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‘Crime e Castigo’: O dilema da moral russa

Em ‘Crime e Castigo’, mais do que em ‘Os Irmãos Karamazov’ ou ‘Notas do Subterrâneo’, Fiódor Dostoiévski (1821-1881) fala de dilemas morais, os que atravessavam a Rússia daquele tempo. Raskolnikov é o lamento por uma geração.

23 de agosto de 2026 às 01:30

O retrato sombrio da São Petersburgo de Rodion Raskolnikov, o personagem central de ‘Crime e Castigo’, é um dos mais marcantes da literatura russa, tirando talvez o retrato do Gulag deixado por Alexander Soljenítsin. A cidade está repleta de doença, crime, imundície, pobreza, multidões revoltadas ou inertes, acossadas, amedrontadas ou condenadas a morrer e a sofrer, amores artificiais, desejo de uma justiça que não chega – num país devorado por igual pobreza e por uma violência crescente e impiedosa. No livro, não existe uma única sequência luminosa. A única brancura é a da neve que há de desfazer-se em lama. O sofrimento, justamente, é a iluminação que nos faz perceber o palco de ‘Crime e Castigo’. Raskolnikov é o sismógrafo desse ambiente de tortura e violência: a sua biografia é aparentemente simples e tem alguma coisa a ver com a do próprio Fiódor Dostoiévski, pelo menos até publicar o romance: uma mistura de transgressão, arrependimento e busca de perdão, além da descida aos infernos para procurar a redenção para a Rússia. Mas Raskolnikov não é apenas atormentado por ter cometido um crime; o seu tormento é o da Rússia inteira, um conflito entre a honra e a tortura interior por vê-la delapidada e pobre. Esse conflito nasce muito antes de ter assassinado Alyona Ivanovna (e a sua irmã Lizaveta), a velha dona de uma casa de penhores, com a teoria de que um homem superior pode ultrapassar os limites da moral e da lei em nome de um bem superior. O móbil é o roubo destinado a praticar o bem – mas Raskolnikov mata por acidente e rouba uma ninharia também por acidente. É um duplo falhado. Daí em diante é um homem atormentado por ter cometido um crime que quer confessar tanto a Porfiry, o polícia que investiga os crimes, como a Sónia (por amor e solenidade). Nem isso consegue com qualidade.

Dostoiévski, que esteve prestes a ser fuzilado e cuja pena foi comutada no último momento por um exílio de quatro anos na Sibéria, pode ser considerado um dos mestres do nacionalismo russo na sua versão mais reacionária e antiliberal. Turgueniev, o autor de ‘Pais e Filhos’, era um adversário do ‘niilismo russo’ – achava que o remédio para a Rússia e a única forma de evitar o clima de violência e ressentimento era a modernização do país, a democracia parlamentar, a abertura a políticas liberais e europeias; mas Dostoiévski achava que a solução passava pela recusa de ambos os caminhos: o niilismo como uma depravação moral – e a abertura à Europa como uma negação da “alma russa”. É estranho num homem que viajou abundantemente pela Europa da época antes de se fixar em São Petersburgo. O seu combate era religioso, como acaba por perceber-se em ‘Os Possessos’ e em ‘Os Irmãos Karamazov’, porque a sua versão do cristianismo encaixava nessa sua demanda de uma ‘solução russa’ para a Rússia. É em ‘Os Irmãos Karamazov’, um livro tremendo e maçador, que Dostoiévski mergulha mais fundo nos abismos da descrença e do seu pessimismo brutal. É essa a razão por que ‘Crime e Castigo’ merece o pódio da sua obra, de um barroco solene e desgraçado. Não admira que Nabokov o detestasse tanto.

“É um grande pecador, isso é verdade”, acrescentou ele quase solenemente, “e o seu pior pecado é estar destruído e traído em vão. Não é assustador que esteja a viver nessa imundície que tanto detesta e, ao mesmo tempo, saber (basta abrir os olhos) que não está a ajudar ninguém com isso, que não está a salvar ninguém de coisa nenhuma?”

TÍTULO: Crime e Castigo | AUTOR: Fiódor Dostoiévski / ANO: 1866 (em folhetim mensal), 1867 (em livro)

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