Júlio Pereira ou Pedro Caldeira Cabral são alguns dos músicos que recorrem à arte de Fernando Meireles. Há outros que constróem guitarras portuguesas, ele é o único que faz sanfonas
“Enquanto no estrangeiro me olham como se eu fosse um pequeno tesouro nacional, aqui estão perfeitamente a marimbar-se para o que faço, se existo ou não. As pessoas com responsabilidades governamentais não sabem olhar para os meus instrumentos, percebê-los, compreender a sua importância.” Quem o diz é Fernando Meireles, músico, investigador e artesão, o mais afamado construtor de guitarras portuguesas e o único que se aventurou na arte de recriar um instrumento medieval, a sanfona.
“De todas as tarefas que desempenho a que me dá mais prazer é construir instrumentos. Comecei a fazê-los porque os tocava, mas agora toco-os por os fazer. Se não os tocasse e investigasse, nunca teria atingido o nível que atingi.” Nomes como Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral ou Amadeu Magalhães não abdicam de tocar com peças que possuem a marca de fabrico artesanal deste jovem de idade incerta que nasceu em Penafiel e vive em Coimbra, onde tem um ateliê no edifício da Associação Académica.
“Não tenho qualquer tipo de dificuldade em sobreviver da minha arte. Este 'know how' criei-o sozinho, cresci sem a ajuda de ninguém. A partir do momento em que os meus instrumentos começaram a ser considerados, fui bater à porta das câmaras municipais com uma proposta que visava a criação de uma pequena escola de construção de instrumentos. Infelizmente, isso nunca foi avante.”
Autodidacta, dedica-se à sua arte de forma isolada, pois “não há outra maneira” de se ser músico tradicional em Portugal. “Não existe um ensino com qualidade e os conservatórios de música ignoram totalmente os instrumentos portugueses. Nos concertos que tenho dado no estrangeiro com o meu grupo, os Realejo, acabamos sempre por participar em 'workshops' onde contamos a nossa triste história.” Há revolta nas palavras, vivas e apressadas, conscientes de uma realidade que urge modificar. “Anda toda a gente em busca do lucro fácil, da política de terra queimada, mas isso não tem futuro.”
Padrões ancestrais Meireles deu início à sua arte no final dos anos 80, por mera curiosidade e como tentativa de responder às necessidades de uma nova vaga de músicos com outras exigências que não propriamente o folclore. O artista, então na posse de um cavaquinho que desafinava na escala, desmontou-o com o objectivo de o afinar. “Aquilo correu bem e às tantas a malta começou a fazer-me encomendas. Quando percebi, já estava metido nisto.”
Sem saber contabilizar quantos instrumentos já fez, todos à mão, passa muito tempo a investigar e a construir segundo padrões ancestrais, tendo começado a fazer violinos – “o instrumento mais estudado, nomeadamente no que se refere aos grandes construtores do século XVI, XVII e XVIII”. Há medida que foi criando, foi evoluindo, percebendo melhor falhas e 'nuances', construindo peças únicas.
O segredo, revela ao Domingo Magazine, “está na escolha dos materiais, nas dimensões da caixa de ressonância e no acabamento”. As técnicas são, sem excepção, as antigas, utilizando principalmente os pinhos nórdicos e da Flandres, o pau-santo e o mogno. Curiosamente, a principal característica da construção está na cola, feita à base de gelatina “que mais ninguém usa”, e nos vernizes de resina e de goma laca, particularidades que tornam os instrumentos especiais.
Em Portugal pouca gente usa estes métodos, “essencialmente por serem muito demorados”: “Se quiser envernizar um instrumento com goma laca ou com um verniz desse género preciso de pelo menos 15 dias, enquanto se for à pistola bastam 5 minutos.” Com o tempo e com a evolução do instrumento os vernizes vão cristalizando, transformando-se em valiosas características de ressonância.
Despertar sensibilidades Meireles também cria guitarras portuguesas, bandolins, concertinas, violas toeiras e sanfonas, “instrumento que me dá um prazer muito particular a fazer”. Sendo o único construtor deste instrumento em todo o país, Meireles teme que, no futuro, não haja nenhum artesão apto para dar continuidade à sua arte. “Desde o século XVIII até aos nossos dias ninguém fez sanfonas. No futuro vai seguramente acontecer que ninguém as continue a fazer.” Diz que não inventou nada, que se limitou a pesquisar e a repescar as técnicas ancestrais, mas está convencido que “isso devia ser aproveitado. Num país que atravessa tantas dificuldades, nomeadamente com precariedade de emprego, acho que o meu trabalho representa uma porta aberta para minimizar estes problemas. Digo isso porque no meu ateliê passa muita gente nova que descobre que era isto que gostava de fazer”.
O artista-artesão afirma a sua disponibilidade, “desde que as entidades mostrem interesse nisso”, recordando que, em 1995 e 1996, deu um curso “do qual saíram vários jovens aptos a construir guitarras portuguesas, cavaquinhos e bandolins. Sanfonas é que não, porque é um instrumento bastante complexo para principiantes”.
Não sendo um instrumento com muita visibilidade, as noções sobre ele são escassas. “De qualquer modo, para fazer uma boa sanfona é preciso habilidade e um conhecimento profundo das técnicas de construção e dos materiais. Porque senão o instrumento toca mas desafina. O importante é escolher e aplicar bem os materiais, talhar as peças com perfeição e deixá-lo tão lindo por dentro como por fora.”
Por ano, Fernando Meireles faz, no máximo, seis instrumentos. Os mais valiosos são precisamente as sanfonas que demoram “pelo menos quatro meses a terminar. Os materiais utilizados custam cerca de 750 euros, o que, somando tudo, atingiria os quatro mil euros”. Contudo, “como as pessoas que têm interesse nestas coisas não são muito abonadas”, o valor da venda é bastante inferior.
A primeira sanfona que construiu remonta ao final da década de oitenta. “Quando tinha a ideia esquematizada meti mãos à obra. Os meus amigos, que nunca tinham visto tal instrumento, não percebiam o que eu estava a fazer. Constou até que eu tinha pirado.”
“As minhas guitarras portuguesas são muito consideradas, até porque, de facto, eu faço-as muito bem”, diz, sem modéstia, Fernando Meireles. “O segredo está em ter conseguido encontrar as dimensões correctas da caixa, pois a volumétrica é factor essencial para que este instrumento” - e que exprime de forma mais profunda o sentir português – “soe mais puro”.
Existem duas versões da guitarra portuguesa, a de Lisboa e a de Coimbra, oriundas de duas escolas diferentes, com duas formas de se tocar e técnicas de construção distintas. Meireles não faz guitarras de Lisboa porque as vê como “instrumentos mal dimensionados” e com uma caixa “demasiado grande”: “Um dia, quando fizer uma guitarra de Lisboa, vou mexer na caixa de ressonância para a redimensionar”, explica, acrescentando que a “faria menor e com o mesmo volume em toda a zona da escala”.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.