Reviravolta. No início tudo parecia calmo mas de repente o cenário mudou e a guerra chegou terrível, causando dezenas de mortos e feridos.
No dia 25 de Outubro de 1972 parti para a Guiné. A nossa companhia era a ‘Piratas de Guileje’, comandada pelo capitão Abel Quelhas Quintas. Já em Bissau, seguimos para Cumuré e duas semanas mais tarde, numa lancha, para Gadamael, de onde partimos para Guileje. Aqui, de início, tivemos momentos calmos, os dias eram passados em patrulha e eu aproveitava para fazer o pão, que todos comíamos. Mas, com o passar do tempo, tudo piorou.
Certo dia, íamos num caminho perto do quartel, para ir buscar o que comer, quando fomos alvo de uma emboscada. O inimigo começou a disparar tiros e tinha fornilhos – uns buracos onde se colocam os detonadores. Nesse dia morreu um camarada e quatro ficaram feridos. Noutro, estávamos num abrigo subterrâneo, fomos atacados com bombas e o nosso furriel acabou por falecer. Ficámos sem centro de comunicações, porque as antenas foram destruídas, o que nos colocou numa situação complicada, pois não tínhamos possibilidade de contactar ninguém. Noutro momento fomos flagelados com canhões sem recuo e, para que pudéssemos escapar, o nosso capitão Abel Quintas contactou a Força Aérea, que lhe indicou a posição de saída. Ele ficou ferido, atingido por um míssil.
Durante a minha comissão em Guileje-Gadamael assisti a horrores, perdi muitos camaradas em emboscadas e vivi os piores momentos da minha vida quando estivemos 30 dias debaixo de fogo com o coronel Durão. Não conseguíamos descansar, comer, dormir ou mesmo beber água. Éramos obrigados a ir para as valas de água, para fugirmos aos ataques. O pouco que comíamos era debaixo de fogo. Houve dias em que chegaram a morrer à volta de 14 camaradas. Alguns, com a aflição para tentar fugir, atiraram-se ao mar e, como não sabiam nadar, acabaram por morrer afogados. Ainda hoje me recordo frequentemente desta tragédia, que pouco ou nada consegui fazer para evitar pois, como eram muitos, não os consegui tirar a todos da água.
Quando abandonámos Guileje, por ordem do major Coutinho e Lima, seguimos para Gadamael, onde voltámos a viver outro Inferno. Não havia casamatas – abrigos subterrâneos –, apenas valas normais. Os bombardeamentos eram tão intensos que, onde estávamos, ouvíamos as granadas a sair das armas e, passados poucos segundos, caiam em cima de nós. Muitos camaradas ficaram feridos ou morreram, num estado deplorável. Lembro-me de ver alguns com o crânio completamente desfeito. Na enfermaria, os cadáveres eram tantos que o cheiro se tornava, a cada hora que passava, mais insuportável. Durante o dia tínhamos de regar os corpos com creolina para diminuir o odor a putrefacção.
Numa saída com o alferes Branco, que nos mandou emboscar, ouvimos um barulho vindo do mato e atirámo-nos para o chão, percebendo que estávamos na iminência de ser atacados. O alferes foi atingido na cara por uma rajada. A nossa salvação foi a chegada de um grupo de pára-quedistas. Quando chegaram, encontraram quatro corpos: o alferes Branco, o cabo Neves e os soldados Serafim e Anselmo.
No dia 25 de Março de 1973 fomos atacados pelo inimigo, em plena luz do dia, contrariando o que acontecia na maior parte das vezes. Este ataque foi um chamariz, pois o inimigo sabia que uma acção destas teria como consequência o aparecimento da Força Aérea. E surgiu um avião a jacto Fiat G-91. O piloto entrou em contacto com Guileje, via rádio, para receber indicações da distância e da direcção de onde partira o fogo inimigo. Este avião partiu e não voltou a contactar. Passados uns 20 minutos apareceu outra aeronave que constatou que a primeira tinha sido abatida por um míssil.
Entre 31 de Maio e 2 de Junho do mesmo ano caíram umas 700 granadas, provocando baixas nas nossas tropas: cinco mortos e 14 feridos, para além dos enormes danos materiais. Nessa altura foi accionado o reforço das guarnições com tropas pára-quedistas.
Os abrigos estavam superlotados, pois abrigavam a população e as tropas, que tinham dificuldade em chegar às valas. As condições de higiene eram extremamente precárias e o cheiro nauseabundo. Não conseguíamos descansar e a população alimentava-se apenas de ração de combate. Foi uma guerra terrível, a que enfrentei durante a minha comissão.
NAMORADA TINHA 14 ANOS
José Pereira Lopes é natural de Condeixa-a-Nova, distrito de Coimbra, e é oriundo de uma numerosa família de 10 irmãos. Aos 12 anos viu-se obrigado a começar a trabalhar como padeiro, profissão que exerce ainda hoje, para ajudar no sustento da família. Quando partiu para a Guiné deixou ficar em Portugal a namorada, que na altura tinha 14 anos. Hoje, continua casado com a 'namorada' , que esperou por ele, e têm uma filha e duas netas. Fez a recruta em Beja, antes de partir com a Companhia de Cavalaria 8350, ‘Piratas de Guileje’, para a Guiné. n n
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