Fazem queixinhas, divagam e transformam pormenores em grandes problemas.
A ideia luminosa foi anunciada em jeito de ‘descobrimos a pólvora’ no grupo de WhatsApp - a famosa aplicação de mensagens instantâneas - que juntava pais e mães das três salas de um jardim de infância de uma escola de Lisboa. "Houve umas mães que quiseram fazer um tratamento para os piolhos em conjunto com todas as salas de jardim de infância, cada uma com 20 a 25 meninos. Ou seja, queriam obrigar mais de 60 pais a fazer um tratamento em conjunto a mais de 60 miúdos", recorda Mariana, mãe de uma criança de cinco anos, que ainda hoje ignora se a ideia dessas mães era pôr todos os miúdos de quarentena até se dar a erradicação total da bicharada ou garantir que usavam todos o mesmo champô. Adiante...
"Explicámos que era impossível fazer tratamento a tantas crianças em conjunto, mas ainda houve três ou quatro que insistiram e disseram que não levássemos a mal, mas que iam dizer aos filhos para não darem abraços aos amiguinhos para não voltarem a apanhar piolhos."
A sorte - se é que se pode chamar sorte ao fenómeno em causa - é que nos grupos de WhatsApp, sejam eles de pais ou de antigos alunos do curso de Economia e Gestão de 1968 - a comunicação é intensa e os assuntos aparecem e desaparecem à velocidade da luz - por isso, aquilo que ontem foi assunto, amanhã deixa de o ser, ultrapassado por um qualquer debate muito mais ‘interessante’ para os pais que não querem perder pitada e que correm a olhar para o ecrã do telemóvel de cada vez que se inicia o imparável caudal sonoro típico desta aplicação que a uns deixa eufóricos e a outros enervados ("Mas esta gente não tem mais nada que fazer em vez de andar aqui?...").
Se tem filhos em idade escolar, muito provavelmente fará parte de um grupo de WhatsApp juntamente com todos os outros pais e mães da turma/sala dos seus filhos. Por ali os adultos comunicam quando há doenças, convidam para as festas de anos dos miúdos e pela mesma via recebem resposta, improvisam boleias e partilham fotos dos desfiles de Carnaval ou festas de final do ano. Mas também se desentendem. Amuam. Instigam à rebelião quando alguma coisa na escola não lhes agrada. Atiram ‘bocas’ uns aos outros quando não concordam com o que um ou outro disse e a maioria está na fila da frente para ser considerado o pai ou a mãe do ano: a que faz os trabalhos manuais executados na perfeição, o que tem o filho mais inteligente, os que eram incapazes de deixar o filho com tosse na escola para poderem ir trabalhar.
"O meu filho partiu a perna e ficou uns dois dias em casa e de resto foi para a escola de muletas. Uma das mães perguntou como ele estava e eu mencionei que estava bem, mas que estava cansado porque não tinha experiência com as muletas e eu cansada porque tinha de o carregar pelas escadas. E a mesma pessoa disse-me que não fazia sentido eu tê-lo mandado para escola porque as crianças deviam estar em primeiro lugar e não o trabalho. Fiquei sentida... Mandei-o para a escola não para eu trabalhar, mas sim para ele não perder matéria e já tinha falado com a professora e ela concordou comigo", partilha Filipa, que ainda aguentou os dois primeiros anos do ensino básico no grupo de WhatsApp dos pais da turma dos filho, agora com dez anos, mas não aguentou e acabou por sair.
"Eu tive muito bate-boca porque havia/há mães ‘perfeitas’. O grupo servia para podermos estar atualizados em relação aos miúdos. A última gota foi ter perguntado afinal a que horas era a tal atividade e uma delas ter-me respondido assim: ‘Se fores à mala do teu filho e vires o caderno, o recado está lá colado! Qual é a dúvida?’ Eu tirei foto ao caderno, cujo último recado era de outra coisa, e mandei para o grupo, dizendo que a professora devia ter dado o recado na altura que o meu filho estava na fisioterapia. Agradeci e saí. Já não era a primeira vez e então cansei-me de ser rotulada injustamente de burra. Antes disso havia quem começasse a picar para irmos fazer reclamações contra o pessoal responsável pelo tempo no refeitório porque não queriam que elas ralhassem com os filhos por não comerem tudo", continua Filipa.
Não foi a única que saiu do grupo. "Uma mãe sofria imenso com o facto de o filho ser um agressor e fazer ‘bullying’. Era divorciada e não falava com o pai da criança. Na semana em que ele estava com o pai era mais agressivo e todo o mundo ia para o WhatsApp chamar a atenção e algumas mães eram mesmo brutas a falar com ela... Eu sempre defendi que era um assunto para se resolver pessoalmente e não na internet, mas essa mãe também abandonou o grupo."
"Muitas vezes as conversas nestes grupos não correm bem porque as pessoas estão a conversar, na maior parte das vezes, com pessoas que não conhecem. Se a comunicação face a face não é fácil, uma comunicação com pessoas desconhecidas usando a linguagem escrita muitas vezes é mal interpretada", admite a psicóloga Adriana Campos, que desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do Padrão da Légua, em Matosinhos. "Conheço um pai que tem o filho lá na escola, onde ele também trabalha, e dizia-me muitas vezes ‘dentro do que eu vou observando, nada de especial se passa aqui, mas tudo chega ao grupo de uma forma ampliada e distorcida e parece que estão a acontecer coisas com alguma gravidade e com algum motivo de preocupação’. Ele que estava dentro do espaço escolar tinha uma perspetiva completamente diferente de outros pais que não estavam dentro da escola e que trocavam mensagens entre si como se a qualquer momento uma calamidade estivesse para acontecer", continua a especialista, alertando para outro risco: "Aquilo que os pais reportam é aquilo que os miúdos lhes dizem. Porque quando não há uma filtragem, quando determinada situação não passou pelo diretor de turma, por exemplo, pode haver distorção, porque, naturalmente, as crianças contam as coisas que acontecem em função da forma como olham para os problemas e não da realidade."
"Mas há alguém que consiga fazer um trabalho decente? Ou só contratam anormais para trabalhar nas escolas?"; "Mandava o senhor diretor fazer uma coisa que eu cá sei, mas que não vou dizer aqui"; "As personagens preferem manter os erros a assumir que erraram"; "Por mim juntávamos os miúdos de todas as turmas e era entregá-los na central sindical dos sindicatos que fazem greve. Uma manifestação de pais e alunos frente à sede da UGT ou CGTP"; "Bom dia a todos, a coordenadora da escola tem a mesma postura do diretor do agrupamento, não recebe os pais nem responde a ninguém. As auxiliares da escola são poucas e com uma postura de conflito quer no trato com as crianças quer com os pais" - todas estas mensagens constam de um grupo de pais do concelho de Sintra, de alunos que hoje frequentam a primeira classe mas que já partilham sala, amigos e... pais no WhatsApp desde o jardim de infância. Numa escola a 50 quilómetros de distância, o que animou não há muito tempo o grupo de WhatsApp dos encarregados de educação de uma turma do 3º ano do ensino básico foi o engano de um pai, que enviou para o grupo da escola um vídeo de ‘striptease’ que, com toda a certeza, queria partilhar num outro grupo e não com os pais dos amigos dos filhos. "Um outro pai, assim que reparou que o vídeo não era próprio, entrou em contacto privado e pediu para retirar, o que ele fez de imediato", conta Francisco sobre o incidente caricato.
Numa outra escola, a confusão foi diferente: "Uma mãe disse no grupo que no dia seguinte a professora de Educação Física ia faltar e então nenhuma das crianças foi à aula. Resultado: a professora foi e os miúdos levaram todos falta", partilha Sofia.
Notícias falsas e rumores
O fenómeno não é um exclusivo nacional – não há muito tempo, o jornal brasileiro ‘O Globo’ perguntava: ‘Como sobreviver aos grupos de pais no WhatsApp?’ e avançava que 77 por cento dos incidentes escolares envolvem aquela aplicação. O britânico ‘Financial Times’ também falou sobre o assunto e citou a diretora de uma escola em Londres que diz que passa mais tempo a desconstruir notícias falsas - ou desinformação - espalhadas pelos grupos de WhatsApp do que a tratar dos assuntos relacionados com os alunos. A diferença entre os grupos de WhatsApp e as fofocas de recreio é que os primeiros fazem os professores sentirem-se sob constante vigilância, o que aumenta os níveis de stress destes profissionais. Em Manchester, num destes grupos, os pais chegaram a espalhar rumores sobre a vida sexual dos professores, o que levou a escola a ter de agir.
"Sou educadora e estou num grupo de WhatsApp com os pais, onde coloco fotografias das atividades que fazemos, conquistas dos miúdos, por aí. Neste grupo existe uma mãe, também educadora mas que não está a exercer, que adora questionar tudo o que faço, em tom de gozo, dar sugestões de como seria ela a fazer, os pais fazem-me perguntas a mim e ela é que responde por mim", conta Maria, uma educadora do Norte do País, que tenta todos os dias levar a ‘disputa’ com ligeireza para não se incomodar.
Ana Luísa, funcionária de uma escola, confirma o caos que um simples grupo no telemóvel pode causar: "Um problema mínimo toma proporções gigantescas e a maioria das vezes sem fundamento. Assim como a maioria dos problemas entre alunos também resulta de discussões via WhatsApp", conta.
"Acho que estes grupos podem ter também um lado positivo se forem salvaguardados os riscos, mas há um aspeto que até pode parecer positivo e que não é bem assim: a famosa questão entre os pais que é perguntar pelos trabalhos de casa. Há sempre alguém que tem a resposta e isto também vem diminuir a capacidade de responsabilização dos miúdos, parece prático que os pais se consigam desta forma inteirar do trabalho dos filhos, mas na verdade isso só faz com que os pais estejam sempre a fazer a tarefa dos filhos, até aqui, quando o objetivo é trabalhar a responsabilidade. Eles deveriam ser cada vez mais responsabilizados e aqui há a desresponsabilização", acrescenta a psicóloga Adriana Campos. "Os alunos cada vez são mais bebés, os pais andam sempre em cima, a resolver os problemas todos e eles acabam por ter a vida mais facilitada, porque não têm de se preocupar com nada". Para a psicóloga educacional, a solução seria estes grupos terem uma espécie de gestor, que moderasse as conversas entre os pais, evitando que estas descambassem.
Nota: o nome de todas as mães e pais é fictício por temerem represálias. Os pais também conseguem ser muito vingativos no WhatsApp.
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