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Admiradoras de Harry Potter não têm idade

Sabem que para chegar a ‘Hogwarts’ basta uma vassoura – se for uma ‘firebolt’ melhor ainda, é a mais veloz. Se não estiver à mão, a barreira é fácil de transpor: ‘accio vassoura’ é feitiço convocatório – ela virá na direcção do feiticeiro que o menciona. Mesmo que quisessem entrar na ‘Floresta Proibida’, jamais se atreveriam. É sítio proibido. Eles sabem.

11 de novembro de 2007 às 00:00

Não são feiticeiros mas o universo Harry Potter convocou-os quando leram o primeiro livro. Não conseguiram parar. Desde aí temperam de magia a imaginação.

São adultos mas, por momentos, conseguem acreditar em mágicos, varinhas e vassouras. Em florestas proibidas onde não se pode entrar. Em corujas que trazem recados. Na eterna luta entre o Bem e o Mal.

Maria Isabel Pinto, Javier Ferreira e Paula Serra já passaram dos dezoito anos. Elas há bem mais tempo do que ele: têm de avanço anos de vida para contar. Os três assumem que quando à meia-noite de 15 para 16 de Novembro a tradução para português do sétimo e último livro da saga (‘Harry Potter e os Talismãs da Morte’) for lançado em Portugal a ansiedade não vai ser exclusiva das crianças.

Maria Isabel pregou uma partida ao tempo: não aguentou esperar “tanto”. Uma partida sem varinha.

Uma das filhas – que leu a versão inglesa do livro mal esta chegou a Portugal (no Verão) – foi desvendando a passo parte dos mistérios que o último volume encerra. “Ela vai-me contando a história todos os dias, aos bocadinhos, como uma novela; e já o elegi como o meu preferido, porque é a conclusão e a explicação de tudo o que ficou por dizer nos outros números”, contou a sexagenária. “Aqui percebe-se que tudo faz sentido.” E Maria Isabel não gosta de ficar sem explicação. Era só o que faltava.

Os 64 anos enganam os mais distraídos; a mesma idade que ela revela sem truques de magia na manga. Ou um qualquer elixir da juventude.

A sua casa, em Lisboa, onde os livros de JK Rowling partilham prateleira com o realismo literário de Eça de Queiroz e a pena jornalística de José Rodrigues dos Santos e Rodrigo Guedes de Carvalho, nem é o sítio onde mais páginas desvendam o rumo das histórias.

No comboio sim, as folhas ganham dotes de alta velocidade e acompanham as viagens de Lisboa para Oeiras, onde está durante o dia com a neta Patrícia, de dezassete meses. Quando o calendário deixar para trás o dia 15 o trajecto vai, de novo, parecer mais curto. ‘Harry Potter e os Talismãs da Morte’ vai ser companhia predilecta que nem o facto de já saber da história vai esmorecer. “Mal saia a versão em português vou logo comprar; e quando sair o filme sou das primeiras a ir ver ao cinema”, assume, e o despertar do gosto tem muito de memória. “Os livros do Harry Potter lembram-me os contos de fadas da minha infância e as histórias que o meu avô materno contava à noite a toda a família”.

Há mais. “Nestes livros podemos entusiasmar-nos pela forma como está escrito, mas conseguimos ver muito para além disso porque tudo acaba por se relacionar com a vida real, desde o primeiro volume que a essência da história é a luta do Bem contra o Mal”.

Foi precisamente uma das personagens que inicialmente pertenciam ao lado mais negro – ‘Snape’ – que mais cativou a sexagenária. “Era o inimigo público mas acaba por se provar que não é bem assim.” A surpresa é ingrediente de luxo.

O que não será surpresa para Maria Isabel é que na família todos lhe peçam emprestado o livro depois de ela o comprar. “Saltam de mão em mão, uns compraram um, outros outro”. Agora é a vez dela. Depois talvez o conte às netas, ainda bebés, com o (muito) que ficou na imaginação.

PAULA SERRA

Paula Serra ouviu falar muito do primeiro livro do Harry Potter antes de se decidir a ler.

A professora de educação especial, de 42 anos, pediu-o emprestado a uma amiga numas férias de Verão e rapidamente o tinha acabado, na ânsia de conhecer o segundo volume.

Comprou os seguintes, já não pediu emprestado. Passou a emprestar ela aos amigos que lhe pediam. “Era sempre: ‘despacha-te a ler que a seguir sou eu’.” Leu todos, à excepção do último, que tem a certeza de vir a devorar como os outros.

Só tem pena de já não poder encontrar a sua personagem preferida, o feiticeiro ‘Albus Dumbledore’, nas páginas do sétimo volume – a escritora JK Rowling ‘matou-o’ no penúltimo número –, ‘Harry Potter e o Príncipe Misterioso’.

A única personagem homossexual da história já tinha 115 anos e sucumbiu depois da maldição ‘Avada Kedavra’. “Tive pena, claro; fiz sempre a colagem desta personagem ao Merlim e penso que foi essa associação que me fez simpatizar com a personagem assim”, explica a professora. Então não o matava se fosse a escritora do livro? Paula ri-se. “Sim, talvez não resistisse a matá-lo, mas provavelmente noutro contexto”, graceja, imbuída do universo mágico que sugere a existência de dois mundos paralelos.

O real e o imaginário. Sobre o último livro, não quer saber nem uma linha antes de o ler. “Detestei quando me disseram que o ‘Dumbledore’ ia morrer, e eu ainda não tinha lido essa parte. Perde a piada”. Não toda, assumirá mais tarde.

A magia como elemento do enredo é, para a professora, o segredo do sucesso. E do vício, também. “São livros tão viciantes que o difícil é parar de ler”. Paula compara a saga Potter aos livros da escritora inglesa que imaginou (e materializou em sucesso infanto-juvenil) ‘Os Cinco’ e ‘Os Sete’. “As histórias da Enid Blyton agarraram a minha geração como hoje os livros do Harry Potter agarraram a nova geração”. A nova e as outras. Paula é um exemplo do plural “gerações”.

JAVIER FERREIRA

Também Javier Ferreira. Os 26 anos do militar só conheceram os livros do Harry Potter há dois anos. O conhecimento foi tardio mas a paixão pegou logo fogo. De tal forma que começou no um e só parou no seis, o penúltimo. Já reservou o volume que à hora da Cinderela na próxima sexta-feira promete esgotar num piscar de olhos.

Javier foi mais rápido ao grande ecrã do que pegou nos livros mas uma crítica do irmão mais novo à adaptação para o cinema da obra despertou-lhe a curiosidade para a leitura. “Achei muito mais cativante e detalhado do que o filme, a partir daí foi continuar”, contou. Acordar de manhã passou a ser mais difícil a partir daí, “ficava a ler pela noite dentro, é muito complicado parar de ler, dá vontade de acabar para saber tudo”.

Não sabemos se no quartel alguém terá notado as olheiras do militar mas se isso já aconteceu a partir do dia 16 é fácil voltar a acontecer.

Ansioso de pegar no último volume, que espera ser dos melhores, Javier vai torcendo para que nada aconteça ao trapalhão ‘Ron’, o melhor amigo de Harry Potter. “É uma personagem que puxa bastante para ler, tem umas piadas que às vezes me fazem lembrar eu quando era mais novo”, brinca Javier, que já ouviu dizer que “algumas amizades se desfazem” no final da saga, o que o deixa “muito curioso”. E o trunfo? “As coisas fantásticas que no dia-a- -dia não acontecem”. Pois não.

Se acontecessem, Maria Isabel, Paula e Javier já teriam empunhado a varinha e lançado o feitiço ‘Carpe Retractum’ – que segundo os manuais de ‘Hogwarts’ cria uma corda de luz que puxa alguma coisa até ao feiticeiro. A coisa teria nome de livro, do livro ‘Harry Potter e os Talismãs da Morte’, a tradução portuguesa de um fenómeno que começou há dez anos. Longo. Mas transversal, acima de tudo transversal.

NÚMEROS QUE ILUSTRAM O FENÓMENO

325 milhões de exemplares dos livros do Harry Potter vendidos em todo o Mundo. O número ficou registado no livro de recordes do Guinness.

51% dos leitores entre os 5 e os 17 anos disseram que antes do H.P. não liam livros por diversão. Pesquisa do Kids and Family Reading Report, 2006

foi a posição do primeiro filme da série (’Harry Potter e a Pedra Filosofal’), no ranking de filmes de maior bilheteira de todos os tempos

MAIS 400 produtos adicionais de H.P. (incluindo um IPod) que em Junho de 2005 fizeram a marca Harry Potter ser estimada em 4 mil milhões de dólares.

3000 encomendas de fãs recebidas pela Web-boom.pt que se candidataram a receber o livro em Hogwarts (cenário de H.P.). Só 20 podem ir.

ESCRITORES COMENTAM

LÍDIA JORGE: “Vi um filme e despertou-me para ler o livro. A autora apanhou muito bem o desejo de evasão, a magia e a questão heróica – os miúdos encontram uma zona de equilíbrio que responde aos seus anseios.”

MANO CLAÚDIO: “Li o primeiro livro. É um imaginário de que estou afastado mas compreendo que as crianças, sedentas do maravilhoso que a vida hoje em dia não lhes proporciona, gostem deste universo.”

ALICE VIEIRA: “Muito bem escrito. A autora tem uma criatividade digna de registo. Já li dois livros e ainda tenho os outros para ler, para fazer a vontade à minha neta. Vou ler também o último, por curiosidade.”

"POTTER PORTUGAL": QUATRO JOVENS PORTUGUESES ADMINISTRAM CLUBE DE FÃS NA INTERNET

Daniel, Ricardo, João e Rafael são jovens – têm entre 15 e 17 anos – e nos tempos livres da escola dedicam-se ao site PotterPortugal (potterportugal.blogs.sapo.pt), que surgiu da fusão de dois blogs sobre o universo Harry Potter (HP). Trabalham através da internet e nem todos se conhecem. Daniel é de Guimarães, Ricardo de Sintra e João e Rafael vivem em Tavira.

Uniu-os o gosto comum pela história de JK Rowling. Em jeito de clube de fãs, o site que administram publica regularmente todo o tipo de notícias e curiosidades relacionadas com os livros e os filmes do jovem mágico.

Na página têm um contador que marca os dias, os minutos e os segundos que faltam para sair a tradução do livro para português e estão a mobilizar todos os fãs portugueses para assinarem uma petição que possa trazer a escritora JK Rowling a Portugal. Mas não é tudo: chegam a ensinar como fazer uma varinha igual à da personagem principal e citam tudo o que sai na Imprensa sobre o universo HP. “Com as histórias do HP é como se entrássemos num ‘botão de transporte’ e fôssemos transportados para o próprio universo da personagem, em Hogwarts”, explicaram, admitindo que no dia anterior a cada lançamento nem conseguem dormir.

O PotterPortugal recebe entre 70 a 100 visitas por dia, números que “disparam para o dobro na época natalícia, na Páscoa e na estreia de um livro”, revelam.

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