Orgulho dos pais, menino exemplar na Casa Pia, foi criado a dois passos do Casal Ventoso, em Lisboa, para brilhar na bola e ser hoje um talento no Benfica.
É o mais recente talento a emergir no futebol português, mais um exemplo de virtuosismo inato que o tempo apenas soube moldar. Mas é ainda tempo de crescer e continuar a seduzir porque o sonho apenas começou. João Pereira, um jovem conquistador recentemente entrado para a galeria da ribalta, não precisou de muito para se afirmar na primeira equipa e, repentinamente, conquistar uma imensa legião de seguidores, já seduzidos pelas qualidades do novo ‘miúdo’ da Luz. Afinal, há muito que o Benfica não tinha um símbolo nascido e criado no ‘ninho da águia’.
Hoje, é com um brilho especial a moldar-lhes o olhar que aqueles que desde sempre o conhecem recordam os verdes anos de uma infância difícil e marcada pelos condicionalismos de uma vida feita com suor mas também com amor, ali a dois passos da Meia Laranja, paredes meias com o Casal Ventoso, em Lisboa. A mãe galinha que sempre viveu do trabalho, o pai que faz da noite uma forma de ganhar o dia – numa gráfica –, eles sim, conhecem bem o João. E é benfiquista desde pequeno apesar de nesse tempo, ainda com o avô vivo, o Sporting ser-lhe apetecível. Em jeito de brincadeira, como moeda de troca pelos rajás ou pelos chupa-chupas, o avô, indefectível ‘leão’ exigia-lhe a 'clubite'. Também o pai estava disposto a fomentar o espírito ‘leonino’, mas a mãe não ia em conversas. Era Benfica. O tempo correu depressa e agora é com alguma nostalgia que se recordam as manhãs intermináveis, a mãe com o bebé João ao colo do autocarro para o eléctrico ainda o dia mal havia nascido. Era pelas 06h00 que os dois saíam da casa que ainda hoje habitam, na Rua Maria Pia, porque o dinheiro ganho na fábrica de lâmpadas ao Campo Grande, onde a matriarca trabalhava, era então imprescíndivel para educar aquele menino nascido a 25 de Fevereiro de 1994. Os primeiros transportes levavam-nos até à Madragoa, bairro típico onde vivia, e vive, a Dona Esmeralda, ama do pequeno João.
Ali, deixou saudades o seu gatinhar, mas o tempo corre e era preciso dar-lhe instrução.
‘As Irmãzinhas’, um infantário à beira do Rato, foi a sua primeira escola. Desde cedo revelou gosto pela aprendizagem e era sem espanto que os pais, ano após ano, recebiam elogios pelas performances do filho único. Foi ‘sempre a abrir’, um pouco como é ainda hoje quando faz do flanco direito um corredor de livre trânsito. Sem problemas... até à quarta classe. Foi neste período que o João se afirmou como benfiquista dos sete costados. A prima que o ia buscar todos os dias ao infantário influenciou a escolha. Em sua casa, onde o ‘puto’ ficava até os pais o irem buscar, eram todos benfiquistas. “Queres ir ao jardim João?”, perguntava-lhe o primo mais velho. “Então de que clube és?”. “Do Benfica”. Porque o avô já cá não estava, havia falecido.
É como benfiquista assumido que se coloca, após a primária, a dúvida na cabeça dos pais. Era preciso deixar o infantário, mas a perspectiva de continuar os estudos em Campo de Ourique não agradava à família. “O ambiente não era o melhor”, dizia-se. E mesmo com as dificuldades da época o João justificava outros cuidados. Foi assim que chegou à Casa Pia, ao colégio de Belém, um local ideal para conciliar os livros com sua a paixão: o desporto!. Repetiu-se a história. Do primeiro ciclo ao 12º ano, sempre sem chumbar ou evidenciar qualquer problema quanto às matérias dos manuais. Exemplar, faz parte do quadro honra dos melhores alunos da Casa Pia. Incansável, aproveitou para fazer um curso de formação de Desporto naquela instituição, chegando mesmo, ao longo dos anos, a ganhar várias provas de... atletismo, mais uma das modalidades que aprecia. Foi também com a camisola dos ‘gansos’ que jogou em Inglaterra um Mundial de futebol cinco, inter-escolas. Futebol, muito futebol, atletismo e também o hóquei em patins, outra paixão desenvolvida enquanto casapiano.
Uma carreira de desportista O desporto fazia parte da sua vida desde os seis anos. Começou no Domingos Sávio e logo a ganhar. Duas vezes campeão distrital foi quanto baste para despertar o interesse do Benfica. Ricardo Quaresma, hoje no Barcelona, era outro dos jovens talentosos que ali se exibiam. Conheceram-se ‘miúdos’; ainda hoje se falam.
Foi durante um torneio na Pontinha que o falecido José Águas e Vítor Martins decidiram falar com o senhor Adelino Pedro, o pai do João Pedro Pereira, para o levarem para a Luz. A família hesitou, o filho tinha apenas nove anos e a Casa Pia era o destino desejado. Acabaram por ceder e fazer a vontade ao João. À época, um protocolo entre os ‘encarnados’ e o Domingos Sávio permitiam levar todos os anos dois putos para a Luz por 300 contos. Assim foi, mas só levaram um, o João, porque o Quaresma, também desejado, tinha um irmão no Sporting e acabou em Alvalade. Com os pais empregados, habituou-se a andar sozinho. Saía de Belém, da Casa Pia, no eléctrico para Algés e daí, na carreira 51 para a Luz. Despertava espanto nos pais dos outros jogadores por aparecer sempre sozinho, desembaraçado, de mochila às costas. Só no fim do treino aparecia o seu pai para o levar para casa. Na época de estreia devolveu, oito anos depois, o título de campeão de infantis ao Benfica. Também foi campeão juvenil, orientado por Chalana, numa célebre final em Guimarães. O tempo não pára e ainda júnior foi promovido à equipa ‘B’. Agora, explodiu definitivamente, com o aval de Camacho e, se calhar, até mesmo no Benfica que o viu nascer, poucos recordam os anos em que treinava aleatoriamente, nem sempre com o escalão por que jogava ao fim-de-semana. Importante era treinar e isso o João fazia. Porque nunca perdeu o sentido no futuro e os estudos não podiam ficar para trás. Podia ser júnior e treinar com os infantis, ou iniciado e treinar com juvenis, pouco lhe importava...
É fechado, mas o grupo restrito de amigos não reflecte ingratidão. Sabe e gosta de dar e ainda hoje, quando a vida lhe permite, vai ao Domingos Sávio matar saudades. É assim o João, o ‘puto’ que ainda criança, quando levava colegas de equipa a passar o fim-de-semana na Meia Laranja, arranjava sempre tempo para os levar, ladeado pelo pai, às profundezas do Casal Ventoso. “Era didáctico”, diziam, uma forma de mostrar aos jovens o que não se deve escolher. O João Pereira, do Benfica, é aquilo que ele fez da vida e que a vida fez dele. Não fuma, não bebe e é pouco dado a festas. Às 23h30 está na cama para se levantar com a ‘pica toda’. À noite, porque o sonho só agora começou, ainda vê, a sorrir, os recortes de jornal que a mãe guarda. É um orgulho este filho... n
João Pereira goza de um invejável estatuto junto dos adeptos. Afinal, há muito que das escolas do Benfica não emergia nenhum ‘craque’, exceptuando o guarda-redes Moreira. Hugo Leal, em 96/97, explodiu na Luz mas um litígio com João Vale e Azevedo, o presidente, levou-o para o Atlético de Madrid. Hoje está no PSG. O ano de 1994 foi o tempo de Rui Costa, o menino bonito da Luz, que ainda abrilhanta o ‘calcio’. Já Paulo Sousa, que saltou para a equipa com Eriksson em 1990, acabou por ser o mais vitorioso jogador da história moderna do futebol luso. Duas Taças dos Campeões Europeus conquistadas por clubes diferentes ilustram bem a sua qualidade.
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