“De repente, sentimos que vamos todos no lugar do morto e que, a qualquer momento, podemos ser abatidos a sangue frio”
Vi, ouvi e li, logo não posso ignorar graves e óbvios sintomas de crise. A saber:
1 - Coxo assalta um banco em Odivelas e foge sem ninguém o apanhar;
2 - Belmiro abre a boca para defender os pobres consumidores a contas com o aumento do IVA;
3 - Incompetente armado de pistola de plástico entra por um banco de Mem Martins às 5 da tarde e bate com o nariz no cofre de abertura retardada;
4 - Cavaco puxa pela voz para criticar o Orçamento do Governo PSD/CDS;
5 - Portuguesinhas generosas, com generosos traseiros comprovados por foto, oferecem-se por 20 euros ao domicílio;
6 - Passos faz humor e diz, sem se rir, que tem que ser, é preciso cortar a eito para pagar lá fora o que ainda não recebemos cá dentro;
7 - Universitárias de sorriso aberto, frequentadoras de discotecas às 5 da madrugada, são agora encontradas de cenho carregado, às 8 da manhã, na fila do pão;
8 - Jerónimo publicita que já lá vai um mês que Paulo Portas não presta declaração que se veja durante os primeiros 10 minutos dos jornais televisivos.
Mas sintoma maior da crise lusitana é a resignação do meu amigo Zé dos Pneus, alfacinha filho da Ajuda e pai praticante de não-sei-quantos-filhos, que aceitou ir trabalhar para África: "A minha mulher já faz comida para fora! E eu não tenho outro remédio senão ir fazer filhos para fora..." E ri-se, o desgraçado do optimista!
Vendo bem, este país dá um filme: vive de manhãs submersas, provavelmente a caminho de um imenso adeus. De repente, sentimos que vamos todos no lugar do morto e que, a qualquer momento, podemos ser abatidos a sangue frio por um qualquer Mister Bean que nos joga a feijões.
Vendo melhor, vamos a tempo de reparar que o tipo que nos assalta na rua não tem os olhos inchados da droga, nem sequer pertence ao grupo dos feios, porcos e maus – pode ser um simples chefe de família com os putos a chorar lá em casa.
Revolução por revolução, à rasca por à rasca, cravo por ferradura, acabe-se com o "25 de Abril Sempre", passemos ao "50 de Abril JÁ!". Sempre é a dobrar.
* Durante mais de dois anos, no programa ‘Sala de Imprensa’ da TVI, citei a frase-ideia de um livro do meu amigo (poeta transmontano e jornalista) Eduardo Guerra Carneiro: "Isto anda tudo ligado". Perguntava-se o Eduardo em 1970: "Qual a cor das luzes do futuro?" Podiam ser brilhantes, digo eu, mas gastaram tudo com as luzes da ribalta e a conta está por pagar.
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