Estamos preocupados em planear (ou planejar) o futuro sem nos darmos conta de que muitos professores não dominam a língua portuguesa e uma percentagem enorme de licenciados dão erros ortográficos do tamanho de bisontes<br/>
Acordar pode ser maravilhoso. Acordar à beira- -mar, debaixo de um belo dia de sol, sobre a areia fina ou mesmo esparramado numa superfície de látex, com as cortinas semicerradas e os despojos de guerra espalhados pela bruma (não disse Bruna), entre um prato de ostras e D. Pérignon (a garrafa, claro), não tem de encerrar nenhum preconceito. É bom. Ponto final.
Desse acordar estamos conversados. Acordados e de acordo. Entre o consenso e a consensualidade (feita de seda ou algodão) não há mais nada a falar senão em detalhes.
O acordo ortográfico é outra coisa. O acordo gera desacordo e entra na agenda mediática, como se ele fosse realmente importante. Não é. Serve apenas para actualizar a conversa, intrujar a cafeína, frequentar o ‘clube’ da lusofonia, organizar colóquios e seminários, viajar e experimentar os petiscos que, de acordo com as iguarias, podem queimar a língua e alterar a fonética. O acordo gastronómico, com lagosta de águas quentes ou de águas frias e profundas, entre as elites, permite pelo menos as bocas estarem ocupadas. Caladas, às vezes – o que já não é nada mau.
Estarei em permanente desacordo com o acordo de que se fala até se porem de acordo com a ortografia portuguesa.
Estamos a esquecer o essencial. Há ainda, em pleno século XXI, cerca de um milhão de portugueses analfabetos, quando hoje deveríamos estar a falar de ‘analfabetismo informático’, e em pequenas quantidades, face às exigências colocadas pelo Mundo hodierno. No Brasil, são 32 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, mais de 25% da população com mais de 15 anos.
Em África, na África que descobrimos, colonizámos, abandonámos e onde queremos manter o estatuto de novos colonos, até com o medo de perdermos o controlo da língua, não há livros, não há palavras, não há carne, não há peixe, não há legumes, não há vida, mas tem de haver acento circunflexo.
O anacronismo dos tempos coloca-nos neste patamar intumescente e antagónico, num momento em que, cá no burgo, se fala das assimetrias do Ensino e da avaliação dos professores.
Estamos preocupados em planear (ou planejar) o futuro sem nos darmos conta de que muitos professores não dominam a língua portuguesa e uma percentagem enorme de licenciados dão erros ortográficos do tamanho de bisontes.
Acordem, senhores, para a realidade. Deste acordo ninguém me tira. Nem sobre a areia fina da praia.
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