A morte de Lydia Barloff, uma das personagens mais carismáticas e misteriosas da noite gay, é o ponto de partida para uma reportagem sobre os transformistas portugueses. Quem são eles? São actores ou prostitutos? Onde actuam? As respostas seguem dentro de momentos
O suicídio do transformista que se popularizou como Lydia Barloff, José Manuel Rosado, a 19 de Junho, na casa dos seus pais, nas proximidades de Lagos, pôs-nos em campo à procura de um sem-número de respostas. Porque pôs termo à vida o carismático actor algarvio de 50 anos? Esta morte será a ponta do icebergue, que revela um estado de depressão colectiva na comunidade homossexual? Quem são, afinal, estes homens, que de noite se transformam em mulheres exuberantes? Quais os principas palcos do transformismo em Portugal? Embarque connosco numa viagem sem preconceitos aos bastidores de um mundo pejado de plumas, lantejoulas, divas de sorrisos largos e muitas vezes de olhar triste.
O grande final
«Esta foi a última grande encenação de Lydia Barloff. A sua morte foi um grand finale à altura dos melhores momentos da sua carreira». As palavras são de Carlos Castro, o mentor das galas anuais de travestis, que já vão na sua 9.a edição. José Manuel Rosado participou em quatro destes espectáculos e era sempre uma das estrelas da parada de transformistas que alegra a noite nos palcos do teatro de São Luís ou no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O seu principal “boneco”, Lydia Barloff, criado há vinte anos, era uma caricatura da mulher levada ao extremo. Tinha medidas, pinturas e gestos exagerados e «um tom burlesco fantástico», comenta o cronista social, que não tem dúvidas: «Havia poucos transformistas do nível do Rosado.»
Estas não parecem ser declarações meramente laudatórias e politicamente correctas. O actor algarvio contava no currículo com um curso no Conservatório Nacional e trabalhou em diversas companhias de teatro. A carreira como transformista contava com shows importantes como A Dança das Bruxas ou Não Há Nada Para Ninguém. Os atributos artísticos chamaram a atenção a Filipe Lá Féria, que o convidou para integrar o elenco da peça Maldita Cocaína e dos espectáculos Grande Noite. O actor era igualmente presença assídua nos programas de entretenimento de João Baião, de quem era amigo.
Embora ninguém saiba explicar os motivos que o levaram a enforcar-se, nenhuma das pessoas com quem falámos esconde que ele era um indivíduo com tendência para depressões profundas. Sempre que isso acontecia, viajava até Marrocos, refugiando-se do resto do mundo algures nas areias do deserto africano. «Era hipocondríaco e não sei se não seria esquizofrénico». Carlos Castro recorda a época em que a Sida surgiu em Portugal e matou muitos dos seus amigos. «Ele andava aterrorizado e tinha muito medo de fazer os testes ao HIV.» A paranóia só teve fim no dia em que teve a confirmação de que não fora infectado pelo vírus.
Quem trabalhou com Rosado, recorda uma pessoa de extremos: «Como colega, era exigente, inflexível e por vezes muito ingrato com os outros, provocando um enorme desgaste em seu redor. Mas era indubitavelmente um bicho de palco», recorda Raul, um transformista que iniciou a sua carreira por insistência do próprio Rosado, depois deste assistir a espectáculos seus. Rosado e Raul tornaram-se amigos e este foi conhecendo todas as facetas do algarvio. «Rosado revelava-se, ora uma pessoa desconfiada, solitária e agressiva, ora um grande conversador, fazendo rir todos os que o rodeavam.»
Raul, que tem a pomposa nomenclatura de Suely Cadillac, contracenou com a excessiva Barloff em O Regresso de Lydia Barloff e Ou Brilhas Tu Ou Estrelo Eu, no início dos anos 80, altura em que a noite gay saía do armário e aquecia a movida alfacinha. «Temos horas infinitas de ensaios, gritos, choros e aperfeiçoamento de cenas». Para Raul, Ruth Bryden (ver caixa) e Barloff foram os maiores ícones do transformismo em Portugal. «Não sei explicar a sua morte. Ela vai permanecer um mistério insondável para a eternidade, até porque ele nem tinha problemas de foro financeiro ou familiar.»
Sozinhos no palco da vida?
A morte de Rosado pode espelhar o estado de espírito colectivo dos transformistas em Portugal? «Há uma certa dose de solidão. Apesar de muitos preconceitos se terem esbatido, principalmente depois do 25 de Abril de 1974, ainda há muitas pessoas que não aceitam o que fazemos. Isso, para muitos de nós é difícl de aceitar.» Miguel, um transformista “especializado” na interpretação e caracterização da cantora Shirley Bassey, e que tem Sylvie Kass como nome de guerra, foi ele próprio alvo de críticas implacáveis de amigos e familiares, quando souberam que enveredara por tão bizarra actividade. «Foi uma batalha solitária que tive de enfrentar de início.»
O seu colega Raul não corrobora desta tese tão pessimista. «Aquele suicídio foi uma excepção. Até porque o Rosado nunca foi posto de parte pelo facto de ser transformista. Pelo contrário, ele estava mais refinado e em plena forma como actor.» Ainda assim, concede que a contínua falta de oportunidades e a discriminação enquanto artistas pode causar mossas no ego. Raul recorda uma conversa recente com um actor conhecido da nossa praça. «Ele disse-me na cara que os transformistas jamais serão actores a sério. Fiquei chocado. Nem o meu curso no Conservatório ou o estágio no Teatro Nacional parecem servir para nada.» E acaba por desabafar: «São poucos os que nos apoiam».
Carlos Castro, que conhece bem este meio artístico mais underground não considera que um caso isolado possa ser indicador de coisa alguma: «O suicídio de Barloff não significa que todos os transformistas em Portugal se encontrem em depressão profunda.»
Sexo forte, sexo fraco
Mas afinal o que é um transformista? «É um actor que escolhe um dos papéis mais difíceis de representar: o de ser aquilo que não é.» A definição na ponta da língua de Miguel/Sylvie Kass não se afasta muito da de Raul/Suely Cadillac: «O nosso espectáculo é a maneira que temos de libertar a mulher que há dentro de nós. É uma capa que usamos e nos seduz».
Antes de iniciarem qualquer show, há um ritual de transformação no camarim que pode durar duas horas. Maquilhagens, batons, bases, brincos, rimels, eye-liners, pestanas postiças são colocadas a preceito na cara. O corpo cobre-se com vestidos vistosos e compridos, que disfarçam os pêlos e o órgão sexual. Os pés calçam-se com sapatos de finos saltos. «Somos ainda mais vaidosos e cuidadosos que qualquer mulher», confessam sem vergonha. Muitos até consideram que são donos de um sexto sentido ainda mais apurado que o do sexo feminino.
Quando terminam os seus números e desce o pano vermelho os dois transformistas com quem falámos regressam ao camarim e à sua verdadeira identidade e dizem adeus à Suely e à Sylvie. Durante o dia são simplesmente o Raul e o Miguel e quem se cruzar com eles na rua nem imagina que horas antes encantavam plateias com plumas, lantejoulas e movimentos efeminados.
Para eles, nem se põe a questão de colocarem seios de silicone ou optarem pela depilação definitiva. «Jamais conseguiria modificar o corpo para me transformar numa coisa que não sou», respondem em uníssono. Até porque se isso lhes acontecesse, o trabalho de duas horas de caracterização passaria «a ser de quinze minutos», como o de uma mulher e deixariam de estar a representar um papel para viver uma outra identidade.
«Um transformista pode ter um grande desejo de ser mulher durante umas horas, mas nunca deixa de ser homem o resto do tempo.» A maioria deles seguem esta filosofia, mas há excepções. À memória surge a figura de Ruth Bryden, o transformista que recorreu a inúmeras cirurgias estéticas para acentuar traços femininos. «Não a considerava uma aberração, mas sempre critiquei a Ruth por ter recorrido ao silicone.» Para Raul, transformismo, sim, transexualismo é que não.
Actor versus prostituto
Uma pergunta deve bailar neste momento pela cabeça do leitor. Afinal, um transformista tem de ser homossexual? «Não necessariamente, mas 90 por cento de nós é gay», responde Raul, sem no entanto, revelar explicitamente as suas preferências sexuais. Uma coisa parece ser certa: «Estes profissionais em nada têm a ver com a mariquice de engate das ruas», adverte-nos Carlos Castro. É aqui que se separam as águas entre transformistas e travestis. «Travesti é um nome com uma carga pejorativa. Ele é simplesmente um homem que se veste de mulher e entra numa onda de prostituição», defende Miguel.
Raul considera que existe «o preconceito, muitas vezes criado pelos excessos da própria comunidade gay, de que o transformista é também prostituto.» Está errado, acrescenta. Mas não nega que possam existir colegas, que se aproveitem desta profissão para vender o seu corpo. «É por essas e por outras que poucos são os que nos reconhecem os dotes de representação.»
A imensa minoria
A reduzida comunidade de transformistas em Portugal actua nos palcos exíguos de discotecas essencialmente dirigidas para um público gay. Em Lisboa, as mais conceituadas são o Trumps e o Finalmente, que há mais de duas décadas que são o escape de uma imensa minoria. Na Costa da Caparica, o Mister Gay é um ponto de referência. No Porto, o Him, o Bys’R’us e o Moínho de Vento são as capelinhas de maior renome. No Algarve, o Boémio, em Portimão, o Dreams e o Q+ em Albufeira têm igualmente espectáculos regulares de transformismo.
«O meio está estagnado. Os locais onde se realizam os shows estão monopolizados. São sempre as mesmas caras», critica Miguel que viaja regularmente entre Lisboa e o Algarve para poder trabalhar com regularidade. Ele é um dos raros transformistas “profissionais” em Portugal. «A nossa indumentária é dispendiosa e não ganhamos assim tanto dinheiro», explica. Daí que seja mais natural encontrar alguém como o Raul que tem outra profissão durante o dia.
Um transformista não tem carteira profissional, não pertence a nenhum sindicato ou ordem e o espírito de classe não é muito acentuado. «Entre nós há muitas picardias», confessa Miguel. «Normalmente criticamos determinada coreografia ou música escolhida, os vestidos ou o estilo que não se adequa à personagem vivida em palco. Mas mesmo com a má-língua acabamos por nos dar todos bem».
A morte de artistas como José Manuel Rosado ou Joaquim Centúrio de Almeida (Ruth Bryden) teve como consequência imediata um certo «decréscimo de qualidade dos espectáculos», opina Raul que dá um conselho aos mais novos que desejem enveredar por esta difícil e muitas vezes ingrata profissão: «Tenham respeito por vocês próprios. Olhem-se ao espelho. Aprendam a maquilhar-se, a vestir e a estar em palco. Não queiram ser maricões vestidos de mulher. Para isso, existe o Carnaval.»
Tanto Miguel como Raul têm uma certa pena que o seu público habitual não seja mais heterogéneo. Só uma vez por ano, nas galas anuais de travestis patrocinadas pela Abraço, ou nas paradas da Gay Pride, realizadas nas ruas de Lisboa e no Porto podem brilhar para uma audiência mais vasta. É então que dão corpo ao sonho cor-de-rosa e se tornam rainhas da noite.
O ícone do transformismo em Portugal nasceu Joaquim Centúrio de Almeida, no seio de uma família modesta de Rio Maior. A pequenez da cidade ribatejana levou-o a emigrar para a capital. Aos 21 anos casou-se com Maria Conceição mas o único fruto da relação seria Rui Miguel.
Dois anos bastaram para os dois perceberem que não eram fadados um para o outro. Maria desapareceu de circulação, e Rui acabou por ser educado por uma ama e na Casa Pia. Joaquim descobre a sua homossexualidade na tropa. Teve várias paixões, mas sentia-se só e é uma pessoa amargurada.
Com o 25 de Abril, vários bares gays abriram as portas. O rapaz de Rio Maior descobriu a sua vocação, arranjando emprego no Scarlatty, como barman e transformista. O seu nome de guerra é Ruth Bryden e tem como colegas de profissão nomes como Bell Dominique, Lydia Barlof e Valéria Vanini. As coisas não corriam sobre rodas, tantando o suicídio várias vezes.
«Os seus espectáculos eram de um grande perfeccionismo», recorda Carlos Castro que escreveu uma biografia sobre Ruth. Allô Allô, A Dança das Bruxas, Nós Somos o Que Somos e Caramela C’est Moi são grandes sucessos de bilheteiras. Na televisão, fez brilharete na telenovela Cinzas e no filme de João Botelho, Aqui na Terra.
Bryden queria ser mulher, não só nos palcos, mas no dia-a-dia. Injectou silicone nos seios e nas ancas, e fez operações ao rosto. Enveredou pelas drogas duras e prostituição e acabou por ser infectado pela doença do século XX: a Sida. Joaquim morreu em 1999, com 47 anos. «Pediu para ir vestida de homem para o caixão, revelando ser uma pessoa cheia de contradições.» Ruth Bryden ainda hoje é considerado o pai do transformismo.
Os 10 transformistas mais famosos
Suelly Cadillac: Um dos melhores actores do meio. Personifica como poucos a essência do sexo feminino.
Antonita Moreno: Especializou-se no burlesco, um pouco na linha de Lydia Barloff.
Silvie Kass: A sua especialidade é imitar a cantora Shirley Bassey, tanto na caracterização como na interpretação.
Valeria Vanini: É uma das veteranas, da geração de Ruth Bryden, Bell Dominique e Lydia Barloff.
Nanni Petrova: Nos seus espectáculos predomina a linguagem brejeira. É uma espécie de voz do povo tripeiro. Um ícone da noite portuense.
Vanda Morelli: Uma das melhores performers e é também do Porto.
Linda Xenon: Uma veterana das noites de Portimão.
Roberta Kinsky: Interpreta o papel de mulher sexy.
Jenny La Rue: É uma mulher "autêntica" e tem peito de silicone, tal como Ruth Bryden.
Nyma: É uma das estrelas das noites do Finalmente.
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