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“A palavra portuguesa mais bonita é liberdade”

Patxi Andión, o lendário cantautor espanhol, está de regresso a Portugal e recorda a forte ligação à nossa música e poesia.

15 de setembro de 2019 às 13:00

Meio século de canções é um bom pretexto para celebrar. Patxi Andión   está,   por   isso,   de   volta - em   disco   mas   também   ao vivo. Os concertos prometem   uma   "fórmula   portuguesa",   a   mais   despida   e intimista de todas, a realizar   no   próximo   dia   21, na Aula Magna, em Lisboa, e a 22, na Casa da Música, no Porto.

Vem celebrar com o público português 50 anos de carreira. O   que   lhes   preparou de especial?

Venho   apresentar o meu último disco, ‘La Hora Lobicán’ que comemora   precisamente   os   50   anos   da edição do meu primeiro LP, ‘Retratos’. Vai ser a primeira vez que vou   apresentar   este   espetáculo em Portugal e, como costumo dizer, vou recuperar a minha fórmula portuguesa, que adoro: solo absoluto. Será a mais descarnada versão   da   minha   obra,   mas   também a mais privilegiada, pois dá ao espectador todo o espaço e tempo para se tornar o mais próximo possível do ato criativo.

Precisamente nessa época, nos anos 60 e 70, mantinha uma forte ligação com Zeca Afonso. Era puramente artística, de partilha de ideias políticas ou também uma grande amizade? O que se lembra de Zeca?

Tivemos   uma   relação   de   mútua consideração e afeto. Muitas vezes estivemos   juntos   e   falámos   de projetos   em   comum   que   nunca chegaram a realizar-se. Recordo-me do seu caráter decidido e do seu espírito tranquilo.   Era, claro,   um   homem   de   ideologias, com uma ideia muito clara e segura sobre o caminho que augurava que fosse seguido.

O que se recorda do Portugal daquele tempo, um País que vivia na ditadura?

Recordo algumas coisas mas não muito, até porque das duas primeiras vezes que vim a Portugal não pude cantar porque fui expulso   pela   PIDE.   Isto   quando ainda estava na fronteira, portanto nem sequer cheguei a entrar. Mas era um País diferente de Espanha. Mais qualitativo.

E dos nossos poetas, como Ary dos Santos, com quem chegou a fazer algumas parcerias?

Ary   adaptou   quatro   canções minhas que depois gravou com a Tonicha. Depois disso, consegui lê-lo e apreciar a sua poesia com o grande orgulho de também ter estado dentro dela.

Ary e Zeca inspiraram-no?

Não sei se foi necessariamente inspiração aquilo que me transmitiram, mas foi, seguramente, uma influência muito positiva e frutuosa na minha busca intelectual e poética.

Agora, quando regressa a Portugal, encontra um País muito diferente. Que impressão lhe causa?

Portugal é, sem dúvida, um País do futuro, que conseguiu conservar o melhor de si mesmo e ainda assim construir uma sociedade moderna, culta e preparada para os grandes desafios do futuro. Ainda que pequeno, tornou-se um País enorme.

Meio século de canções é muito tempo. Que balanço faz?

Não há maneira de fazer balanços num   espaço temporal tão amplo!   De   todo   este   tempo, restaram sensações tão soltas e díspares que é difícil emoldurá-las numa única

ideia. Mas continuo a sensação de que tudo está ainda por vir e que, se me falta algo, só pode ser aquilo que ainda está por chegar. Sempre fui uma pessoa que olha muito para a frente e pouco para o que ficou para trás. A vida de um artista existe apenas dentro da sua própria dinâmica, que é a da criação constante. Sem criação, fica apenas a existência.

Ainda assim, quais considera que foram os momentos altos da sua carreira?

Diria que há dois tipos de momentos altos. A felicidade de chegar e tocar as pessoas, influenciando-as e ajudando-as na sua própria busca, impelindo-as a serem melhores, mas também, numa outra perspetiva, ter conseguido produzir sempre obra artística, cruzando-me com outras pessoas que não influenciei mas que tiveram   grande   influência   em mim, permitindo-me satisfazer as minhas próprias necessidades intelectuais, culturais e emocionais.

O que gostaria de ter feito que ainda não fez?

Ao meu pai sempre ouvi dizer que   não   valia   de   nada   arrependermo-nos   do   que   fizemos,   mas   sim   do   que   não   foi feito. Aprendi muito depressa que os projetos de vida artística   só   servem   para   sabermos que não conseguiram defraudar-nos.

Como começou a fazer música? Vem da infância?

A   minha   avó   era   soprano,   o meu tio-avô materno (Jacinto Guerrero)   era   um   compositor excecional e renomado de ópera e zarzuela e a minha mãe era uma cantora fantástica. Aprendi música ao lado delas, ao piano, e penso que será por isso que aos   72   anos   ainda   conservo   a minha voz.

Quis   sempre   ser   músico   ou quis ser outra coisa?

Sem pretensões nem falso orgulho, sempre quis ser músico até   porque   sempre   achei   que era isso que faria melhor. A universidade   foi   um   bálsamo   e uma parte importante da minha vida, sobretudo pela formação de caráter.

Há muito anos aprendeu a falar português. Ainda conhece algumas palavras?

Gosto muito de falar português e falo sempre que tenho oportunidade   para   o   fazer.   Leio muito e escuto a língua portuguesa quase diariamente. Nos concertos   que   faço   em   terras lusas não falo uma única palavra em castelhano.

Qual   a   palavra   portuguesa mais bonita que conhece?

Liberdade.

O que acha que falta ao Mundo para ser um lugar mais bonito?

Creio   que   nunca   teremos   um Mundo   muito   bonito.   Há   demasiadas desproporções e desigualdades.

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