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Como se vive das apostas na Internet

Para se viver de apostas desportivas é preciso esquecer preferências clubísticas e estudar a fundo a estatística.
20 de Outubro de 2013 às 15:00
Paulo dá cursos a apostadores e já escreveu dois livros com dicas para apostar na Internet
Paulo dá cursos a apostadores e já escreveu dois livros com dicas para apostar na Internet FOTO: Sérgio Lemos

O ronco do Ferrari Testarossa 355 anuncia a chegada de Paulo Rebelo. A partir daí, o aparato no sítio marcado para a entrevista é inevitável. Uma equipa feminina alemã de natação pede para ser fotografada ao lado do carro, antes de perguntar aos jornalistas se o dono da bomba é uma estrela da bola portuguesa. Paulo Rebelo não é jogador de futebol, mas é apostador profissional do desporto-rei. Sem saberem, as alemãs não se enganaram assim tanto.

O rendimento deste apostador profissional não andará longe daqueles que jogam dentro das quatro linhas. Aliás, quando certo dia fez uma prospeção sobre os salários dos jogadores da liga portuguesa descobriu que ganhava mais em frente ao monitor do que aquele que mais ganhava a marcar golos no relvado. Desde os 23 anos que Paulo Rebelo – hoje com 29 anos – vive das apostas on-line (através da bolsa de apostas Betfair) mas aos doze já depositava o dinheiro que recebia em certificados de aforro para comprar brinquedos. Foi por isso que o filho de uma funcionária pública e de um vendedor, nascido no Porto, naturalmente optou pelo curso de Gestão quando chegou à universidade. Agora divide-se entre a Invicta, Londres e Madrid – onde tem casa própria –, porque as ligas espanhola e inglesa dão mais rentabilidade e assistir aos jogos nos locais onde acontecem é beneficiar de um sinal mais rápido. A fração de segundos que ganha em relação aos apostadores que estão a assistir aos jogos noutros cantos do Mundo permite-lhe mais lucros.

Para trás ficaram oportunidades de trabalho mais certas, mas menos lucrativas. "Fui um dos dez melhores alunos do curso e, tal como os meus colegas, recebi convites para trabalhar em bancos, consultoras, mas nessa altura já nenhuma das empresas conseguia igualar aquilo que eu ganhava. E mesmo que superasse, a verdade é que continuaria a fazer o que faço." E aquilo que faz é mais complexo do que apostar quem ganha ou perde determinado jogo. As variáveis são mais do que o número de pés que chutam a bola nos relvados. O primeiro a marcar, o último a golear, cartões, faltas, cantos e livres – tudo são exemplos de mercados em que é possível apostar, ao segundo.

BOLSAS DE APOSTAS 

Paulo é também trader: alguém que além de apostar pode ‘comprar e vender’ apostas de outros apostadores numa bolsa de apostas (numa casa de apostas só é possível fazer apostas simples). E o que é isto de comprar e vender apostas? "Se apostar contra um acontecimento (o empate, por exemplo) está a comprar uma ação. Quando aposta a favor de um acontecimento (aposto a favor do empate) está a vender uma ação."

Nessa lógica, "o trader ganha dinheiro se conseguir vender mais caro do que aquilo que compra", explica o maior apostador profissional português. "Funciona exatamente da mesma maneira que uma bolsa de ações, como o PSI 20 ou a Euronext."Desta forma é possível ganhar dinheiro independentemente do resultado do jogo – porque aquilo que se faz é movimentar ações. Paulo Rebelo é rico, muito rico, mas não gosta de falar de luxos. Nem do dinheiro que acumula ao final de cada semana – é semanalmente que são geridas as carteiras dos apostadores. Tem mais um Ferrari na garagem além daquele que endoideceu Belém na manhã da entrevista, mas recusa dizer quantos carros – a sua paixão – lhe fazem companhia. "Teria de contar os que tenho nas várias cidades onde moro, mas posso dizer que muitos são clássicos que restaurei." Em cada uma das cidades onde mora lá fora também tem equipas a trabalhar para si. Se numa primeira fase era Paulo que fazia todo o trabalho de pesquisa – a organização estatística de todo o histórico dos jogos dos clubes em questão –, agora essa tarefa está nas mãos de colaboradores fiéis. "Faço questão de estar sempre informado dos mercados, mas o único trabalho que tenho é escolher os jogos que quero acompanhar." À família teve, no início, a dificuldade de explicar que "as apostas não eram uma coisa que se fazia numa cave ilegal. Estava longe da imagem idílica que tinham criado para o meu futuro, e hoje, apesar de perceberem o meu trabalho, ficariam felizes da vida se lhes dissesse que ia trabalhar para um banco". Para tornar mais aceite a profissão que escolheu criou a Associação Nacional de Apostadores Profissionais e fóruns na internet onde a comunidade se junta para trocar opiniões. Para o currículo ficou um jogo memorável em 2011, entre o Bilbau e o Getafe, em que conseguiu 36 mil euros, graças a um canto do Bilbau no último minuto (a probabilidade que era atribuída para o empate neste jogo era 95%, mas Paulo arriscou na vitória do Bilbau). "Não fiz nada para ter este dom, mas nasceu comigo o talento para com base no que aconteceu no passado conseguir prever o futuro. Também é preciso controlo emocional, que me permite não ficar demasiado eufórico quando ganho dinheiro nem deprimido quando perco." Para isso aconselha os iniciados a não apostarem no clube do coração.

"No início apostava naquilo que eu queria que acontecesse e não naquilo que eu achava que ia acontecer. Apostava sempre que o Benfica ia ganhar, mesmo que estivesse a perder por dois golos, tinha sempre a esperança de que desse a volta." Numa primeira fase proibiu-se de o voltar a fazer "até ter maturidade para discernir a emoção da razão. Tive de me convencer que o facto de apostar contra o Benfica não alterava em nada o facto do clube ganhar ou não o jogo".

JOGO DE PORTUGAL 

No quarto de Roberto Teixeira estava tudo pronto para o jogo Portugal-Luxemburgo, às 18h00 de quarta-feira. Saído do emprego na Junta de Freguesia de São João da Talha – onde trabalha no departamento da juventude –, o apostador não demora cinco minutos até abrir a porta do prédio. Os dois monitores (também há um portátil algures) e o ecrã da televisão sintonizam-se para começar aquilo a que chama o seu part-time. Tem 26 anos e começou em 2009 a fazer apostas desportivas.

Seis minutos depois do início do jogo já estava meio milhão de euros a circular na bolsa de apostas. De auscultadores nos ouvidos e microfone direcionado, Roberto vai comunicando com os outros apostadores. O software que permite as apostas tem quadrados com valores em que Roberto vai clicando com segurança e rapidez. Um segundo é tudo para perder ou ganhar e o stress sente-se no quarto a cada pontapé na bola. As transações vão-se sucedendo e o apostador vai tentando a sua sorte à medida que o tempo vai avançando. Aos 26 minutos, o mercado do jogo já movimenta um milhão de euros, "apesar do jogo não ser dos melhores para apostar". A vitória quase certa de Portugal baixou a parada e Roberto decide apostar no mercado dos golos. No final do jogo conseguiu 80 euros. "Neste part-time eu é que decido se quero ou não trabalhar, sabendo que em noventa minutos de jogo consigo ganhar mais do dobro do que ganho no meu trabalho a tempo inteiro. E isto sem apostar muito dinheiro, tenho uma gestão de banca muito rígida", explica Roberto. Ao ordenado de 600 euros na Junta soma outro na ordem dos 800 euros nas apostas. "Tenho sempre 100 euros na minha conta da Betfair e sei que consigo pelo menos uma rentabilidade de 10% num jogo, que é aquilo que nenhum banco me consegue dar em noventa minutos." Além de apostar no futebol, Roberto Teixeira também arrisca a sorte nos dardos, um mercado mais concorrido em Inglaterra.

APOSTADOR DISCRETO

Em Inglaterra vive quase a tempo inteiro Pedro, porque é a liga inglesa que mais lucro lhe dá. "Percebi que não podia estar dependente das resoluções do Governo [o Estado pretende legislar a exploração e a prática de jogos online]. Em Inglaterra está tudo regulamentado. As casas de apostas pagam ao Estado e cobram 5% aos apostadores, um valor que vai aumentando em função dos lucros", explica.

Pedro não revela o apelido porque prefere passar despercebido. É também por isso que esconde os olhos atrás de uns aerodinâmicos óculos escuros. "As pessoas têm dificuldade em perceber a felicidade dos outros" – confessa.

Hoje com 40 anos, Pedro era um treinador sem vencimento num clube alentejano que não tinha verbas para ordenados quando conheceu a história de Paulo Rebelo, em janeiro de 2010. Antes, tinha usado as contra-apostas para pagar algumas contas, mas a história de Paulo mostrou-lhe que era possível ganhar dinheiro independentemente do resultado final do jogo, através da compra e venda de apostas. "Andei a estudar como reduzir o risco e aumentar o dinheiro que punha no mercado – comecei com dois euros. Reduzi o risco quando a probabilidade de haver um golo era maior do que não haver, nomeadamente quando há bolas paradas. Não estamos a apostar que vai haver golo ou não, vamos dizer que há mais ou menos probabilidade de haver golo. É essa variação que nos dá dinheiro. Finalmente conseguia ganhar dinheiro com o futebol, ao fim de seis meses consegui mil euros com aquilo, depois dois mil euros e por aí fora". Daí a explorar o correct score (mercado do resultado justo ou certo) – que tem menor liquidez (menos dinheiro em jogo) mas mais variação de mercado – foi um passo. "Permite-nos ganhar 10 mil ou 100 mil por cento em poucos minutos. Nada depende da sorte ou do azar mas sim de concentração e disciplina." Um jogo São Paulo-Ponte Preta deu-lhe dinheiro para uma viagem com a mulher e os lucros de um Benim-Argélia incentivaram-no a comprar um Porshe. "A minha vida mudou muito, mas o maior luxo é poder ter a minha família sempre comigo e acompanhar o crescimento dos meus filhos, porque sou o patrão de mim próprio e sou eu que defino quando trabalho."

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