Patxi Andión, o lendário cantautor espanhol, está de regresso a Portugal e recorda a forte ligação à nossa música e poesia.
Meio século de canções é um bom pretexto para celebrar. Patxi Andión está, por isso, de volta - em disco mas também ao vivo. Os concertos prometem uma "fórmula portuguesa", a mais despida e intimista de todas, a realizar no próximo dia 21, na Aula Magna, em Lisboa, e a 22, na Casa da Música, no Porto.
Vem celebrar com o público português 50 anos de carreira. O que lhes preparou de especial?
Venho apresentar o meu último disco, ‘La Hora Lobicán’ que comemora precisamente os 50 anos da edição do meu primeiro LP, ‘Retratos’. Vai ser a primeira vez que vou apresentar este espetáculo em Portugal e, como costumo dizer, vou recuperar a minha fórmula portuguesa, que adoro: solo absoluto. Será a mais descarnada versão da minha obra, mas também a mais privilegiada, pois dá ao espectador todo o espaço e tempo para se tornar o mais próximo possível do ato criativo.
Precisamente nessa época, nos anos 60 e 70, mantinha uma forte ligação com Zeca Afonso. Era puramente artística, de partilha de ideias políticas ou também uma grande amizade? O que se lembra de Zeca?
Tivemos uma relação de mútua consideração e afeto. Muitas vezes estivemos juntos e falámos de projetos em comum que nunca chegaram a realizar-se. Recordo-me do seu caráter decidido e do seu espírito tranquilo. Era, claro, um homem de ideologias, com uma ideia muito clara e segura sobre o caminho que augurava que fosse seguido.
O que se recorda do Portugal daquele tempo, um País que vivia na ditadura?
Recordo algumas coisas mas não muito, até porque das duas primeiras vezes que vim a Portugal não pude cantar porque fui expulso pela PIDE. Isto quando ainda estava na fronteira, portanto nem sequer cheguei a entrar. Mas era um País diferente de Espanha. Mais qualitativo.
E dos nossos poetas, como Ary dos Santos, com quem chegou a fazer algumas parcerias?
Ary adaptou quatro canções minhas que depois gravou com a Tonicha. Depois disso, consegui lê-lo e apreciar a sua poesia com o grande orgulho de também ter estado dentro dela.
Ary e Zeca inspiraram-no?
Não sei se foi necessariamente inspiração aquilo que me transmitiram, mas foi, seguramente, uma influência muito positiva e frutuosa na minha busca intelectual e poética.
Agora, quando regressa a Portugal, encontra um País muito diferente. Que impressão lhe causa?
Portugal é, sem dúvida, um País do futuro, que conseguiu conservar o melhor de si mesmo e ainda assim construir uma sociedade moderna, culta e preparada para os grandes desafios do futuro. Ainda que pequeno, tornou-se um País enorme.
Meio século de canções é muito tempo. Que balanço faz?
Não há maneira de fazer balanços num espaço temporal tão amplo! De todo este tempo, restaram sensações tão soltas e díspares que é difícil emoldurá-las numa única
ideia. Mas continuo a sensação de que tudo está ainda por vir e que, se me falta algo, só pode ser aquilo que ainda está por chegar. Sempre fui uma pessoa que olha muito para a frente e pouco para o que ficou para trás. A vida de um artista existe apenas dentro da sua própria dinâmica, que é a da criação constante. Sem criação, fica apenas a existência.
Ainda assim, quais considera que foram os momentos altos da sua carreira?
Diria que há dois tipos de momentos altos. A felicidade de chegar e tocar as pessoas, influenciando-as e ajudando-as na sua própria busca, impelindo-as a serem melhores, mas também, numa outra perspetiva, ter conseguido produzir sempre obra artística, cruzando-me com outras pessoas que não influenciei mas que tiveram grande influência em mim, permitindo-me satisfazer as minhas próprias necessidades intelectuais, culturais e emocionais.
O que gostaria de ter feito que ainda não fez?
Ao meu pai sempre ouvi dizer que não valia de nada arrependermo-nos do que fizemos, mas sim do que não foi feito. Aprendi muito depressa que os projetos de vida artística só servem para sabermos que não conseguiram defraudar-nos.
Como começou a fazer música? Vem da infância?
A minha avó era soprano, o meu tio-avô materno (Jacinto Guerrero) era um compositor excecional e renomado de ópera e zarzuela e a minha mãe era uma cantora fantástica. Aprendi música ao lado delas, ao piano, e penso que será por isso que aos 72 anos ainda conservo a minha voz.
Quis sempre ser músico ou quis ser outra coisa?
Sem pretensões nem falso orgulho, sempre quis ser músico até porque sempre achei que era isso que faria melhor. A universidade foi um bálsamo e uma parte importante da minha vida, sobretudo pela formação de caráter.
Há muito anos aprendeu a falar português. Ainda conhece algumas palavras?
Gosto muito de falar português e falo sempre que tenho oportunidade para o fazer. Leio muito e escuto a língua portuguesa quase diariamente. Nos concertos que faço em terras lusas não falo uma única palavra em castelhano.
Qual a palavra portuguesa mais bonita que conhece?
Liberdade.
O que acha que falta ao Mundo para ser um lugar mais bonito?
Creio que nunca teremos um Mundo muito bonito. Há demasiadas desproporções e desigualdades.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.