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'Memorial do Convento': O livro que também reinventou a língua

Blimunda e Baltasar, Scarlatti e Bartolomeu de Gusmão, D. João V e o caminho de Lisboa a Mafra. Com o ‘Memorial’, José Saramago (1922-2010) transformou a língua da literatura.

30 de agosto de 2026 às 00:30

A maior parte das traduções do ‘Memorial do Convento’ optou pelo título ‘Baltasar e Blimunda’, e a decisão é correta – a história de ambos os personagens domina, estende e amplia todo o livro, sem dúvida um dos três ou quatro momentos mais decisivos da ficção portuguesa dos últimos cem anos. O ‘Convento’ do título original é o lugar de uma parábola e de uma metáfora portuguesas – e o ‘Memorial’, para o Saramago de 1982, é um recuo no tempo para os vencidos da terra de ‘Levantado do Chão’ (1980), que termina como um coro profundo vindo das profundezas da planície. A parábola está lá, como em toda a obra de Saramago, reinventando a língua dos mestres e reconstruindo os reveses da História, mas não há correspondência entre os ressuscitados que nesse romance se erguem do chão, num retrato formal da luta de classes nos campos alentejanos, e os camponeses e operários que trabalham na construção do convento de Mafra; para compreender o significado do título é necessário ter uma visão de conjunto sobre a primeira metade do século XVIII e conhecer o sentido profundo que Saramago empresta à palavra ‘memorial’ com o derradeiro final de ‘Levantado do Chão’ – como uma reparação e um resgate dos humilhados e oprimidos que não fazem parte da História. O ‘Memorial’, de facto, é o romance sem o qual José Saramago não seria possível, apesar de já ter publicado ‘Manual de Pintura e Caligrafia’ (1977), que devia ser lido como um dos mais extensos programas literários de um autor português, e ‘Viagem a Portugal’ (1981), que é um anúncio definitivo do estilo de Saramago.

A abertura é sumptuosa como um quadro barroco, centrada nos aposentos de D. João V e de D. Maria Ana, rainha consorte e arquiduquesa da Áustria. A história é conhecida: se daí resultar um herdeiro, o rei mandará construir – é a promessa que faz aos frades franciscanos – um convento em Mafra. Terá seis filhos e o convento levantar-se-á do chão soterrando os mortos anónimos. Mas a entrada barroca, subvertida desde o início com a aparição dos percevejos no dossel real, não se entende sem compreender a língua literária de Saramago ou a influência decisiva que nele terá António Vieira, prosador dos prosadores. Um leitor anglófono não compreende essa revolução, que pertence às línguas ibéricas. É ela que permite modelar a sua profunda ironia (só acessível, na totalidade, a quem leu Vieira), o génio da repetição e da dúvida, da desconstrução e da reescrita da história. A história de Blimunda e de Baltasar (que deve ser lida nessa ordem) é de uma intensidade comovente; nela, coexistem a melancolia e a busca de uma pureza cúmplice naquela Lisboa atravessada por autos de fé e pela sujidade das igrejas e dos frades. A entrada em cena de Domenico Scarlatti, com a sua música, e do padre Bartolomeu de Gusmão, o génio da passarola, são momentos únicos e, reunidos a Blimunda, a caçadora de almas, e Baltasar, o de uma só mão, guardam o lugar de Saramago como um poeta único: “Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão voar um dia, gostava de ir nela e tocar no céu [diz Scarlatti], e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música”.

Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua mão direita que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda.

TÍTULO: Memorial do Convento | AUTOR: José Saramago | ANO: 1982

1982 Memorial do Convento

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