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GUERRA AO FAST FOOD

O filme ‘Super Size Me’, que estreou esta semana em Portugal, é o mais recente de uma série de ataques às cadeias de ‘fast food’. E reacende a discussão sobre o que andamos a comer. Os portugueses estão a engordar, mas também têm culpa: o maior perigo da McDonald’s é o abuso.

24 de outubro de 2004 às 00:00

Assim que se empurra a porta de vidro, somos imediatamente invadidos pelo cheiro quente da comida rápida. Passam poucos minutos das 14 horas, mas no restaurante McDonald’s, em Alvalade, servem-se menus Big Mac a um ritmo alucinante. As novas Salads Plus é que ainda não convenceram os tradicionais consumidores de ‘fast food’, que só saem dali satisfeitos com uma refeição à base de hambúrguer, batatas fritas e refrigerante.

Convenientemente localizado ao pé do Liceu D. Rainha Leonor, em Lisboa, o espaço é temporariamente transformado numa cantina de escola com o aproximar da hora de almoço.

Com idades entre os 16 e os 18 anos, a maioria dos jovens confessa preferir gastar mais alguns euros no McDonald’s do que comer um prato de almôndegas com puré no refeitório do liceu.

Célia Santos, 17 anos, não se cansa de fazer o percurso escola-McDonald’s duas a três vezes por semana. “Aqui come-se bem e é relativamente barato”, admite a estudante, com alguns quilinhos a mais. Olha gulosa para as fotografias apelativas por cima do balcão e faz o seu pedido: “Um menu McChicken”. Entrega umas moedas, poucas, e passado algum tempo recebe um tabuleiro de plástico com um hambúrguer embrulhado em papel colorido, uma embalagem média de batatas fritas e um copo de Coca-Cola.

“A vantagem do McDonald’s é que a comida sabe sempre ao mesmo”, revela Célia, enquanto trinca uma batata estaladiça, e se dirige com passos apressados para ao pé do seu grupo de amigos, já instalados numa mesa. “Tenho de ir já comer, senão a comida fica fria e perde a graça.”

A experiência de comprar ‘fast food’ já se tornou num hábito tão rotineiro, que ninguém perde tempo a pensar nas suas consequências. Nas últimas três décadas, as cadeias de comida rápida infiltraram-se em todos os recantos da sociedade.

Uma indústria que começou com uma mão-cheia de modestas barracas de cachorros quentes e hambúrgueres na Califórnia do Sul, conseguiu estender-se a toda a nação, vendendo uma larga variedade de alimentos, onde quer que haja clientes esfomeados e dispostos a pagar.

O ‘fast food’ é hoje vendido em restaurantes, estádios de futebol, aeroportos, escolas primárias e secundárias, universidades, centros comerciais, bombas de gasolina e até em hospitais.

Um crescimento veloz, tal como provam os números: em 1970, os americanos gastaram mais de 6 mil milhões de euros em comida rápida; em 2001 a despesa ultrapassou os 110 mil milhões.

“Gasta-se mais em ‘fast food’ do que em educação superior, computadores pessoais, ou carros novos. Gasta-se mais em ‘fast food’ do que em cinema, livros, revistas, jornais e discos - tudo junto”, escreveu o jornalista Eric Schlosser, autor do polémico livro ‘O Império do Fast Food’, publicado em Portugal pela Quetzal Editores.

Três anos antes de Morgan Spurlock ficar conhecido por atacar forte e feio a McDonald’s, o correspondente da conceituada revista ‘Atlantic Monthly’, já havia feito o mesmo, e não apenas contra a empresa dos arcos dourados. Schlosser investigou a fundo o universo da comida rápida, a forma como a indústria mudou o estilo de vida norte-americano e, aos poucos, está a alterar a número de cintura do resto do mundo.

“A pressão contínua dos anúncios de ‘fast food’, cheios de hambúrgueres grossos e suculentos e de longas batatas fritas douradas, raramente menciona de onde é que este tipo de comida vem e que ingredientes contém”, escreveu o repórter. O livro fez perder o apetite a alguns, mas não teve o mesmo impacto do filme ‘Super Size Me’, vencedor do prémio de melhor realizador no Festival Sundance.

Em vários pontos, o discurso de Eric e de Morgan é semelhante. Os dois criticam duramente a propaganda da indústria voltada para as crianças, e a responsabilidade dos restaurantes no crescimento da obesidade nos Estados Unidos – 37 por cento das crianças e adolescentes têm peso a mais, e dois em cada três adultos são obesos.

A CULPA É DE QUEM?

Isabel do Carmo, endocrinologista, viu ‘Super Size Me’.E criticou o filme por ter atribuído o papel de vilão à McDonald’s – perdoando as outras cadeias de ‘fast food’, igualmente responsáveis na confecção de comida com excesso de gordura, sal e açúcar.

“As pessoas precisavam de ser chocadas”, diz-nos Isabel do Carmo. “Só assim, através desta linguagem, é que percebem.” A endocrinologista é uma acérrima defensora de medidas para travar a obesidade infantil, como a proibição de máquinas de distribuição de alimentos calóricos nas escolas e a publicidade televisiva a doces e refrigerantes em espaços infantis.

Os resultados preliminares da pesquisa que está a ser realizada por sete especialistas, e coordenado por ela, revela que mais de metade da população portuguesa (51,6 por cento) tem peso a mais ou sofre de obesidade. Comparativamente ao último estudo do género, realizado em 1995, a pré-obesidade aumentou quase dois por cento.

A médica não esconde a preocupação: “O programa da Direcção-Geral de Saúde sobre esta matéria não pode ficar só pelo papel, são precisas medidas concretas”. No entanto, recusa-se a atirar a primeira pedra à indústria de ‘fast food’.

Quando os filhos eram pequenos, também Isabel frequentava, esporadicamente, o McDonald’s: “Tive de fazer algumas concessões. No caso do ‘fast food’ acho que se pode ir lá às vezes. Para que as crianças não se sintam extraterrestres”, justifica. Mas desaconselha a visita aos restaurantes de comida rápida mais do que uma vez por mês.

Para Dina Lopes, 29 anos, licenciada em Engenharia Agro-Alimentar, pelo Instituto Superior de Agronomia, e especialista em alimentação, o melhor era só lá ir de três em três meses. “Principalmente para as crianças, o McDonald’s é tentador. Cabe aos pais ensinarem-lhes que aquela comida engorda, que só deve ser consumida em ocasiões especiais.”

Apesar de ainda não ter visto o filme, também Dina se recusa a deitar as culpas todas na McDonald’s: “Se não vivêssemos num mercado livre, e as pessoas fossem autómatas, podia-se falar de outra maneira. Agora, ainda somos nós que escolhemos o que devemos ou não comer”.

Para os que vão lá com frequência, Dina sugere que peçam hambúrgueres sem molhos – porque acrescentam mais gramas de gordura – evitem as batatas fritas e, se possível, optem pelo sumo de laranja em detrimento dos refrigerantes.

O mais difícil é convencer os consumidores a pôr de lado o pão: “É feito à base de açúcar e farinha, com muito poucos cereais. Por isso é que se derrete logo na boca. Se quisesse, a McDonald’s podia a começar a vender os hambúrgueres em pão integral, por exemplo”, sugere. Uma ideia que até nem é muito descabida…

ESCOLAS 'FAST FOOD'

A verdade é que os hambúrgueres da McDonald’s nem sequer são os mais calóricos do mercado. O próprio Morgan Spurlock reconhece ter seguido um regime alimentar excessivo, que ultrapassava as cinco mil calorias diárias – quando um adulto não deve ultrapasssar as 2500/dia.

O facto do realizador ter atacado exclusivamente a marca McDonald’s não a torna pior do que a concorrência. “Todas as empresas de ‘fast food’ copiam o que eles fazem. Foi a McDonald’s que inventou os tamanhos ‘super size’ e logo as outras marcas passaram a ter essa opção”, justifica o autor de ‘Super Size Me’.

“Quis pegar na empresa que, na minha opinião, poderia fazer as coisas mudarem o mais rápido possível em toda a indústria, se quisesse”, remata.

A McDieta de Spurlock só ocupa metade do filme. O resto do documentário aborda o tema da obesidade nos Estados Unidos, onde se aponta o dedo às cadeias de ‘fast food’ – que apostam cada vez mais no formato ‘super size’.

“Mas no final, cabe ao consumidor deixar-se ou não seduzir pela tentação”, reconhece o ex-realizador da MTV. Para ele, o mais grave são as estratégias agressivas utilizadas pela McDonald’s para captar a atenção das crianças através de brinquedos e promoções associadas a desenhos animados ou eventos desportivos.

A presença da comida rápida na cantina dos colégios norte-americanos – facto que já tinha sido denunciado nos livros de Eric Schlosser ou Naomi Klein – também não passou despercebido ao realizador. Morgan Spurlock filmou uma série de estabelecimentos de ensino onde o menu oferecido às crianças é composto essencialmente por pizzas, hambúrgueres com batatas fritas, bolos e chocolates.

MCDONALD’S CONTA ESPINGARDAS

Consequência ou não do filme, a McDonald’s anunciou que ia deixar de servir nos seus restaurantes americanos, os menus Supersize. Até ao final do ano, anunciou um porta-voz, a companhia vai retirar dos seus 13.600 restaurantes nos Estados Unidos a opção de acompanhar um hambúrguer com uma dose de 200 gramas de batatas fritas e um copo com um litro de refrigerante.

A mudança integra-se numa reestruturação dos menus da multinacional, em estudo desde 2002, e que pretende uma simplificação global e uma aposta num estilo de vida equilibrado.

Em Portugal, a companhia pediu à atleta Susana Feitor para protagonizar a campanha de publicidade da ‘Go Active! Happy Meal’ – menu constituído por uma salada, uma garrafa de água e um aparelho para contar os passos das caminhadas, incentivando assim o desporto e os hábitos de vida saudáveis.

Símbolo da marcha atlética, Susana não pensou duas vezes. “Como não tenho tempo para cozinhar, vou lá frequentemente”, confessa. “Costumo pedir o McRoyal Deluxe, sem molho, mas também sou fã das saladas. Quem souber comer bem no McDonald’s, pode ir lá as vezes que quiser”, esclarece a atleta.

Durante as quatro semanas dos Jogos Olímpicos, em Atenas, a McDonald’s anunciou que os seus três restaurantes da Vila Olímpica ultrapassaram em mais de 40 por cento as vendas previstas.

As novas saladas tornaram-se num dos produtos favoritos dos consumidores, vendendo três vezes mais do que o previsto. Só durante a primeira semana, os atletas deliciaram-se com 25 mil saladas e mais de 21 mil Fruit & Iogurt.

Susana Feitor era presença assídua: “Cheguei a ir logo depois da minha prova”, diz, divertida. “Como atleta profissional tenho de ter cuidado com os sítios onde faço as refeições. No McDonald’s sinto que estou em segurança.” De lado só ficavam os molhos e as batatas fritas.

PENSAR PARA COMER Abuso. É nesta palavra que está a chave do problema.

“O aumento de peso não passa tanto pela qualidade dos hambúrgueres, das pizzas ou dos fritos, mas no consumo abusivo deste tipo de alimentos”, refere Helena Fonseca, pediatra do Hospital Santa Maria.

Acresce a isso o aumento do sedentarismo da população, entre adolescentes e crianças e, em linhas gerais, está explicado o problema.

Enquanto na farmácia não se venderem medicamentos milagrosos para controlar a obesidade, pensar antes de pedir hambúrgueres ou uma fatia de pizza à hora de almoço – e praticar mais exercício físico –, continuam a ser os melhores antídotos contra os quilos a mais.

“Pelo menos, o meu filme pode servir para as pessoas começarem a prestar mais atenção aos alimentos que ingerem ao longo do dia”. Com isso já o realizador se contentava.

"A maioria dos trabalhadores não tem um emprego a tempo inteiro, não recebe quaisquer subsídios, aprende pouco e larga o emprego passado poucos meses." É desta forma que Eric Schlosser descreve o conceito de McEmprego no livro 'O Império do fast food'.

"Nada mais errado", segundo a opinião de Ísio Lima, de 22 anos, empregado no McDonald's há quatro. "O que torna isto engraçado é a competição que se gera entre as pessoas que trabalham na cozinha e os que estão ao balcão", garante o estudante, que quer tirar o curso de Relações Internacionais.

Aos 22 anos, Sandra Pombo está em 'full-time' no McDonald's de Alvalade. Com um filho pequeno, precisa de tempo para cuidar dele. "Nesta empresa tenho algumas regalias. Desde que sou mãe, deram-me folgas ao fim-de-semana."

A ouvi-los com atenção está Ana Paula Lourenço, a gerente do restaurante. Fala com ternura da equipa que ali trabalha, e refere-se aos McEmpregados como 'os meus meninos'. "Sem o trabalho e a dedicação deles isto não funciona", diz.

Há 11 na McDonald's, Ana Paula ainda não se fartou de comer 'fast food'. Às vezes alterna com uma sopa, que traz de casa, mas as suas refeições são quase todas feitas no restaurante. E até já deixou a filha de um ano experimentar as batatas fritas da McDonald's. "Ela adorou.”

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