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Crimes com história: O Adónis assassino

O seu caso permanece um dos casos mais relevantes da criminologia contemporânea. Mais do que um simples assassino em série, revelou a capacidade que certos indivíduos possuem de ocultar a monstruosidade sob a capa do charme social.

07 de junho de 2026 às 01:30

Biografia do criminoso e os seus crimes

Theodore (Ted) Robert Bundy nasceu Theodore Cowell, filho de Eleanor Louise Cowell, num lar para mães solteiras em Vermont, em 1946. Passou os primeiros anos de vida com os avós e a mãe em Filadélfia, acreditando que a mãe era a irmã e os avós eram os pais. Só em 1974 percebeu a mentira. Viveu em Tacoma, Washington, com a mãe que casa em 1950 e muda o nome para Theodore Robert Bundy. Foi um aluno brilhante. Frequentou quatro universidades, em diferentes estados, nomeadamente a Faculdade de Direito, da reputada Universidade Pública de Utah, chegando a ser ativo no Partido Republicano. Sem terminar o curso, começou a trabalhar na Clínica de Crise de Seattle (atendimento em saúde mental e prevenção do suicídio). Bonito, educado e inteligente, surgia aos outros como alguém ajustado e afável. Contudo, esta imagem escondia um dos mais temíveis assassinos em série da história.

As vítimas de Bundy foram maioritariamente mulheres jovens, muitas delas estudantes universitárias com um padrão físico semelhante: cabelo comprido, escuro, e com risco ao meio. O seu ‘modus operandi’ distinguia-se pela sedução e intensa manipulação psicológica e não pela violência imediata. Bundy chegava a simular lesões físicas, utilizando canadianas, ligaduras ou um braço engessado. A dificuldade de transportar livros ou objetos até ao Volkswagen Beetle castanho, em que se deslocava, tristemente famoso, servia para explorar os mecanismos sociais básicos de confiança e solidariedade, levando as vítimas a aproximarem-se. Depois de conquistar a confiança, o ataque ocorria de forma rápida e brutal, com pancadas na cabeça. Depois levava-as para locais isolados, onde as violava e assassinava, geralmente, por estrangulamento.

Com o passar do tempo, a violência tornou-se mais intensa. Bundy deixou de matar para satisfazer impulsos homicidas imediatos. Os crimes começaram a adquirir uma dimensão ritualística. Em vários casos, regressava aos locais onde abandonava os cadáveres para praticar atos de necrofilia e remover partes dos corpos como troféus. O controlo meticuloso das suas ações começou a deteriorar-se. Os ataques tornaram-se mais impulsivos, agressivos e arriscados como aquele em 1978, à residência universitária Chi Omega, na Flórida, onde agrediu várias estudantes na mesma noite. Este episódio demonstrou uma escalada da impulsividade e a perda de sofisticação operacional que caracterizava os seus crimes.

Investigação: virtudes e vicissitudes

Todas as investigações criminais têm aspetos positivos e negativos. Um aspeto particular desta foi a mobilidade geográfica do assassino, que foi de Washington, ao Idaho, à Flórida. A ausência de coordenação eficaz entre departamentos policiais estaduais, à altura dos factos, dificultou a investigação. A troca de informação era limitada, bases de dados centralizadas inexistentes e os padrões criminais demoravam a ser reconhecidos, permitindo que o assassino continuasse a matar sem ser associado aos crimes.

Durante vários anos, os investigadores lidaram com homicídios isolados, sem compreenderem que estavam perante um único predador itinerante. O que veio a marcar avanços significativos na investigação criminal moderna foi o desenvolvimento do ‘profiling criminal’, uma maior valorização da análise comportamental, cooperação interestadual mais eficaz e mais presente, o reconhecimento da importância do ‘modus operandi’ de cada crime e da sua análise global, bem como o desenvolvimento de bases de dados criminais partilhadas por todos os estados. Os investigadores – os polícias – começaram a compreender que determinados homicidas sexuais apresentavam padrões psicológicos, permitindo associar crimes em diferentes estados.

Bundy expôs também graves fragilidades no sistema policial investigatório, que subestimou o suspeito devido à sua aparência, que redundou em excesso de confiança após a captura, levando às graves falhas de segurança que permitiram duas fugas de Bunty, durante as quais continuou a raptar, violar e matar. A própria imagem pública dificultou a identificação: inteligente, educado e atraente, não correspondia ao imaginário social do “monstro criminoso”.

Perfil Psicológico e Criminal

Os especialistas – criminologistas, psicólogos e psiquiatras – que estudaram o caso Bundy, e alguns dos que o avaliaram, identificaram na sua personalidade traços clássicos de psicopatia/sociopatia: ausência de empatia, manipulação instrumental, narcisismo exacerbado, completa frieza emocional, capacidade de mentira patológica e necessidade extrema de controlo. A comunidade científica parece unânime em concordar com um diagnóstico de Perturbação Antissocial de Personalidade em associação ou comorbidade com Perturbação Narcísica de Personalidade. Para alguns, a infância conturbada e a confrontação com a mentira sobre a sua origem, constituem fatores que terão contribuído para o desenvolvimento da personalidade desviante; – ainda que insuficientes para explicar, per se, a trajetória criminosa.

Atuando entre 1973 e 1978, foi detido, pela primeira vez, por agentes da polícia rodoviária por uma infração de trânsito no Utah, em 1975, quando era aluno do terceiro ano de Direito – portanto, um puro acaso. Já teria assassinado várias mulheres. As fugas em pleno julgamento ocorreram a 7 de junho de 1977, numa sessão de julgamento em que era suspeito de assassinar uma mulher. Saltou da janela do segundo andar da biblioteca atrás do tribunal, e foi recapturado pela polícia depois de ter partido uma perna e fugido para as montanhas, onde se escondeu durante seis dias. A outra fuga ocorreu a 30 de dezembro de 1977, quando fez um buraco no teto da prisão e depois de uma dieta rigorosa, escapou. Continuou a violar e a matar durante estas fugas.

Bundy não demonstrava culpa genuína. As suas confissões tardias pareciam motivadas por interesse estratégico relativo ao adiamento da sentença ou comutação da pena. Sentia prazer em assassinar as vítimas, após violá-las e torturá-las e nunca demonstrou remorsos, parecendo antes sentir também prazer em “brincar” com os agentes da autoridade, chegando mesmo a afirmar que “a caçada era pura imaginação, um jogo”.

Durante os julgamentos, Bundy deu muitas entrevistas à comunicação social, em que revelou um forte traço narcísico: necessitava de controlar a perceção pública da sua imagem. Mesmo perante a condenação à morte e o anúncio da data da execução, manteve os comportamentos teatralizados, tentando aparentar superioridade intelectual sobre investigadores, jornalistas e tribunais. O corredor da morte tornou-se para ele uma extensão da sua necessidade de centralidade e protagonismo, mas, também, um ponto de negociação e manipulação. Foi jogando sempre com os ‘media’, bem como com as autoridades, conseguindo na prisão visitas íntimas (proibidas), onde gerou uma filha, nascida em 1981. Casou com a mãe da criança numa sessão de tribunal onde estava a ser julgado pela morte de outras mulheres, aproveitando uma brecha legal, de uma lei antiga, que validava os casamentos que acontecessem em tribunal, com sessão aberta.

Os seus crimes apresentavam componentes sádicas evidentes. A violência sexual, a necrofilia e a conservação de troféus indicavam uma ligação profunda entre prazer, poder e destruição. A fantasia desempenhava um papel central na sua atividade criminosa. Os crimes não eram apenas impulsivos; eram encenações construídas para satisfazer necessidades psicológicas complexas de domínio absoluto sobre as suas vítimas e sobre a sociedade e o medo que procurava incutir socialmente com os seus crimes.

Antes da execução, na cadeira elétrica a 24 de janeiro de 1989 na prisão do estado da Flórida, confessou trinta homicídios cometidos entre 1974 e 1978. Contudo, o número real pode ser substancialmente superior, talvez mais do dobro.

Numa investigação conduzida pelos autores desta crónica e o Prof. Doutor Miguel Faria, através das redes sociais, mostraram-se fotografias não identificadas de Ted Bunty, Charles Manson e Lawrence Kohlberg, quando jovens e um pouco mais velhos. Perguntava-se qual dos três seria um perigoso ‘serial killer’. A maioria, independentemente do género dos respondentes, elegeu Lawrence Kohlberg como perigoso assassino em série, julgando pela aparência apenas (afinal, um pacifista e um dos grandes autores da Psicologia do Desenvolvimento Moral). Em segundo lugar, para o sexo feminino, ficou Charles Manson, e o assassino de mulheres Bunty quase não foi apontado. No sexo masculino, o padrão foi inverso – Bundy foi mais escolhido. O Adónis desta crónica tinha a atratividade que aproximava mulheres e era invejada pelos homens. Ted Bundy revelou a capacidade que certos indivíduos possuem de ocultar a monstruosidade sob uma aparência de normalidade, charme social e beleza física. Bundy foi verdadeiramente o Adónis assassino!

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