Isso é repulsivo, defende a organizadora do debate em que foram discutidas as melhores respostas à "agressão verbal" masculina.
Adriana Lopera estava a passear na rua quando ouviu um homem dizer que "lhe fazia isto e aquilo". Em vez de continuar a caminhar, praticando o velho princípio de que "mulher séria não tem ouvidos", reagiu com um seco e desencorajador "vai passear!"; contudo, a resposta conseguiu surpreendê-la. "Não é para ti, que és muito feia! Era para a que vinha atrás."
A avaliação estética prima por ser muito subjetiva, mas a enfermeira espanhola de 34 anos, residente em Portugal desde 2001, não é feia, embora tenha deixado claro, no debate ‘Engole o teu Piropo', realizado no início da manhã do sábado que encerrou agosto, o quanto dispensa elogios de desconhecidos à sua aparência: "A mulher não pede opinião. É ilegítimo que esta lhe seja imposta."
Depois de notícias sobre o debate terem dado origem a uma enxurrada de críticas nas redes sociais à iniciativa, integrada no programa do Fórum Socialismo 2013 (iniciativa do Bloco de Esquerda), havendo bloquistas entre os que julgavam que a discussão não tinha razão de ser, Adriana teve perto de 40 pessoas - sobretudo mulheres, das idades mais variadas - a ouvi-la, numa sala do Liceu Camões, em Lisboa, onde é muito provável que gerações de alunas tenham ouvido piropos.
A cada pessoa que entrava, a enfermeira - ligada a movimentos como os Precários Inflexíveis ou a Rede 8 de Março - lançou piropos. Ao repórter da Domingo reservou o clássico "a tua mãe deve ser uma ostra para ter cuspido uma pérola como tu", bastante melhor do que o "tanta carne e eu em jejum", que uma das participantes ouvira segundos antes -, destinados a vincar o que está em causa.
Vestida com um top e leggings pretos e uma extravagante saia feita de gravatas, Lopera foi a única oradora de ‘Engole o teu Piropo' - embora no programa também constasse o nome de Elsa Almeida -, descrevendo o "assédio verbal que as mulheres sofrem" como um sinal de machismo a que a sociedade portuguesa reage com muito mais tolerância do que a "agressões verbais racistas ou homofóbicas". Mas também negou uma acusação e uma caricatura feitas nas redes sociais.
A primeira é que a militante bloquista queria legislação específica para criminalizar os piropos e a segunda é que mais ninguém poderia elogiar a beleza da parceira. "Um piropo do namorado não é uma agressão verbal, pois existe uma relação", sublinhou, enquanto o projetor permitia ver a fotografia de uma mulher a ser assediada na rua por um grupo de homens.
RUAS PERIGOSAS
"O homem está muito mais à vontade na rua do que as mulheres", disse a feminista, defendendo que "o espaço público não pertence de forma igual a homens e a mulheres", nem que para isso fosse preciso ‘encarnar' por alguns instantes o tipo de ‘macho latino' que critica: "Já que estão na rua, que é minha, as mulheres que lá passam, que são corpo e carne, também são minhas."
Adriana acredita que os piropos estão sempre relacionados com o desejo sexual masculino, com um "falocentrismo" presente em piropos do calibre de "belas pernas, a que horas abrem?", concluindo que "o medo que existe quando nos agridem verbalmente na rua é o medo da violação, que é um bastião do patriarcado".
E se um desconhecido fizer um piropo? Diz a enfermeira espanhola que "a estratégia feminista opõe-se ao silenciamento", mas também não aconselha que se responda quando não há condições de segurança. Entre 34 mulheres a quem falou do problema no centro de saúde em que faz consultas de planeamento familiar, ouviu de todas que já tinham sido assediadas na rua, mas que seguiram em frente, "pois podia acontecer qualquer coisa". As consequências variaram entre crises de choro, diminuição de autoestima - e cuidados redobrados para evitar decotes e minissaias -, insónias e diminuição de desejo sexual.
VOZ ÀS MULHERES
Terminada a intervenção de Adriana, que distinguiu entre a "resposta individual" de cada mulher e a "resposta coletiva" que envolverá, no fim de semana de 23 e 24 de novembro - véspera do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres -, uma série de iniciativas, seguiram-se histórias das mulheres presentes (houve uma única intervenção masculina, de um homem que, mesmo de camisa e gravata, a caminho do emprego, ouviu de pré-adolescentes sonoros elogios ao seu "ganda rabo").
Ouviu-se um pouco de tudo na sala de aulas do Liceu Camões. Desde a estudante universitária - que trocou o Porto, "onde os homens são um bocadinho mais brutos" por Lisboa - que explicou que não pode "estar chateada 365 dias por ano" com o problema, até à jovem homossexual que relatou como viu homens masturbarem-se ao seu lado, "e não foi uma ou duas vezes", por estar a beijar namoradas.
Outra jovem partilhou com a sala que descobriu "por que razão é que as mulheres vão juntas às casas de banho", dizendo que se sentiu "um naco de carne" em algumas discotecas. E explicou que uma noite de diversão com duas amigas poderia ter acabado muito mal, após ripostar às inopinadas palavras de um transeunte. "Sua fufa de merda, se fosses uma mulher a sério, percebias que era um elogio e agradecias!"
Mesmo que uma das participantes tenha contraposto que os piropos nascem das dificuldades de comunicação que em tempos existiram entre os dois sexos, pelo que "alguns homens poderão ter essa inocência na tentativa de contactar mulheres pelas quais se sentem atraídos", a maioria das intervenções defendeu que, por regra, "o piropo nunca é inocente".
"Posso dizer que nunca ouvi na rua: ‘Tens mesmo cara de quem faz um bolo de iogurte fantástico!...' Se eu quiser poesia erótica, leio-a. Não preciso que me a digam. Ou será que temos de andar com uma etiqueta daquelas a recusar publicidade não endereçada que se põe nas caixas de correio?", perguntou outra mulher.
Provando que as aparências iludem, uma jovem que trocou a portuense Cedofeita pelo lisboeta Arroios garantiu: "Se me dão piropos na rua, geralmente não sou muito educada. Não é nada agradável e já estive quase para andar à pancada." Quem o disse foi Beatriz Wellenkamp Carretas, 20 anos, decerto pacífica se não for importunada por estranhos na avenida Almirante Reis. "Quando cheguei cá, parecia tudo mais leve. Mas é tão agressivo em Lisboa quanto no Porto", frisou a aluna da Escola Superior de Teatro e Cinema.
CRÍTICOS NO FACEBOOK
Encerrado o debate, não sem antes sublinhar que pretende "um Mundo em que a igualdade de género seja uma realidade" e não "em que andemos na rua a piropear os homens", Adriana Lopera estava feliz. "Há um nível de debate muito profundo e hoje aprofundou-se mais. As mulheres falaram das suas experiências, o que é fundamental para compreendermos o que cada uma sente."
Nem as muitas críticas à iniciativa, algumas vindas da esquerda, a fizeram esmorecer. "O tema tira-me o sono? Não. É inventado e não tem qualquer relação com a realidade? Também não. Tem relevância política? Não me parece", escreveu o ex-dirigente Daniel Oliveira, que deixou de ser militante do Bloco de Esquerda em março, no ‘Expresso'. Todavia, foi das redes sociais que vieram mais farpas.
"Quando se fala de agressão verbal, mexe-se num ninho de vespas. Muita gente fica desejosa de falar mal e de alterar o rumo do debate. Houve pessoas que quiseram discutir outra coisa. Mas essas não apareceram. Fico cheia de pena", ironizou a feminista, para quem não seria "de extrema utilidade para o debate termos alguém a dizer: ‘O que vocês querem sei eu!'"
Para a ativista, que começou a interessar-se por temas ligados à igualdade de género ainda em Espanha, com a luta pela interrupção voluntária da gravidez, "o capitalismo e o sistema patriarcal alimentam-se um do outro", perpetuando relações de poder na sociedade "que fazem com que haja seres superiores, que são os homens, e seres considerados inferiores, que são as mulheres".
E não existem agressões verbais, ou piropos, ou como se lhes queira chamar, feitos por mulheres a homens, ou por mulheres a mulheres, ou por homens a homens? "Falei do que é mais comum. Se calhar, hoje em dia, entre as adolescentes, pode ser que isso aconteça de vez em quando. Mas quando há um debate sobre um tema social, concentramo-nos no que é mais comum. É comum ser o homem a agredir, e não é por acaso", diz Adriana.
ATENÇÃO AO ASSÉDIO SEXUAL NAS EMPRESAS
Comprar um automóvel foi a resposta de Cláudia Múrias aos piropos que ouvia na rua. "Foi uma estratégia de menorizar danos, pois o espaço público não é propriamente simpático para as mulheres", disse à Domingo a psicóloga de 37 anos, que contou durante o debate ‘Engole o teu Piropo' como passou a "gastar dinheiro em gasolina e seguros". Ligada à organização feminista UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resistência, Cláudia está particularmente atenta ao problema do assédio sexual nas empresas. "Queremos promover debates com entidades da sociedade civil, para falarmos sobre o que é o assédio, como aparece e como nos podemos proteger", diz.
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