Escrevo sobre ‘Mistérios de Lisboa’ . Eu não vi o filme mas recomendo-o porque não é todos os dias que Camilo está numa sala de cinema
Admito que há uma visão de Camilo Castelo Branco a partir da leitura de Manoel de Oliveira – pessoalmente, penso que ela está mais presente em ‘O Dia do Desespero’, um filme sobre o escritor, do que em ‘Amor de Perdição’, o livro de Camilo em certa medida "transposto" para o cinema. A culpa é de Manoel de Oliveira e de ‘Simão Botelho’. O primeiro, por causa do gosto pela tragédia; o segundo, porque – perdoa-me Camilo, génio entre os génios – lhe falta um tanto de estoicismo e até de inteligência.
Ainda está por tratar a razão por que os apaixonados de Camilo não são lutadores valorosos e dotados de um módico de sabedoria. Vinte anos depois de ter escrito ‘Amor de Perdição’ (que é inútil reduzir a uma guerra dos ‘Capuletos’ de Viseu, um ‘Romeu e Julieta’ das Beiras – o papel de ‘Mariana’ encostaria Shakespeare às cordas), Camilo publica a sua obra-prima, ‘A Brasileira de Prazins’, onde um adoentado ‘José Dias’ deixa ‘Marta’ perder-se nos abismos da infelicidade, já que – honestamente – não podia perder-se nos braços de um labrego torna-viagem.
Se há filme escrito desde o princípio é esse, o da ‘Brasileira’, com escopetas, assassinatos, padres e cónegos, soldadesca, reis falsos, bêbedos trágicos, evocações espirituais, tudo o que cabe num bom romance. Mas o que nos ocupa é ‘Mistérios de Lisboa’, o filme de Raúl Ruiz – o folhetim original de Camilo é anterior a ‘Amor de Perdição’ e, sinceramente, é-lhe superior em trama e mistério.
A OBRA DE RUIZ
O problema é esse: são 4h30 numa sala de cinema, um formato elegante para quem não sofre de sonolência literária – inferiores às sete horas da alegada versão de Manoel de Oliveira, e com a vantagem de ser extirpado de tiradas trágicas que dão vontade de rir às pessoas sensatas, ou de momentos declamatórios.
Camilo é o nosso melhor novelista; por extensão, devia ser uma mina para os nossos telenovelistas, que podiam dedicar-se ao assunto e cultivar-se um pouco, em vez de realizarem operações de ‘copy/paste’ de um mau argumento para outro.
Raúl Ruiz é um especialista em novelas; leu muitas, viu muitas e trabalhou em algumas. Eu não vi ‘Mistérios de Lisboa’, mas recomendo-o porque não é todos os dias que Camilo está numa sala de cinema. Se o tivesse visto, como não sou crítico de cinema, manter-me-ia caladinho.
Ora, ‘Mistérios de Lisboa’ é um quadro romanesco de primeira grandeza, explicitamente inspirado nos ‘Mistérios de Paris’, de Eugène Sue, e onde aparece a figura impressionante do ‘padre Dinis’, um aventureiro modesto com tiques de ‘Tristram Shandy’, o ideal para salvar o protagonista, um pós-adolescente (‘Pedro’) sem família, e a sua rede de medos, perigos e – mais tarde – amores e viagens.
Este filme é a vingança do grande romancista sobre os vindouros, que o maltratam e menorizam. O chileno Raúl Ruiz vinga-o da indiferença dos portugueses que, ou ignoram Camilo, ou o tratam com os cilícios de Manoel de Oliveira. Vou vê-lo a correr.
REALIZADOR
Raúl Ruiz
INTÉRPRETES
Adriano Luz, Maria João Bastos e Ricardo Pereira
Em exibição
CONCERTO: DEAD COMBO
"Terça-feira, um espectáculo a reter – os Dead Combo (com a Royal Orquestra das Caveiras), no São Jorge, vão retomar as melodias de ‘Quando a Alma Não É Pequena’ e ‘Lusitânia Playboys’, dois trabalhos que deveriam estar mais nos nossos ouvidos. Uma música muito especial, quase aprendida com Enio Morricone. Uma das grandes bandas portuguesas que vale a pena ouvir".
Local: Cinema São Jorge, Lisboa
Data: 26/10 (21h30)
CLÁSSICA: ROLF BECK
"O ‘Gloria’ de Vivaldi e o ‘Requiem’ de Fauré são o epicentro de uma grande apresentação: a do maestro Rolf Beck com o Coro e a Orquestra da Fundação Gulbenkian, um alemão que marcou a história da orquestra de Bamberg. Ao longo da sua carreira escolheu um repertório marcado pelas obras corais, de Handel a Beethoven ou Mendelssohn, passando por Brahams ou Bach".
Local: Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, Lisboa
Datas: 28/10 (21h00); 29/10 (19h00)
EXPOSIÇÃO: ‘SE YOU, SEE ME!’
"Portugal está a ser abandonado pelos seus imigrantes. A exposição ‘See You, See Me!’ mostra fotografias das comunidades africanas na Europa, emigradas ou exiladas. O comissário é um professor da Universidade de Nova Iorque, Awam Amkpa – mas o que é essencial é pensar que a Europa é um lugar de acolhimento, de generosidade e de mistura, muito mais do que de multiculturalismo".
Local: Museu da Cidade, Lisboa
Data: até 28/11
FUGIR DE...
TELEVISÃO
"Desligue a televisão por esta semana. Tente viver sem reality shows, as péssimas telenovelas portuguesas, os comentários de futebol, os desfiles de moda, os filmes de domingo à tarde, os magazines sobre o país, os programas da manhã, da tarde, da madrugada, as aparições do primeiro-ministro, os rodapés mal escritos e cheios de erros ortográficos. Passeie, leia livros, oiça discos. E durma mais cedo".
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