Foram-se os atiradores furtivos, ficou a fome e o desemprego. A Bósnia continua a existir para além da guerra. E, quase esquecidos, lá permanecem 250 militares portugueses, que acompanhámos em exclusivo
A imagem do jipe verde oliva faz a criança correr. As pernas curtas enterram-se na neve. O veículo abranda. O pequeno rosto ganha vida num sorriso. Não faço perguntas, que a linguagem universal da mão estendida dispensa dúvidas, mesmo perante o abismo linguístico entre o português e o servo-
-croata da Bósnia-Herzegovina. Espero que o braço camuflado ofereça um qualquer doce. Mas num relance vejo, ao invés, uma garrafa de água e num olhar de interrogativo espanto deixo escapar um “Água?”. “Há muitas famílias sem água corrente e não têm dinheiro para pagar a engarrafada”, a explicação do militar português deixa-me gelado.
Afinal a Bósnia ainda existe. O tema desapareceu da Comunicação Social e, como por magia, os problemas também. Mas as coisas não são assim e sabem-no os militares portugueses que continuam a prestar serviço num teatro de operações já quase esquecido. Estive por lá no fim da guerra, em Janeiro de 1996, numa Sarajevo onde ainda as forças da NATO partiam à caça dos atiradores furtivos e as ruínas contavam histórias frescas de uma guerra que acabara de findar.
Os primeiros militares portugueses a chegar foram os pára-quedistas. Como sempre, a missão foi preparada à pressa e a falta dos chamados ‘stocks de guerra’ – como continuam a faltar - acabou por ser preenchida por uma correria nos mercados de armamento e equipamento; o sistema do ‘desenrasca’ a funcionar em pleno.
Quando chegaram a Rogatica rivalizavam com os locais – sérvios e muçulmanos – na precariedade de condições de vida, os muitos graus negativos do Inverno balcânico a cortarem cerce uma memória histórica feita do ambiente tropical da Guerra do Ultramar. Mesmo assim, os portugueses arranjavam sempre tempo e disposição para apoiar as populações, os batalhões sucedendo-se cada seis meses numa mentalidade de rotina humanitária a par da missão militar – patrulhamentos e controlo das forças militares locais, no âmbito do processo de paz para a região.
AO PÉ DOS ‘MAUS DA FITA’
Depois foi a deslocação para Visoko, por fim para Doboj, acompanhando a reestruturação das forças multinacionais. É ali que agora estão, na brigada multinacional norte, de comando norte-americano, mais de 250 militares portugueses inseridos numa estrutura internacional com 12 mil soldados. Constituem o Agrupamento Alfa, levantado com base no Regimento de Cavalaria 4, da Brigada Mecanizada, e enquadrado no Multinational Battle Group, sob comando do coronel Vila de Brito, com forças eslovenas e polacas.
Na nova disposição coube a Portugal ficar no coração populacional sérvio – os ‘maus da fita’ oficiais na guerra que se seguiu à morte de Tito e à desagregação da Jugoslávia. E o cenário é pouco auspicioso. Respira-se uma paz armada emoldurada por problemas económicos quase insolúveis que acabam por se reflectir nas preocupações dos militares portugueses. “Na nossa zona de responsabilidade, 70 por cento da população está desempregada”, explica o capitão Lorena Ponte, em jeito de exemplo, para a seguir clarificar: “Em alguns pontos, o desemprego chega aos 90 por cento”.
Percebo agora a satisfação da criança ao receber uma simples garrafa de água, a necessidade imediata fazendo-a amadurecer à força, deixando para trás a meninice dos doces e guloseimas. E de que vive a população? Ninguém sabe - ou quer - explicar - mas o relatório internacional da CIA diz qualquer coisa sobre a Bósnia: florescimento do mercado negro, das economias paralelas.
EVITAR FALAR DA GUERRA
Cada patrulha que sai – e elas são diárias, de quatro em quatro horas, de dia ou de noite – tem também uma preocupação de apoio humanitário. “Oh, meu alferes vamos a casa daquela senhora?” O soldado Lopes conduz o jipe no meio do gelo e da neve e a rotina das visitas humanitárias já lhe está no sangue. ‘Aquela senhora’ é uma mulher com 79 anos que vive no meio da serra, numa casa onde não há água nem luz. Tem dois filhos, um está cego, o outro para lá caminha e vive de uma reforma de 35 euros – na moeda europeia. Com regularidade, os portugueses levam-lhe alimentos, água e também assistência médica.
Quando sente os jipes, corre para a rua, um movimento a acompanhar uma algarviada que precisa do apoio de Liliana Boskovic, a intérprete de 25 anos que trabalha com as tropas portuguesas e por isso enverga uma farda camuflada. A idosa – e os seus problemas – foi descoberta por uma patrulha do anterior batalhão de pára-quedistas. “Estamos a poucas centenas de metros da linha de separação. Do outro lado estão os muçulmanos, aqui estão os sérvios.” Uma constatação do capitão Lucena Ponte que explica a regularidade do patrulhamento com as situações mais críticas a serem passadas de batalhão para batalhão. Liliana, a intérprete, conhece bem esta realidade de confronto e tensão: “Claro que tenho amigos muçulmanos”. Mas falam da guerra? “Evitamos”.
E a guerra e as suas consequências estão bem vivas. Durante a noite, uma nova patrulha percorre uma outra zona de Doboj. São duas da madrugada, o frio é cortante (sete graus negativos) e os jipes percorrem numa condução cuidada as estradas geladas, dirigindo-se a uma povoação dividida entre duas comunidades, mais uma vez sérvios e muçulmanos. A escuridão é total; “as casas não têm electricidade e não há iluminação pública”, explica um segundo sargento. Os militares esquadrinham as construções e alguém revela o segredo desta fiscalização: “As populações fugiram daqui durante a guerra e quem cá ficou começou a construir. Foram proibidos para permitir o regresso dos refugiados, mas aproveitam a noite para levantar paredes”.
A patrulha regressa ao aquartelamento de Doboj, cujas condições fizeram esquecer o primeiro ‘quartel’ de Rogatica. Pela manhã, faço as malas para regressar a Portugal. Um garoto ronda a porta de armas. Explica o capitão Lorena da Ponte que “há sempre miúdos aqui à espera que lhes dêem alguma coisa”. Andam numa escola ali perto, uma escola muito original; para lá do espaço do recreio estão campos limitados por avisadoras fitas plásticas. “Ainda há por aqui muitas minas”.
A missão militar multinacional na Bósnia é da responsabilidade da NATO. Ela surgiu na sequência da intervenção armada em 1995, que procurou travar o genocídio conduzido pelos sérvios, que vitimou muçulmanos e croatas. O primeiro nome desta operação foi IFOR - Implementation Force (a que Portugal aderiu), seguindo-se SFOR - Stabilization Force, que implicou a redução de forças no terreno para os actuais 12 mil homens – chegaram a ser quase 30 mil. Este ano, no entanto, o contingente deverá sofrer nova redução para sete mil homens, mas algumas presenças militares, em particular a dos norte-americanos, deverá manter-se. A cidade de Tuzla e o seu aeroporto são pontos fulcrais da presença dos EUA, tanto assim que a Casa Branca arrendou os terrenos por mais 25 anos, o que ilustra bem os objectivos políticos de Washington. A Bósnia, se bem que mantenha alguma paz étnica – foi este um dos motivos da guerra –, continua como um ponto delicado nos Balcãs pela fragilidade governativa e pela debilidade económica. Isto numa altura em que a ajuda financeira internacional poderá sofrer reduções.
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