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Filosofia de vida

‘Memórias de Adriano’ foi publicado pela primeira vez em 1951. A Babel faz agora uma nova reedição da mais bela obra de Marguerite Yourcenar.

15 de agosto de 2010 às 00:00

É uma das grandes novidades literárias. Apesar de não ser uma novidade literária. A Babel, através da sua Ulisseia, reeditou as ‘Memórias de Adriano’, o livro cimeiro de Marguerite Yourcenar que conquistou inimigos e amantes.

Os inimigos repetem a cantilena conhecida: o Adriano de Yourcenar não é o Adriano que governou Roma de 117 a 138 d.C. O jornalista e comentador Paulo Francis, por exemplo, indignava-se sempre com o Adriano de Yourcenar. "Uma fantasia", dizia ele: Yourcenar deixara de fora a brutalidade de Adriano, apresentando um imperador com punhos de renda.

A acusação de Francis, além de exagerada, é irrelevante. Nas ‘Memórias de Adriano’, a brutalidade do imperador também encontra espaço: a excitação da guerra; a exaltação com que os cascos dos cavalos esmagavam os "infantes dácios"; os massacres anti-semitas nas campanhas do Oriente.

Mas mesmo que o lado feroz de Adriano tivesse sido esquecido, a acusação de Paulo Francis continuaria a ser irrelevante: as ‘Memórias de Adriano’ são um exercício de imaginação sobre um velho moribundo que contempla a sua existência terrena. Digo "velho moribundo", e não "imperador moribundo", porque é a própria Yourcenar quem expressa este programa logo na primeira página. Dirigindo-se ao seu filho (adoptivo) Marco Aurélio, escreve Adriano: "É difícil permanecer imperador na presença de um médico e difícil também conservar a qualidade de homem".

ANTEVISÃO

Felizmente, a qualidade que mais persiste nas páginas seguintes é esta última: um homem que antevê a morte; que olha para o passado divisando nele a cartografia de uma vida com o seu cortejo de medos e triunfos; e que procura retirar desse território de memórias alguns ensinamentos humanos, e não apenas "políticos" ou "imperiais".

É desta forma que o Adriano de Yourcenar se transforma em nosso contemporâneo. Quando partilha os prazeres que lentamente o abandonaram – o cavalo; as noites de sono completas; os prazeres da mesa, ou da cama. E quando partilha também impressões sobre os outros homens, alertando, porém, para a natureza ilusória de todo o conhecimento. Se nem todos os livros do mundo contêm neles a sabedoria possível, esta também não se encontra no convívio com a espécie. Dos outros, conheceremos sempre e só aquilo que eles nos permitem.

É uma lição que a própria Yourcenar parece ter aprendido com eloquência: baseando-se em relatos e fontes diversas, que a autora acaba por arrolar no final da obra, o que ficará sempre das suas ‘Memórias’ não é a fidelidade ao Império Romano dos inícios da era presente. É a capacidade poética e até filosófica para erguer uma vida que se vê ao espelho pela última vez. Sem as máscaras do poder, da reverência e, sim, até da brutalidade.

RESUMO

Nos momentos finais da vida, o imperador Adriano dirige-se a Marco Aurélio.

TÍTULO

‘Mémoires d’Hadrien – Suivi de Carnets de Notes de Mémoires d’Hadrien’

Autor

Marguerite Yourcenar

EDITORA

Ulisseia

TRADUÇÃO

Maria Lamas

305 páginas

DVD: ‘CORAÇÃO LOUCO’

"Jeff Bridges é um especialista em naufrágios. Existenciais naufrágios. Como pianista de bar, em ‘Os Fabulosos Irmãos Baker’, Bridges inaugurou o estilo. Que continua agora, como cantor country, em ‘Coração Louco’, o filme que lhe valeu o óscar".

RESUMO

Uma lenda da música country vive afogada no álcool e esmagado pelo seu fracasso. Até ao dia em que conhece Jean.

Título original: ‘Crazy Heart’

Realizador: Scott Cooper

Género: drama

LIVRO: ‘TUDO O QUE SEMPRE QUIS SABER SOBRE A PRIMEIRA REPÚBLICA EM 37 MIL PALAVRAS’

"Este é um ensaio notável. Sim, houve mediocridade, violência, recusa do sufrágio universal, etc. Mas também houve uma semente que depois de 1974 seria retomada e melhorada".

RESUMO

Ensaio sobre os factos e a herança deixada.

Autor: Luís Salgado de Matos

Editora: ICS – Imprensa de Ciências Sociais

179 páginas

DVD: ‘UM LUGAR PARA VIVER’

"Sam Mendes é o exemplo do realizador nulo: os seus filmes podiam ter sido feito por um outro Mendes qualquer. Por isso, é um milagre ver o seu último filme onde consegue o equilíbrio perfeito entre a ternura e a ironia no território da conjugalidade".

RESUMO

Viagem de Burt e Verona pelos EUA e pelo Canadá em busca de uma casa.

Título original: ‘Away We Go’

Realizador: Sam Mendes

FUGIR DE:

‘A ORIGEM’

"Sazonalmente, Hollywood encontra o seu génio salvador. Já foi David Fincher. Agora parece que é Christopher Nolan, um realizador estimável (lembrar ‘Memento’) que em ‘A Origem’ oferece um cocktail cansativo de pirotecnia técnica com pretensiosismo filosófico".

RESUMO

Uma quadrilha que rouba os segredos do subconsciente tem missão inversa: implantar uma "decisão" empresarial autodestrutiva.

Título original: ‘Inception’

Realizador: Christopher Nolan

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