As latinas conquistam Hollywood. Em comum têm a beleza e o facto de terem nascido todas nos Estados Unidos. E nenhuma precisou de mudar de nome, como Rita Hayworth
No filme ‘Só os Tolos Se Apaixonam/Fools Rush In’, uma comédia de terceira categoria realizada por Andy Tennant em 1997, havia uma cena exemplar: o todo-americano Alex (Mathew Perry), que se apaixonara pela mexicana Isabel (Salma Hayek) durante uma missão profissional numa cidade do Sul dos Estados Unidos, apresenta a namorada aos pais quando, de repente, dá com eles a confundirem-na com uma empregada de limpeza. “Bem, eis aquilo a que eu chamo uma empregada!”, suspira o pai de Alex, excitado com a volúpia da rapariga. Isabel sorri, a meio caminho entre o deliciada e o constrangida. Quando a mãe de Alex decide paternalizá-la, no entanto, o cálice entorna. “Deve ser fácil arranjar ajuda por estas bandas, tendo em conta a proximidade do México. Há tanta gente boa no México...”, diz a velha. Isabel fecha o rosto, vira costas e deixa a sala pela lateral. “Oops, parece que alguém vai ser despedido!...”, reage o pai, divertido - e depois passa-se a outro assunto.
Durante os primeiros anos do cinema, as actrizes latinas tinham três papéis em Hollywood: eram empregadas de pastelaria, objectos exóticos que normalmente cantavam ou dançavam (muitas vezes descalças); eram ‘señoritas’, mulheres responsáveis, de razoável estatura moral e capazes de todos os sacrifícios pela família; ou eram uma espécie de versão étnica de ‘femme fatale’, a tentadora capaz de desencaminhar o americano mais crédulo. Em 1917, a Motion Pictures Patents Company havia decidido que os filmes deveria contribuir para elevar o moral das pessoas, ajudando a educar e a instruir a classe média americana com finais muito felizes — e dessas lições éticas, que de alguma maneira versavam a superioridade dos anglo-saxónicos, acabaram por resultar uma série de antagonismos raciais (contra todos os não-brancos). Só com Rita Hayworth, já nos anos 40-50, as coisas mudaram um pouco: as latinas deixaram de fazer apenas de serventes, trabalhadoras baratas e jardineiras, passando também a fazer de grávidas, de mulheres abusadas, de esposas de traficantes de droga ou de pobres em geral.
Mas Rita Hayworth (1918-1987), a chamada ‘Deusa do Amor’, nasceu Margarita Carmen Casino e apenas ganhou algum destaque ao sexto filme, depois de o marido, Edward Judson, lhe mudar o nome e mandar pintar-lhe o cabelo através da electólise. E, quando Salma Hayek chega ao cinema, proveniente das novelas mexicanas, uma latina com nome latino é ainda uma artista menor, dificilmente reconhecida pelo seu talento. Pode ser a namorada do americano de sucesso, sim, mas é ainda confundida com uma empregada doméstica.
O TÓNICO JENNIFER
Até que, enquanto Salma Hayek faz pela vida, Jennifer Lopez ganha o seu espaço. E, num ápice, tudo muda. Não é que J-Lo tenha deixado de fazer lixo, mas a verdade é que trabalhou com realizadores respeitados como Oliver Stone ou Steven Soderbergh, foi protagonista de filmes de uma só estrela como ‘A Cela/The Cell’ (2000) ou ‘Maid In Manhattan/Encontro em Manhattan’ (2002) e, com ‘Shall We Dance?’ (a distribuir em 2004), já entrou para o restrito clube dos actores que cobram 20 milhões de dólares por um só filme. Mais: foi eleita pela ‘People’ como uma das 50 pessoas mais belas do Mundo em 1997, foi nomeada pela ‘E!’ como um dos 20 principais ‘entertainers’ mundiais em 2001, foi listada pela ‘Première’ como a 76ª pessoa mais poderosa do espectáculo em 2002 e, sobretudo, foi condecorada como a primeira artista a ter, em simultâneo, um filme e um disco no primeiro lugar de cada uma das tabelas — em 2001, com ‘Resistir-lhe É Impossível/The Wedding Planner’ e ‘Love Don’t Cost a Thing’.
Agora, as latinas são uma espécie de obsessão em Hollywood. Não há talvez uma só razão para isso, sendo que poderão ter contribuído para isso a extraordinária beleza de Jennifer Lopez, as paixões despertadas pelo caso Elián Garcia, a forma como foram os cubanos a decidir a eleição de George W. Bush e, eventualmente, uma certa abertura de costumes. Mas o que conta é que, depois de J-Lo, apareceram a belíssima Rosario Dawson (linda em ‘A Última Hora’, de Spike Lee) e a não menos deslumbrante Eva Mendes, que rouba a cena em ‘Velocidade Furiosa’, um filme menor actualmente em cartaz. Mendes foi mesmo considerada pela ‘Esquire’, recentemente, como a mais sensual mulher do mundo. E mesmo Trini Alvarado ou Talisa Soto, que há alguns anos lutavam no cinema de ‘série B’, aparecem a espaços em projectos interessantes.
Entre todas, há vários pontos em comum: são deslumbrantes, são de etnia histânica e, nos casos em que isso ainda não se confirmou, prometem não vencer apenas pelas pernas de ‘femme fatale’ exótica. Mas o mais interessante é que nenhuma nasceu num país hispânico: à excepção do aspecto, são todas profundamente americanas, oriundas dos ‘melting pots’ de Nova Iorque ou de Houston. Quer dizer: têm a beleza das latinas, herdadas dos pais, mas não têm o sotaque difícil nem o cheiro da favela. São sofisticadas, cosmopolitas, e relegam para segundo plano o fenómeno Hayek — essa, sim, mexicana e com sotaque hispânico. E, curiosamente, nenhuma delas precisou já de mudar o nome hispânico para um americano, como Rita Hayworth: só Miriam Soto mudou para Talisa Soto, o que significa, ao contrário, o abandono de um nome judeu em prol de um nome latino.
Nome verdadeiro: Jennifer Lopez.
Data de nascimento: 24 de Julho de 1970.
Local de nascimento: Bronx, NY (EUA).
Origem: filha de porto-riquenhos que se conheceram depois de emigrarem para os Estados Unidos. Começou a ter aulas de canto e dança aos cinco anos e foi descoberta por Rosie Perez, actriz e bailarina que coreografava ‘Living Color’, um programa da cadeia de TV Fox.
Principais filmes: ‘O Comboio do Dinheiro/Money Train’, de Joseph Ruben (1995); ‘Sangue e Vinho/Blood and Wine’, de Bob Rafelson (1996); ‘U-Turn’, de Oliver Stone (1997); ‘A Cela/The Cell’, de Tarsem Singh (2000); ‘Olhos de Anjo/Angel Eyes’, de Luis Mandoki (2001).
Nome verdadeiro: Eva Mendes.
Data de nascimento: 5 de Março de 1978.
Local de nascimento: Houston, Texas (EUA).
Origem: filha de cubanos, nasceu em Houston mas foi criada em Los Angeles e em Miami; explodiu em 2002, no anúncio da American Express que tinha como banda sonora ‘Soak Up The Sun’, de Sheryl Crow.
Principais filmes: ‘Dia de Treino/Training Day’, de Antoine Fuqua (2001); ‘Velocidade Furiosa/2 Fast and 2 Furious’, de John Singleton (2003);
Nome verdadeiro: Rosario Dawson.
Data de nascimento: 9 de Maio de 1979.
Local de nascimento: Manhattan, Nova Iorque (EUA).
Origem: descendente de cubanos, tem também sangue negro, porto-riquenho e irlandês; foi recrutada nas ruas de Nova Iorque, para participar no escatológico ‘Miúdos’..
Principais filmes: ‘Miúdos/Kids’, de Larry Clark (1995); “Homens de Negro II/Men In Black II’, de Barry Sonnenfeld (2002); ‘A Última Hora/25th Hour’, de Spike Lee (2002).
Nome: Miriam Soto.
Data de nascimento: 27 de Março de 1967.
Local de nascimento: Brooklyn, Nova Iorque (EUA).
Origem: filha de porto-riquenhos; cresceu entre Nova Iorque e o Estado de Massachusetts; foi capa da ‘Vogue’, da ‘Glamour’ e da ‘Sports Illustrated’.
Principais filmes: ‘007, Licença Para Matar/Licence to Kill’, de John Glen (1989); ‘Os Reis do Mambo/The Mambo Kings’, de Arne Glimcher (1992); ‘Don Juan De Marco’, de Jeremy Leven (1995); ‘Combate Mortal I, II e II/Mortal Kombat I, II e II”, de Paul WS Andersen (1995) e John R. Leonetti (1997 e 2003).
Nome verdadeiro: Maria de La Trinidad Alvarado.
Data de nascimento: 10 de Janeiro de 1967.
Local de nascimento: Manhattan, Nova Iorque.
Origem: filha de um espanhol e de uma porto-riquenha. Produto da Broadway, começou no cinema aos 12 anos mas só foi repescada em 1990, para contracenar com Bette Midler em ‘Stella’.
Principais filmes: ‘Stella’, de John Erman (1990); ‘As Mulherzinhas/Little Wome
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