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GERAÇÃO COCKTAIL

Quem são e o que usam os modernos consumidores de drogas? A nova geração herdou os hábitos sociais do ecstasy, mas tem à disposição um mercado mais vasto de substâncias. Em Lisboa, já é possível encontrar GHB ou Ketamina. De olhos bem abertos, viagem por uma cidade que não dorme

14 de novembro de 2004 às 00:00

Quando as turbinas de refrigeração do Kremlin são ligadas, a tribo agita-se e atira os braços ao ar como se estivesse a saudar a chegada dos ventos alísios. São quase oito da manhã e ninguém arreda pé, muito pelo contrário, os corpos agitam-se mais à medida que a música sobe para o ‘set’ final, cabelos molhados e gestos mecânicos, uma enorme ânsia de não desperdiçar os últimos cartuxos, de gastar todas as energias. Fim.

Cá fora, o sol sobe no rio e a luz bate cruelmente nos cabelos pintados, nos músculos esticados em t-shirts justas, nas pupilas dilatadas e nas conversas desarticuladas. Fuma-se um charro: “É preciso baixar um bocado, tomar o antídoto”, explica o Jorge, 27 anos, óculos escuros e boné na cabeça, “o corpo é como as máquinas, depois da alta combustão, temos de arrefecer e carregar baterias para podermos continuar”.

Para ele ainda é cedo. Odeia domingos e não dispensa a noite-dia em que transforma o fim-de-semana, desde que descobriu uma poção mágica para a felicidade breve. Brinca: “Com quatro letrinhas apenas se escreve a palavra MDMA, que é das drogas sintéticas a mais fixe que há”.

MDMA (um dos compostos do ecstasy), GHB (ecstasy líquido), Ketamina (anestésico psicadélico). O mercado das drogas duras tradicionais está em renovação e, na noite lisboeta, começa a ser fácil descobrir as substâncias de alienação que estão na moda em cidades europeias de referência como Londres e Amesterdão. E se a heroína está finalmente a cair em desuso, os já velhinhos cocaína e ecstasy (há 20 anos em Portugal) continuam a receber a preferência dos consumidores. Ainda assim, é inequívoco que os padrões estão a mudar, adaptando-se subtilmente a um conceito de lazer em que a fuga é para a frente e quanto mais rápida melhor.

A nova geração de consumidores de drogas não tem um género tipificado e é composta por uma população que se diz ocasional porque só as usa ao fim-de-semana. Outra das características destes novos adictos é o policonsumo, traduzido no uso, em simultâneo, de várias substâncias. Como o Jorge e os dois amigos que começaram a noite com haxixe e álcool, aos quais somaram cocaína e MDMA pela madrugada fora, num ‘cocktail’ de sensações que ainda não deram por acabado: “Agora vamos tomar o pequeno-almoço e depois logo se vê”.

JOGO DO RATO E DO GATO

Bairro Alto, noite de sábado. Andamos há duas horas à procura do Tatú e já corremos vários bares. Cruzamo-nos com pessoas que também querem encontrá-lo, mas ‘o homem tá difícil’. “Antes do Verão não era necessário este número de ‘onde está o Wally?, mas a bófia resolveu fazer uma limpeza no peixe miúdo e engavetou bué dealers de rua.”

Encostado ao balcão com os olhos pregados na porta, Jorge emborca um ‘shot’ de vodka e assume com ar grave o papel de cicerone, exibindo vastos conhecimentos daquilo a que chama o mundo da noite: “Usaram a velha técnica do agente infiltrado. Uns gajos à paisana nas esquinas onde os putos ‘dealavam’, eles convencidos de que não contavam para nada e pronto... de repente já lá estavam dentro, caçados com todo o tipo de cenas. Havia de tudo – recorda nostálgico – da tradicional ganza, coca ou ecstasy, a coisas mais recentes”.

Pede mais um ‘shot’ e prepara-se para desvendar o seu manual alquímico, de que fazem parte substâncias como GHB, Ketamina, MDMA, cogumelos mágicos, ácidos, poppers e speed, quando entra Tatú, o dom Sebastião da noite. Mostra-se, cumprimenta algumas pessoas, pede uma imperial e torna a sair com o barrete enterrado na cabeça, um sorriso enigmático. Jorge sai atrás dele e volta para dizer que só há clássicos: ecstasy, cocaína e MDMA. Depois, recolhe o dinheiro e regressa meia hora mais tarde, a rir-se e a suspirar de alívio. “A noite está safa”, anuncia, propondo uma ida colectiva à casa de banho.

Enquanto distribui pequenos riscos de pó branco pela capa da agenda vai tecendo considerações sobre o mercado que tão bem conhece: “É assim. Metem cinco ou seis dentro, os outros assustam-se e vão arrefecer para fora durante algum tempo, mas há sempre quem ocupe o lugar. Há seis meses eu não conhecia este gajo”. E parece ser esta a ordem natural das coisas. Saem uns entram outros.

Ainda assim há progressos no combate ao tráfico. De acordo com dados recentes da Direcção Geral de Investigação de Tráfico de Estupefacientes da Polícia Judiciária, a quantidade de droga apreendida em Portugal aumentou quase 500 por cento nos últimos cinco anos, tendo por referência o anterior quinquénio de 1995-1999. E de entre os estupefacientes confiscados, o ecstasy foi o mais detectado com um aumento de quantidade da ordem dos 1500 por cento.

Aliás, a par do haxixe, que continua a ser a substância mais traficada no nosso país (nestes cinco anos, a polícia evitou que chegassem ao mercado 90 toneladas), o ecstasy foi a outra droga na qual se registou um acréscimo das apreensões, tendo havido uma diminuição no que diz respeito à heroína e à cocaína.

Certo é que as polícias estão a colher os primeiros frutos de uma estratégia proposta em 2001, no Plano de Acção Nacional de Luta Contra a Droga e a Toxicodependência, segundo a qual um dos objectivos prioritários consistia em: “Contrariar a difusão e tráfico das novas drogas sintéticas, que constituem previsivelmente a grande ameaça das próximas décadas”. Em cinco anos foram resgatados pela polícia e impedidos de chegar ao mercado cerca de 600 mil comprimidos de ecstasy e seus derivados.

NAÇÃO ZOMBIE

No Op Art, o cubo de vidro mais ‘in’ da cidade, junto às águas apressadas do Tejo, são cinco da manhã e a pista começa a aquecer para a nação que percorre os circuitos noctívagos da cidade. “Já não existem tribos”, resume a Kátia com os olhos azuis muito abertos e os cabelos suados colados ao pescoço. “Agora vê-se gente de toda a espécies e feitio misturada nos sítios porque as pessoas gostam das mesmas drogas e das mesmas músicas, sejam betos de fato e gravata ou artistas alternativos.”

Põe-se a apontar com o dedo, sem parar de dançar: “Aquele ali é publicitário; aquele não sei, mas é giro; a miúda ao lado dele trabalha na Zara e tem uns 20 aninhos; a dos cabelos lisos estuda psicologia; eu sou engenheira ambiental”. Encolhe os ombros, assumindo que sem um “empurrãozinho químico” talvez não fosse provável o ‘show’ quase erótico que a empregada da Zara e o publicitário interpretam casualmente no centro da pista, mexendo-se à velocidade supersónica da música.

Kátia gosta de ver actuar os Expander e foi por isso que saiu de casa. Veio direita ao Op Art com uma amiga e duas ideias fixas: tomar um ecstasy e dançar com liberdade primitiva as novas vagas da música electrónica. Não toma outras drogas, não bebe álcool, tem “uma vida normal”, um emprego institucional, e estas escapadelas nem sequer acontecem mais do que uma vez por mês: “Para mim isto funciona como tónico contra o stresse... deixo-me ir, descomprimo, liberto-me de todas as energias, incluindo as más, e fico pronta para outra”. Agarra no copo com sumo de ananás, paga e desaparece no meio da massa compacta de gente que, tal como ela, exorciza o quotidiano na pista de dança com a ajuda de poções energéticas.

Nestes ambientes e a esta hora, talvez Kátia possa considerar-se uma excepção, enquanto Jorge e os amigos são exemplos do consumidor-tipo. Estão lá fora, junto ao rio, a fumar ganzas, a beber cerveja e a fazerem planos para comprar mais droga: “O que houver, onde houver”, dizem sem rodeios.

O fenómeno do policonsumo é cada vez mais comum. Ainda assim, diz o Relatório Anual 2003, sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependência, que os cocktails são consumidos “de forma pontual” e associados ao lazer e à festa. “Entre estes cocktails, destacam-se a associação de ecstasy, cocaína e ácidos, bem como a combinação de anfetaminas, ecstasy e cocaína.”

Já agora fique também a saber que o haxixe “surge como a substância com maiores possibilidades de associação com outras substâncias”, ao passo que o álcool “aparece com maior frequência ligado à cocaína, aos drunfos e ao haxixe”.

A caminho do Kremlin num táxi vertiginoso, Jorge reassume o papel de cicerone para explicar que, numa festa ‘trance’, por exemplo, as pessoas também misturam drogas, embora procurem outro género de estímulos: “Se estiveres num lugar mágico, perto da natureza e tomares um ácido ou uns cogumelos, a tua energia é completamente diferente, mais serena, como se fizesse parte do ritual da festa”.

As drogas a que chama urbanas, como o MDMA, o ecstasy e o GHB são sintéticas, o que significa que são totalmente fabricadas em laboratório: “Há pessoas que só trabalham nisto, tentando descobrir novos desenhos para as cenas.” Jorge refere-se aos muitos laboratórios caseiros existentes por essa Europa fora onde trabalham os alquimistas da nova era.

“As diferentes composições dão sensações diferentes, por isso há pastilhas (ecstasy) tipo Ferrari que te fazem ter resistência e picas energéticos e pastilhas tipo Love que te fazem distribuir paz e amor.” Com os ácidos, uma das múltiplas designações para o também já velhinho LSD, passa-se a mesma coisa, a cada nome corresponde um desenho mental. Jorge lembra--se do último que tomou há cerca de um ano: “Chamava-se ‘Chapeleiro Louco’ e passei a noite toda a fazer de bobo da corte, como se tivesse borracha nos pés”.

O PRINCÍPIO DO FIM

Nove da manhã. Depois de um sumo concentrado de frutas numa pastelaria madrugadora, Jorge e os amigos, a quem se juntaram duas raparigas, decidem ir até ao Garage “ver como param as modas”. Uma das miúdas, 22 anos e o ar estremunhado de quem não sabe muito bem de que terra é, jura a pés juntos que hoje é dia de DJ Gilvaia.

Vamos a pé. Pelo caminho, Vanda, assim se chama a rapariga, explica que está no segundo ano de marketing e que os fins-de-semana são para ela outra vida. Não tem medo e não acredita em histórias da carochinha: “Basta não perder totalmente o controlo. Essas reportagens sobre drogas que deitam nos copos para violar raparigas até podem ser verdade, porque toda a gente sabe que o GHB misturado com álcool pode dar para ficar ninfo”.

Essa é uma das razões por que não bebe. Também não fuma charros. No entanto, a sua resistência tem limites e há 15 dias sucumbiu à tentação do desconhecido: “Experimentei Keta”. E então?: “Foi esquisito”, responde Vanda, “queria mexer-me e o corpo não respondia”.

Para Jorge a experiência também não foi das melhores: “Estava sentado à mesa e acabei a falar com a cara colada ao tampo”. Paulo, um dos fiéis companheiros desta noite de viagens, foi mais feliz: “Curti bué, estive uns 20 minutos deitado no chão com espasmos e alucinações”.

À porta do Garage algumas pessoas esperam pelo início do ‘after-hours’ para entrarem. Jorge e o seu grupo assentam arraiais debaixo da escada rolante de Alcântara, e esperam também: “pode ser que apareça aí algum maluco com umas cenas fixes”. Caso isso aconteça podem continuar a maratona de dança até ao fim da tarde: “Tudo depende da sorte, isto é uma roleta russa”.

K: A DROGA DAS VIAGENS

A Ketamina, K ou keta, cujos efeitos duram cerca de uma hora, pode produzir sensações de não pertença ao corpo, entorpecimento, alucinações profundas, visão em túnel, dificuldade em controlar movimentos e sentimentos, distorção do sentido de tempo e de identidade, sensação de distorção do corpo, experiência próxima da morte, amnésia ou delírio. Para além disso, podem ainda ocorrer vómitos, náuseas, diarreia, baixa de temperatura, deterioração da função motora, coma e problemas respiratórios mortais. Apesar de rara, começa a aparecer sob a forma de pó branco, líquido ou tablete.

ECSTASY: A DROGA DO AMOR

Droga de recreio ou desenho, o ecstasy tem acção alucinogénea, psicadélica e estimulante. Normalmente tem a forma de comprimido e pode apresentar diversos aspectos, de acordo com a sua composição. Existem outras drogas de desenho derivadas do ecstasy das quais a mais popular é o MDMA. Diz-se que esta substância pode combinar os efeitos da cannabis (aumento da sensibilidade sensorial), com os das anfetaminas (excitação e agitação) e ainda com os do álcool (desinibição e sociabilidade). Para além disso, pode oferecer uma forte sensação de amor ao próximo, de vontade de contacto físico e sexual. O ecstasy é a droga da moda, com um aumento de consumo regular nos últimos tempos, uma vez que ainda é vista como droga ‘limpa’ ao contrário da heroína, por exemplo. É vulgar os consumidores sentirem-se exaustos, deprimidos e paranóicos nos dias seguintes ao uso o que, em alguns casos, leva a novo consumo para contrariar estes efeitos perniciosos.

GHB: A DROGA DANÇANTE

O Gama-Hidroxybutyrate, no calão GHB, ou ecstasy líquido, é um químico depressor com acção psicadélica. É vendido em pequenas garrafas sob a forma de líquido um pouco mais espesso do que a água, incolor, inodoro e um pouco salgado. Quando consumido em pequenas dose, os efeitos são semelhantes aos do álcool ou do ecstasy. O indivíduo pode sentir mais energia, sensação de bem-estar, euforia, relaxamento, aumento da confiança, desinibição, sensualidade, tonturas ou abrandamento do ritmo cardíaco.

O GHB tem feito uma reaparição em grande nos últimos tempos associado às culturas de dança, dado que, embora possa aumentar a libido, o ecstasy prejudica funções como a erecção, enquanto que o GHB não tem esse efeito. Além disso, a ressaca é menor. Consumidores de GHB descrevem os efeitos como muito semelhantes ao do álcool e do ecstasy, com um aumento muito grande da vontade de fazer sexo, daí que esta substância seja descrita como a ‘droga da violação’.

Esta utilização não é muito clara, embora possa ser possível. Alguns estudos feitos na Holanda chegaram à conclusão de que as situações relatadas como violação estariam mais associadas ao aumento da libido do que à violação propriamente dita.

Em Portugal a substância começa a ser utilizada, e é de prever um aumento nos próximos tempos, já que tem sido alvo da atenção dos meios de comunicação social.

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