO BRITÂNICO
A imagem imaculada, com fatos de corte tradicional, inspirada nos lordes britânicos, é o cartão de visita do chairman do grupo Jerónimo Martins (JM) e patrono da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), tido como um líder que evita ‘zonas obscuras' e gosta de se fazer ouvir. Homem de direita, religioso, convicto no motor da economia alimentada pela força do trabalho, foi uma das vozes críticas ao ex-primeiro-ministro do PS José Sócrates. Este ano, já com o PSD no governo, foi notícia por ter vendido 56% da JM a uma subsidiária na Holanda e por o seu grupo ter avançado com uma promoção polémica no dia 1 de Maio - quando se esperavam protestos dos trabalhadores - em que ofereceu descontos de 50% nos supermercados Pingo Doce.
Sobre a primeira manobra, Alexandre Soares dos Santos justificou na altura que não se tratava de uma fuga aos impostos mas sim uma forma de suprir a falta de financiamento que afectava Portugal e por ter de gerir o património de uma imensa família. A aposta do homem que sempre afirmou "nunca desistir do País" onde nasceu deu lucros pessoais: na lista dos dez mais ricos, figuram dois familiares próximos, os primos Fernando Figueiredo dos Santos e Maria Isabel Santos, a mulher mais rica do País, com 542,3 milhões de euros.
Já no que respeita à promoção dos 50% - a mais visível das muitas que o grupo tem praticado -, garantiu não ter saído da sua cabeça. Certo é que foi feito um trabalho à Robin dos Bosques, ‘tirando aos ricos para dar aos pobres'. "O grupo diminuiu o investimento nas campanhas publicitárias televisivas para lançar esta promoção. No fundo, tirou aos bolsos de Pinto Balsemão [patrão da SIC] e de Pais do Amaral [da TVI] para oferecer preços baratos aos consumidores", explica um antigo colaborador da JM.
MARCA DO CLÃ
Conhecido por usar o discurso do ‘paternalismo empresarial', Soares dos Santos "olha a empresa como uma grande família, em que é possível haver harmonia entre todos e a figura do patrão é muito próxima da do chefe do clã", nota Álvaro Ferreira, professor de Economia da Universidade Nova.
De facto, Elísio Alexandre Soares dos Santos, de seu nome completo, leva para o grupo JM a gestão que gosta de ter em casa. Passa as férias em família: 15 dias na Quinta do Lago e uma semana no Carnaval com os 18 netos numa estância de esqui na Suíça. Vive entre Lisboa e a Quinta da Parreira, em Ourém, um convento recuperado em cuja capela se casaram alguns dos sete filhos. Comanda de mansinho sem deixar pisar o risco. Escolheu gestores de topo para cimentar a empresa mas, após provas dadas, é o filho Pedro que assume hoje o cargo de administrador-delegado do grupo. O futuro parte agora pelo Mundo. Consolidada a presença em Portugal, fez da internacionalização a chave do negócio: em 2011, a JM gerou um volume de negócios de 9,8 mil milhões de euros, 59% dos quais vêm dos supermercados na Polónia.
No entanto, quem conhece a família diz que essa gestão só é possível com mão de ferro. Os dividendos são distribuídos por todos os elementos. Ninguém vive acima dos seus rendimentos, "não se espatifa dinheiro em casas na Quinta Patiño ou Lamborghinis. Cada um vive com o que tem".
A história desta família confunde-se com as de outros ricos e poderosos, nota a antropóloga Antónia Pedroso de Lima, autora do livro ‘Grandes Famílias, Grandes Empresas'. "Das conversas que tive com Alexandre Soares dos Santos, fiquei com a ideia de alguém muito focado, com a postura, muito geracional, de mostrar que subiu na vida a pulso, começou por baixo e singrou com a força do trabalho. Esse discurso é comum a todos os poderosos da época."
‘NÃO É DOUTOR'
Nasceu no Porto em 1935 numa casa onde as tradições mandavam contrair matrimónio entre pares e repetir nomes de família. O pai, Elísio Alexandre dos Santos casou-se com a prima-irmã Maria da Conceição Soares dos Santos, filha de Francisco Manuel dos Santos, empresário bem-sucedido e em cuja homenagem o neto criou uma fundação. É dessa cepa que vem o património. Francisco começou ajudante de mercearia, tornou--se proprietário dos Grandes Armazéns Reunidos e expandiu o negócio a Lisboa, onde adquiriu a ‘mercearia fina' Jerónimo Martins. A partir de 1938, é o pai do actual chairman quem assume as rédeas. Abre a fábrica de margarinas e óleos FIMA e consolida uma parceria com a multinacional Unilever. Foi nessa empresa que Alexandre Soares dos Santos iniciou a carreira.
Discreto, passou despercebido no Colégio Almeida Garrett, no Porto, escola de padres católicos onde foi aluno interno nos anos em que por lá estudaram Sá Carneiro, falecido líder do PPD, e Pinto da Costa (presidente do FC Porto).
Mário Blanco Peres, 73 anos, reformado da indústria farmacêutica e organizador dos almoços-convívio de antigos alunos, lembra a "cara do Alexandre" dos bancos da escola. "Era mais novo, mas partilhámos o mesmo ensino rigoroso, com grande formação humana. E ele foi pelo menos a um dos encontros que", já adultos, "realizámos em Miranda do Douro. Lembro-me de alguém dizer: ‘está ali o dono do Pingo Doce'".
A ligação ao Norte ficou por aí. Instalada a família em Lisboa, é na capital que Alexandre frequenta o curso de Direito, para cumprir o desejo do pai. Uma reprovação e um convite da Unilever levam-no a mudar de rumo. Rigoroso, ainda hoje não finge ser o que não é. Quando se contacta a JM e, ao bom jeito português, se pergunta pelo dr. Alexandre Soares dos Santos, os funcionários têm instruções para frisar: "Senhor Soares dos Santos, não é doutor."
LÍDER POR DESTINO
A falta da licenciatura não lhe travou o sucesso. A bordo da Unilever, trabalha na Alemanha e na Irlanda. Conta que vendeu margarinas e viveu num quarto arrendado. Mas em 1963 instala-se no Brasil já com o posto de director de Marketing.
Em 1968, estava casado há 11 anos com Maria Teresa Silveira e Castro e a viver "os melhores anos da sua vida", vê-se obrigado a assumir as rédeas da empresa familiar. Conta um amigo que "a morte trágica do pai, vítima de um enfarte fulminante num quarto de hotel no Brasil na noite em que lhe pediu que assumisse a liderança do negócio da família, o fez ver essa missão como um destino traçado".
Alexandre regressa a Portugal em finais dos anos 60. Viviam--se os últimos anos do Estado Novo e ele não se deixa iludir. Quem trabalhou na empresa na época recorda um patrão tolerante, simpatizante do discurso social democrata-cristão, que mantinha o emprego a quem era contra o regime e perseguido pela Pide. Depois de 1974, ultrapassou o período pós-revolucionário com relativa passividade. Ao contrário de outros proprietários, os Soares dos Santos não rumaram ao Brasil, nota Pedroso de Lima. "Na altura não eram conhecidos e por isso também não sofreram tantas represálias." Os colaboradores próximos afirmam, no entanto, que ficar foi uma estratégia de Soares dos Santos, e terá sido essa atitude que permitiu salvar a firma Iglo-Lever, o activo mais importante na época, e lançar mais tarde o grupo que hoje detém .
A imagem de humanista e de grande rigor pessoal, que cimentou na Alemanha, ficou-lhe colada à pele. Na empresa, há a anedota da ‘Alexander time', que vem do seu hábito de chegar um quarto de hora antes da hora marcada. "É uma regra, e nem sequer reage a quem não chega a horas, essas pessoas não entram. Mas não me lembro de situações em que isso tenha acontecido", diz um ex-colaborador.
SALTO PARA O MUNDO
A partir dos anos 1980, Soares dos Santos amplia os negócios e faz crescer a empresa da família. Lança a marca Pingo Doce, coloca o grupo em Bolsa e em 1995 vira-se para o Brasil e a Polónia. Sai do primeiro em 2002 devido aos resultados negativos, mas a aposta no Leste dá frutos: compra a cadeia de minimercados Biedronka, negócio que vale hoje mais do que o português.
Com dois dos sete filhos na administração do grupo, investe na formação dos trabalhadores, um hábito que lhe vem dos tempos na Unilever. Quem trabalha no exterior tem de aprender a língua local, as pós-graduações em finanças são uma obrigação para os gestores de topo e, durante anos, acompanhou as entrevistas de recrutamento.
Sempre que pode, levanta a voz para criticar orientações mais à esquerda. No entanto, ninguém lhe conhece ambições políticas.
"É mais útil em termos de cidadania que os empresários, como qualquer outro cidadão, exprimam as suas opiniões. No caso, acho que é uma voz que ajuda a pensar. O facto de ser agora o homem mais rico de Portugal só premeia uma carreira de sucesso, e isso não deve ser considerado do ponto de vista negativo. O que interessa é o que se faz com os recursos que se tem", nota Álvaro Ferreira.
SOARES DOS SANTOS: "INVESTIMOS 135 MILHÕES"
- Aquando da deslocalização da holding da Jerónimo Martins para a Holanda, justificou que tinha a cargo a gestão do património de uma imensa família. Isso acarreta maior responsabilidade?
Alexandre Soares dos Santos - A holding do grupo Jerónimo Martins mantém a sua sede em Portugal. A Sociedade Francisco Manuel Santos [SFMS], principal accionista do grupo, é que transferiu a sua sede para a Holanda. Importa ainda esclarecer que o grupo Jerónimo Martins não é exactamente uma empresa familiar. É uma sociedade cotada em Bolsa, controlada a 56% por uma sociedade familiar (SFMS). Isto faz uma enorme diferença porque implica a responsabilidade de gerir também capitais de terceiros, sejam eles pessoas singulares ou colectivas. A liderança de uma sociedade familiar, neste caso a SFMS, exige visão de médio e longo prazo, transparência e abertura, e honestidade e fluidez na comunicação.
- O grupo tem crescido internacionalmente. Essa aposta é para manter?
- Sim. Até ao final de 2015, contamos ter 3000 lojas de retalho alimentar na Polónia e estamos a preparar o início das nossas operações na Colômbia.
- Após o 25 de Abril , a família Soares dos Santos foi das poucas que não se mudaram para o Brasil. O que os levou a ficar em Portugal?
- Nunca sentimos a necessidade de deixar o País. As nossas empresas mantiveram a continuidade das suas actividades, não tivemos ocupações nem saneamentos.
- Em 2001, dizia que "já não se justifica investir em Portugal". Essa postura ainda é válida?
- Numa perspectiva estritamente económico-financeira, o retorno ao investimento é comprovadamente mais atractivo noutras geografias. Apesar disso, em 2011 o grupo investiu cerca de 135 milhões de euros em Portugal.
- Como se justifica a subida ao primeiro lugar na lista dos mais ricos num ano de crise? Esse estatuto obriga a mudar o discurso de cidadania que sempre marcou a sua actuação?
- O meu património é quase exclusivamente o conjunto de acções que detenho da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (accionista maioritário de Jerónimo Martins). O valor do meu património varia, por isso, em função da cotação das acções da Jerónimo Martins. Para a cotação das acções, concorrem diversas variáveis importantes, entre as quais destacaria a percepção externa existente sobre o mérito da gestão e dos resultados. A postura de cidadania prende-se com sentido de responsabilidade e não com património ou saldo bancário. Nesse sentido, a minha postura vai manter-se inalterada.
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