Conheceu o conde de Caria na Pousada do Infante, em Sagres. O aristocrata e homem de negócios abriu-lhe as portas da capital. Sousa Cintra aproveitou todas as oportunidades.
Quem o conheceu menino e moço na Raposeira, Algarve, nunca imaginou que ele iria chegar tão longe. É certo que o Zé, como era conhecido, muito novo demonstrou espírito de fura-vidas: ainda andava na escola, metia-se pelos campos de balde enfiado no braço a apanhar caracóis – que vendia de porta em porta. Mas ninguém apostava em como aos 40 anos o filho do casal Cintra, que vivia da pequena agricultura, já seria milionário.
Não enriqueceu a apanhar caracóis. Teve a sorte de trabalhar nas férias escolares na pousada Infante de Sagres – e de ter conhecido D. Manuel, conde de Caria, homem de negócios com interesses nas águas engarrafadas e na hotelaria, que ali costumava passar férias sozinho.
D. Manuel, reconhecido pela simpatia com que era tratado, despediu-se no final do Verão deixando a Sousa Cintra um cartão com a morada e o número de telefone: se o rapaz precisasse de alguma coisa, não hesitasse em procurá-lo em Lisboa. O abençoado cartão abriu a Cintra as portas para uma vida farta.
Teria uns 14 anos quando cismou que havia de ir à capital bater à porta de D. Manuel para ele lhe arranjar emprego conveniente. O pai levou-o à estação de Lagos – e um primo, residente na Margem Sul, foi avisado para o esperar no Barreiro à saída do comboio. Era um sábado. Cintra dormiu nessa noite em casa do primo, que o levou no outro dia, pela tardinha, à morada indicada no cartão de visita que D. Manuel lhe deixara.
O aristocrata achou graça à desenvoltura do rapaz – e arranjou-lhe um emprego. Cintra não deu por mal empregada a maçadora viagem na velha automotora com bancos de madeira. Foi trabalhar como ascensorista no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Sousa Cintra, de farda com botões dourados, barrete e luvas brancas, nunca mais parou de subir...
Quando chegou à idade de cumprir o serviço militar, já travara conhecimento com muita gente de posição. Saiu-lhe em sortes a Marinha de Guerra – e, por influência ou não dos amigos de D. Manuel, foi parar à especialidade de transmissões, mesmo à medida para ser colocado na Estação Radio-naval de Sagres, a escassa meia dúzia de quilómetros da sua Raposeira natal. Enamorou-se de uma professora de Lagos – e do casamento, cumprido o tempo de tropa, nasceu o filho Miguel. O enlace, porém, durou pouco tempo.
Antes do 25 de Abril de 1974, Sousa Cintra torna-se proprietário da companhia das águas do conde de Caria. Mas onde ele começou a ganhar dinheiro que se visse foi no imobiliário: primeiro, como intermediário entre pequenos proprietários na Costa Vicentina e grandes investidores. A revolução arrefeceu o negócio. Mas Sousa Cintra soube adaptar-se aos novos tempos. Milionários donos de terrenos, agora refugiados no Brasil, procuravam desfazer-se de tudo – por qualquer preço. Ele comprava para vender mais tarde.
A par dos negócios imobiliários, alargou o império das águas – e chega às Pedras Salgadas, cuja empresa tinha terrenos e hotéis, que vendeu por 12 milhões de contos, nos finais da década de 90, ao grupo Jerónimo Martins.
Em 1989, Cintra já é uma das maiores fortunas de Portugal. Tem dinheiro – mas o País ainda não o conhece. Atira-se, aos 46 anos, ao cadeirão da presidência do Sporting e, finalmente, torna-se uma figura com grande projecção pública.
UM NEGÓCIO QUE LHE CORREU MAL
Embalado pelo êxito da cerveja Cintra no Brasil, onde a par da fábrica abriu duas cervejarias gigantes no Rio de Janeiro, o empresário abalançou-se numa cervejeira em Portugal. Investiu 75 milhões de euros numa fábrica, à beira da auto-estrada do Norte, na zona de Santarém. Mas o negócio não teve por cá a mesma sorte que conheceu no Brasil: a cervejeira portuguesa nunca escoou a capacidade de produção e, a trabalhar a meio-gás, afogou-se em dívidas. Os 150 trabalhadores temeram o pior. Mas Sousa Cintra vendeu em fábrica, no ano passado, à Iberpartners – de que são accionistas Jorge Armindo, Vasco Pereira Coutinho, Esmeralda Dourado, António Bernardo, a família Amorim e Estela Barbot.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.